Nostalgia política

domingo, agosto 26, 2007 · 3 comentários

lutaram tanto (por eles!)

Diversos políticos. A luta pelas Diretas-Já. O apoio popular. A conquista. Color como o primeiro presidente eleito pelo voto direto. O povo se mostra preparado para o pior. Escândalos. Caras pintadas. Apoio da grande imprensa. Renúncia.
Lembro-me que estive lá na Paulista. Não manchei o rosto com tinta. Verde e amarelo se misturavam ao vermelho do meu sangue. Meu amor pelo país, a esperança, faziam-me mais vivo.
Erundina era a prefeita na época. Teve que ouvir dos estudantes que a passeata não era partidária. Suplicy também ouviu os mesmos gritos. Um amigo tentou indução. Solicitou que eu pedisse autógrafos ao senador petista. Não o fiz. Nunca foi do meu feitio bancar uma de fã.
A manifestação foi organizada. Na escola fiquei sabendo que partiríamos para a passeata. Vários estudantes gratuitamente no metrô. Foi a única vez que não paguei o bilhete. E única também me foi esta passeata, passivo que sou.
Eu pouco recordo do que era naquela época. Sei que meu interesse por política seguia em descompasso com a minha auto-estima, que se mostrava baixa. Naquela época eu adorava as eleições quaisquer que fossem. Assistia a todos os horários eleitorais. Analisava. Confrontava-os com os do meu candidato. Era algo que me dava enorme prazer.
O tempo passou. Outros presidentes foram eleitos. Novos escândalos surgiram. Neles, homens que brigaram pelas Diretas-Já. Pouco mudou nesse ínterim. Apoio político segue sendo comprado com cargos. A corrupção finge-se não saber da existência. E por aí vai... (o país é que praticamente não vai)
Já não assisto mais aos programas eleitorais na TV. Eles se tornaram ridículos para mim. Chato ver que são produtos das mentes de profissionais da publicidade. Que não há interesse algum em politizar as pessoas, senão apenas persuadi-las a votar em determinado candidato-produto. Tremendamente chato também é ver que homens públicos que lutaram tanto pela democracia hoje se esquecem que este sistema é justamente feito por meio da representatividade. Mas os engravatados eleitos, parece, são representantes não da massa de pessoas, senão da massa de capitais louco por lucros cada vez maiores. Democracia só para eles. Somente na hora da campanha. Depois, é amnésiocracia.

opiniões


Republicanamente peço: MAIS CRÔNICAS, MENOS OPINIÕES. Aliás, uma pergunta fundamental: O Jornalista deve ou não abrir mão da opinião, em favor da imparcialidade?
Alan Davis, fotógrafo, membro do Conselho do blog

Resposta do blog
Alan, um jornalista quase sempre tem opinião. Ele não pode é ideologizar as suas palavras. O texto em questão tratá-se de uma crítica pluripartidária.
Adelcir Oliveira - Opiniões & Crônicas


clique no título para ler PALHAÇOS NA PLATÉIA



Prisão de vocábulos

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a minha busca no outro

Esse olhar constante para os lados. É de fato uma busca por assunto. Não naquilo que se vê. Na verdade, é um olhar interno. Uma procura lá dentro. Ver o que há. Insistir na investida. Quem sabe a teimosia acorde as palavras em mim...
Recordo-me de uma pessoa. Mais que amigo. Nele, o apreço por crônicas. Estilo de texto que possibilita um namoro com a poesia. Alguém que possui intensa relação com literatura. Que tem olhos que já percorreram o que de melhor já se foi escrito nesse mundo. Que certamente deixará de presenciar diversos parágrafos escritos por gênios da literatura.
As olhadelas em meu entorno se repetem. A alma minha fecha-se para cada parágrafo. O que escrevo aqui é um monólogo. Falo comigo. Modo que encontro de tentar abrir as portas desta prisão de vocábulos. Mas por que será que esta alma minha insiste em negá-los?
Oito linhas desprezadas. Eu falara sobre duas mulheres. Quando minha indagou-me a razão das palavras. Foi quando declinei. Desisti. Até procurei respostas para escrever. Mas vi que o ato era inútil. É assim. Escrevemos sem saber por que, às vezes. Ato inconsciente. Mas vejam. Muitos atos assim são os que originam bons textos.

clique no título para ler Pauta encontrada



domingo, agosto 19, 2007 · 1 comentários

Há este espaço. Um quadrado amarelo. Duas palavras rejeitadas. O espaço diminuto ilustra o tamanho da inspiração e até da vontade de escrever. Antes deste primeiro final, uma releitura.
Não é o tamanho do palco das letras que oprime a expressão sincera de sentimentos ou pensamentos. De certo, a dificuldade de encontrar o conjunto ordenado de palavras é por outro motivo. Mas qual?
Este vazio de idéias contrasta com o vai-e-vem de pessoas. Aqui, movimentos paralelos de pernas não cessam. Alguns parecem meio perdidos. Outros esperam. Aqueles cheios de pressas passam. Há os atrasados. Há os que trabalham. Tem aqueles que perguntam e pouco entendem as respostas.
Havia um beijo. Mulheres estonteantes. Muitos estudantes. Pessoas simples. Caras embrutecidas. Rostos serenos dão a graça por aqui. Mães e filhos. Velhinhos. Corpos de todos os tipos. Olhos para o chão, para frente, para o lado. De certo, há os sem rumo algum...
E o que não há nestas cenas que se passam aos olhos de tantos aqui? De certo, isto é significativo. Claro, depende do modo de como se considera este mundo. O que vale dizer é que nessas cenas cada um faz um enquadramento diferente. São olhos funcionando como se fossem câmeras de vídeo.
Não havendo o que se pergunta sem saber, de modo algum deixa de haver de fato. Enfim, se não há nele, nela, há noutro. A segurança, não tem aquele. Aquele outro possui. E por aí vai. É um haver e não haver. É assim... E enfim, há este texto. E haverá uma leitura, como não não haverá...

clique no título do texto para ler: REALIDADES. ELA. EU. VOCÊ


opiniões

Nossa!De imediato, lembrei de uma música assim que comecei a ler este texto. (... As vezes saio a caminhar pela cidade a procura de amizades vou seguindo a multidão, mas eu me retraio olhando em cada rosto, cada um tem seu misterio, Seu sofrer sua ilusão...) Infelizmente os olhos funcionam como se fossem câmeras de vídeo!Particularmente, acredito que a falta de percepção nos fará um dia prestar contas de alguma maneira.A maneira de como se considera o mundo, penso que seja um estado de alma.Há mesmo um vazio e dispersão, carência.
Gina Jacob, solteira
Adora natação



Texto da satisfação

domingo, agosto 12, 2007 · 1 comentários

em respeito ao leitor

Esse é o texto da satisfação. É resultado do respeito merecido pelo leitor. O fato é muito simples. Decorre das atrapalhadas financeiras daquele que mantém este blog. Cosas de la vida, diria alguém que gosta de frases prontas.
Há dois problemas. Um deles é a total falta de tempo para publicar textos. Tem motivo: o autor do blog estará fora de casa o dia todo. O outro é muito pior: falta de inspiração!
Nesta pequena satisfação, os parágrafos dão o a medida do padrão escolhido. Por detrás dela está a ausência dada pelo problema número dois. Isso ocorre. Faz parte da dinâmica deste blog. Certa vez uma fase cinza quase deu fim a este veículo de comunicação. Não é o caso agora.
Fica dito. Entenda, leitor. Este blog adora ilustração. E a vida não é como a gente quer. A vida é como ela é... Mas afinal de contas qual é a satisfação?



Dias em vão

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de certo, texto de outro momento

Contei. Quatro rabiscos condenaram um início. E agora já estou em outro. Logo o deixarei. Há pouco eu era parabenizado por mais um ano vivido. Não falta muito, as mesmas felicitações virão. Comigo, neste momento, o medo da brevidade da vida.
O problema não é exatamente o passar ligeiro do tempo. Duro é ver que a vida parece em vão. O tempo passa e o sujeito permanece estático. Se a alma cobra, há razões muitas vezes desconhecidas. Essa pressão toda derruba as vontades, sobretudo de acompanhar o ritmo de um dia-a-dia que se mostra chato, breve, quando não, em vão.

clique no título para ler Não se preocupem com o final



Lula entre boçais e descamisados

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Adalton Oliveira


Há muito que o Brasil é um país brutalmente desigual. Quando tomou consciência da imensidão de terras que havia descoberto e diante de seus poucos recursos, a Coroa Portuguesa decidiu dividir o país entre alguns poucos “afortunados”, criando para tanto as conhecidas capitanias hereditárias e estabelecendo a primeira parceira entre governo e iniciativa privada da nossa história. Eram muitas terras para poucos donos. E esta toada de profunda desigualdade se assentou durante o passar dos anos: o latifúndio movido pelo braço escravo foi característica marcante durante cerca de três séculos de nossa história.
Formou-se assim uma casta privilegiada de senhores de terra que, detentora do aparelho estatal, passou a governar (e a desgovernar) o país a seu bel-prazer. Aos pobres, a polícia. Direitos, só aos privilegiados; deveres, todos para a ralé.
Dos latifundiários, industriais incipientes e poucos financistas, o Brasil passou para o controle dos militares. O exercício do poder mudou de mãos, mas os detentores efetivos dele eram os mesmos de sempre. Em nome dos sempiternos privilegiados, os milicos governaram com mãos de ferro, usando como desculpa o argumento de que era preciso “garantir a soberania nacional”, afugentando a ameaça comunista. Interessante soberania esta que se curvava diante do poder norte-americano, como Golbery do Couto e Silva deixou transparecer em alguns de seus escritos.
Mas, quando os ventos da globalização que varriam o mundo aqui sopraram, trazendo as idéias de abertura radical ao mercado exterior, os financistas assumiram o controle do poder e trouxeram com eles as teses de governo enxuto, equilíbrio fiscal, câmbio flutuante e etc. como meios que garantissem baixa inflação a fim de assegurar o alto retorno do capital. Collor foi o primeiro arauto do novo poder; a ele, seguiu-se o fiel escudeiro FHC. Com este último, a inflação foi domada, o aparelho estatal desmontado e sindicatos de trabalhadores destruídos. Conseqüências: altos níveis de desemprego, brutal queda da participação dos salários na renda nacional, crise energética (a maior mostra de incompetência da história nacional, segundo Delfim Netto), violência urbana crescente e ausência de qualquer projeto nacional de desenvolvimento. O país estava à deriva e o Estado, endividado como nunca, posto de joelhos diante do capital financeiro.
Mas, ironicamente, o furacão FHC permitiu a ascensão de Lula ao poder. Com este, ao contrário do que se temia, os ricos continuaram (e continuam) ricos e os pobres permaneceram (e ainda são) pobres, mas não mais tão pobres como outrora. Contra números e fatos não há argumentos: os pobres melhoraram um pouco de condição, ainda que graças às benesses do Estado. E viraram o porto seguro de Lula contra o ódio e preconceito que destilam contra ele ricos e remediados. Aliás, ódio e preconceito se manifestaram claramente em pequena passeata realizada em um final de semana de agosto, na qual pessoas se dizendo cansadas gritavam ofensas ao Presidente: “Lula ladrão, Lula bêbado” e etc. Cansados de pensar e descontentes com a democracia, pois esta só serve quando lhes convêm, bradavam pela volta dos militares ao poder. “Acordem milicos”, berravam eles. Pensam pertencer à elite, mas, se definirmos elite como o grupo hegemônico detentor de um projeto tornado legítimo aos olhos dos demais, não são eles elite, pois este pobres cansados não têm projeto, não têm idéia nenhuma, nada além de preconceito e ódio. Na verdade, formam uma ralé endinheirada. Ou seja, não são muito diferentes da “ralé” que desprezam.
No ápice da boçalidade, uma senhora se dizia parte do chamado povão, pois tem o hábito de brincar o carnaval em meio aos negros cariocas. Isto me fez lembrar as histórias dos senhores de escravos que se divertiam com suas negras, o que em nada modificava a condição de senhor e escravo. Que Deus tenha piedade dessa gente cansada.

clique no título para ler: "Para o brasileiro, brasileiro é o outro"



A modernidade povoada por fadas, bruxas e gnomos

quinta-feira, agosto 09, 2007 · 0 comentários

Adalton Oliveira


O advento da Modernidade pôs o homem dotado de razão no centro do universo. A partir daí, estariam banidas as explicações fantásticas para os acontecimentos do dia a dia. Superava-se então a idéia de destino; agora, cabia ao indivíduo decidir os rumos de sua vida. Deus, nesse novo mundo, perdia sua primazia e assumia um papel unicamente espiritual, quando não era relegado a um plano puramente feérico.
Cabia, pois, aos homens organizarem suas vidas, sem depender mais da boa vontade dos deuses. O desenvolvimento do capitalismo, calcado numa razão instrumental, ou seja, exercida com fins devidos e meios especificados, nada mais foi do que fruto vigoroso dessa nova maneira que os homens "encontraram" de encarar a realidade. Nesse mundo dominado pela mercadoria, essência da produção capitalista, não haveria mais espaço para o fantástico, para o irracional. Tudo se resumiria agora ao cálculo econômico, maximizador de prazer e redutor de sofrimentos.
Mas, curiosamente, esse mundo habitado de seres racionais e hedonistas é ainda povoado por anjos, fadas, bruxas e gnomos. O destino, traçado no plano metafísico, continua a ser invocado como explicação para os fatos do cotidiano. Os homens insistem em apelar para os orixás quando em dificuldades e, quando não, agradecem aos santos pelas graças recebidas. Escritores fazem fortunas povoando suas obras de seres mitológicos, capazes de solucionar todos os problemas num simples estalar de dedos. Vivemos ainda em um mundo povoado de seres imaginários que nos ameaçam tanto quanto os seres de carne e osso que encontramos nos faróis das grandes cidades, sedentos por nossas carteiras ou simples relógios. Viver, como diria Guimaraens Rosa, continua a ser algo perigoso nesse lugar onde o fantástico e o real convivem lado a lado.
Mas, o que explicaria esse retorno (ou esse não abandono) ao mundo das fadas e bruxas. Talvez porque a razão não foi capaz de compreender inteiramente o mundo que nos cerca, ou talvez porque as mercadorias não nos trazem a felicidade que dizem nelas estar encapsulada. Então, assustados e infelizes, buscamos consolo na fantasia, tal qual crianças curiosas ouvindo contos de fadas.

clique no título para ler Brasília, cidade-fantasma



Tempo nublado

quarta-feira, agosto 08, 2007 · 0 comentários

mais fácil colocar a culpa no mundo

Tempo nublado. Chuva fina insistente. Alma que sofre. Olhar que esquece o brilho. Sorriso que não sai. Palavras que se calam. Insatisfação que domina.
Sentimentos. Administrá-los é necessário saber. O problema é quando eles resultam em ondas dolorosas. É quando as vontades, todas elas, ou quase todas, se vão. Daí, simples ato se torna uma empreitada rejeitada. Que fazer? Esperar que passe. Calar-se. Recolher o corpo. Optar pela ausência. Deixar de pensar não é possível...
Este flerte com o vazio tem suas causas. Muitos estão adoecidos. Por isso já não fico indignado com aquela cara amarrada. Condeno cada vez menos a dificuldade do outro em se comunicar. Mas ainda falho, pois sou assim tão cheio de falhas. Ainda, por vezes, me aborreço. Projeções insistem em acontecer.
Tudo bem! Que adianta eu dizer que o mundo que é vazio? É disfarce. Fazemos isto. Intenção de disfarçar o vazio nosso. É assim. Difícil assumir responsabilidades, principalmente as psicológicas.

Não sei se terminei este texto. Se o fiz, perdi a folha que era rascunho. Em respeito a este dia, digo apenas a data em que ele foi escrito. Não intervenho. Escrevi em 27Ago2007.

clique no título para ler LA TEMPESTAD NECESARIA



Trama literária

terça-feira, agosto 07, 2007 · 0 comentários

a segurança que vem do auto-conhecimento

Trama literária. Termo que acredito já ter usado. O caminhar que abandonou repentinamente a tranqüilidade. A insegurança que sugeriu a pauta. Daí então, meus pensamentos tramaram um texto. De certo, faltou a certeza da pauta. Não é poucas as vezes que isto me ocorre.
O assunto se mostra evidente em mim. O fato é que estou cansado de não me expressar. Preciso deixar que as palavras gritem por minha alma. Na verdade, cada vocábulo é um grito dela.
Segurança. Quem tem, vive melhor. Alguns são seguros de acordo com as circunstâncias. Não são felizes de fato, mas seguem melhores que aqueles com insegurança constante.
Medo de gente. Este é o pior dos medos. Lembro-me daquele olhar inseguro. Toda aquela perturbação. E a fuga constante era modo de mergulhar ainda mais medroso. O tempo passou. Sei que aquele desconforto do outro era circunstancial. As razões, não sei...
Mais segurança temos quanto mais sabemos de nós. Viver para se conhecer. Muitos filósofos já disseram isto. Eu apenas os repito, e concordo.
Ilustrar para prosseguir. Personagens reais. Um modo que agrada aos leitores. Assim, é possível ver que o barco não é de um tripulante só.
Aquele rapaz. Seu profundo complexo de inferioridade. A arrogância como arma de defesa. Em nossa competição, meu prazer em ver seus sofrimentos momentâneos. Ambos éramos pequenos em nossos pensamentos...
Ilhas de segurança. Circunstâncias. O rapaz em questão crescia frente aqueles simples equipamentos de edição de vídeo. Criara para si a ilusão de grande conhecimento. Elegera-se como o mais habilitado profissional do ramo. Eu lhe era um inimigo, justamente por saber que tudo não passava de amarga ilusão.
Em seu carro. Seus complexos eram maquiados. Naquele belo 0km, boa parte de seu histórico salarial. O problema é que não dá para chegar a uma simples recepção vestido de automóvel.
Insatisfeito com seu cargo, reclamava reconhecimento por parte do patrão que um dia lhe pareceu amigo. Apostara na afetividade para galgar cargos. Desavisado, ficou para trás face à profissionalização da empresa. O dinheiro para investimentos em educação estavam na vaidade automotiva.
Fácil era criticar o rapaz. Difícil é conviver com os complexos. Alguns tem a sorte de que eles se tornem ferramentas de ação. De qualquer maneira, não são de fato passos felizes. Enquanto perdurarem os complexos, a insatisfação vai trazer a conta vez em quando. Na obviedade a ser dita, enfrentar as dificuldades é saída obrigatória.

clique no título para ler Bom Retiro. E um dia de mau humor



Crônica para aquecer

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a imaginação pode ser treinada

Exercício da escrita. Uma crônica como opção. Pode ser considerada urbana. O tipo não importa. O que me vale é aquecer a inspiração. Creio que isto seja possível.
O vagão segue bem cheio. Presta o metrô um bom serviço à população. Vai demorar, caso ocorra, a sua expansão por toda a cidade. Iniciamos lado a lado com a Cidade do México. Ficamos muitas estações atrás.
Uma confusão de vozes. As mais próximas provém de duas mulheres. A cada abertura de porta, mais passageiros. Se estamos no inverno, não é o caso de vestir uma blusa, jaqueta, o que for. Mas a anterioridade do dia ensinou a trazer a tira-colo um tecido a mais para aquecer.
Da caixa-acústica exala a voz do maquinista. Um chiado a torna ainda mais desagradável. Os avisos já não são novidade. Talvez por isso funcionem.
A tatuagem em seu pé não decodifico. A bebida para o seu bebê está claro que é água. O excesso de maquiagem não é da minha conta. E já me esqueci se o garoto que a acompanha carrega consigo outra criança. Não os vejo mais. Pessoas tomam conta do corredor. Descem nesta estação. Estamos no coração de São Paulo: Praça da Sé.
Muitas pessoas. Variados tipos. Vê-las me causa um desconforto. Não os culpo. Algo em mim turva o meu olhar. Informações corrompidas. Um vírus que traz disfunção à tecnologia da natureza. Meus pensamentos necessitam de um anti-vírus.
Sol. Estou naquela que é a minha penúltima estação. É evidente que corro a caneta de forma mais veloz. Quero ser mais rápido que o trem. Mas por que esse desejo em terminar? Por que não o faço em outra viagem? Desço.

ps: o menino tinha também uma criança no colo.

clique no título para ler Qual o assunto?



Recordações mineiras

domingo, agosto 05, 2007 · 2 comentários

férias que terminam

Essa técnica de escrever com as lembranças, os sentimentos, complica o primeiro parágrafo. Você trama algo. Escolhe uma recordação. Quando vê, uma salada de opções lhe são ofertadas. Daí, o melhor a fazer é não optar. Uma boa saída é relatar esta dinâmica.
Lá em Minas Gerais. Interior. As ameaças estão no que está oculto ou nas estradas que ligam pequenas cidades e povoados. Fora disso, tranqüilidade absoluta.
Amanhã ele iria embora. Um interesse o levava àquela casa. As pernas eram movidas à carência que dominava. Próxima ao portão, a mocinha de pele alva, cabelos pretos e sorriso verdadeiro. Não se assustou com a aproximação do forasteiro. Trocam gentis cumprimentos. Lá na sala, a senhora mal o ouvia. E quem ele quis encontrar, outra vez se fez ausente.
Na cozinha, um bate-papo com a moça de sorriso verdadeiro. Educação como pauta principal. O prazer em ver um ser humano tranqüilo e aparentemente feliz. Pão e café como primeiros alimentos do dia. A despedida cortês. O caminhar com o frio como companhia. A demora do ônibus. Bermuda e camiseta como roupas inadequadas.
Depois do que já foi relatado, praticamente nada é lembrado de como foi o dia. Mas isto pouco importa, não é este blog um diário. Assim, será feito aqui um apanhado de impressões em meio rural e urbano. Quem sabe, a colheita de palavras seja boa.
Cumprimentos. No interior as pessoas se cumprimentam gentilmente, civilizadamente. Muitos foram gentis com o rapaz jamais visto antes. Gostoso era ver sua parenta tão popular e querida pela população local.
Piranguinhos. Terra do pé-de-moleque. Ali, o melhor doce do gênero. Receita que é segredo dominado por algumas famílias. O nome das barracas é dado pela cor de cada uma. Muda também a cor do atendimento. Numa barraca de cor clara, o cinza no modo de tratar o cliente. Na outra de tom mais escuro, colorido na conversa.
Tranqüilidade? O rapaz é informado que está numa das rotas do tráfico. Se todos sabem disto, por que a rota ainda existe? Só assim foi possível entender a preocupação daquele pai com os filhos crescendo. Seu maior medo são as drogas.
Claro que o turista seguia observador. Seus olhos não buscavam apenas belezas femininas. Na verdade, ele queria aquilo que não gritava frente ao seu campo ocular. Nas entrelinhas das palavras é possível captar mais do que é dito.
Estar junto aos parentes é de fato muito agradável. Principalmente quando se é recebido com carinho e cordialidade verdadeiros. Daí a pessoa fica tão à vontade que se sente moradora da cidade. Tudo isto facilita o convívio fora da casa. Ilustração da importância da família no desenvolvimento social do indivíduo.
Política. Piranguinhos ensina um pouco de como ela é feita no Brasil. Evidentemente que a pequena cidade é uma ilustração desse país continental. Dá o tom de que a política é tratada como mercadoria que não se destina a todos. Que grupos são formados e guerras são estabelecidas mesmo após as eleições, tudo sob as asas da Lei. Em segundo plano os interesses da cidade. Objetivos políticos estão em primeiríssimo, senão único lugar. Resultado: todos perdem quando poucos ganham.
Esse modo de pensar a política precisa ser severamente mudado. É preciso que cada cidade, de modo coletivo e democrático, construa seus planos de metas de desenvolvimento. É um absurdo toda uma população ficar à mercê de grupos reduzidos, como se fossem eles detentores da verdade que seria boa para todos. Neste sentido, a democracia deve ser colocada em prática tal qual seu significado semântico: o povo no poder (não um grupo do povo).
O rapaz observa com algum otimismo. Sabe que há pessoas que querem trabalhar de um modo diferente. Lembra-se de figuras nacionais. É sabedor da existência de indivíduos com pensamento mais universal, portanto mais coletivo.
Ele sabe que as mudanças demoram. Que cabe a imprensa um papel neste processo. Para tanto, necessária honestidade intelectual. Não faz uma crítica à atuação gestão do município de Piranguinhos, posto que só obteve contato com a oposição. Tão pouco faz elogios ao grupo por ele ouvido. Deixa apenas uma crítica ao modo de se fazer política neste país. E diz mais, o que viu no interior não é diferente do que ocorre nas grandes cidades. Lembra-se, por exemplo, de grupos contrários em um diretório acadêmico de uma grande universidade em São Paulo. Tapetes que eram puxados com o argumento que se tratava de política. Balela total. Política é coisa séria e pressupõe cordialidade, diplomacia e, sobretudo, honestidade. Se distorceram, é possível corrigir.
Este texto necessita de mais um parágrafo para terminar. Há uma dificuldade em como fazê-lo. Se é feito o relato é porque se tenta encontrar a solução nas pontas dos dedos. Quem sabe relatar sobre as saudades que o rapaz trouxe de Minas seja uma saída. Das pessoas que conheceu lá. Amizades que fez, e até lágrimas de emoção que brotaram em pessoas de almas belas. Esse mundo é assim, tão cheio de sentimentos. O rapaz precisava se ausentar de metrópole que lhe parece fria. Lá, não se recorda de ter visto alguém dentro do carro torto pelo ego. Lembra-se mesmo é de pessoas caminhando tranquilamente. Do cumprimento gentil por parte daquele que nunca o havia visto. De alguma timidez de moças ditas de família. E, algo que é belíssimo, da liberdade de crianças felizes em meio rural. De fato, este é um tema para terminar. Pode-se afirmar com seguridade que as crianças do interior são mais felizes que as da capital. A sensação de liberdade lá é muito maior. Uma prova que o dito progresso nem sempre traz felicidade. Terminaram as férias do rapaz. A deste blog termina agora.

Clique no título para ler UMA NOITE NO CENTRO VELHO DE SÃO PAULO


opiniões opiniones

Interessante como viajei nesta crônica! Já vivi algo parecido em minhas curtas férias. Cheiro de terra molhada, degustar um pé-de-moleque quentinho, enfim, a grande diferença entre a simplicidade do meio rural e o corre-corre da grande metrópole. Beijos com carinho!

Hilda de Melo Andrade,48, designer de velas
Sete Lagoas - MG


Adelcir,ADOREI!!!!!A terceira pessoa trás um ar de mistério....na primeira fica tudo muito explícito,escancarado,sem sal.Dá mais prazer em ler...Adoro qdo vc inicia de modo tão inusitado e q consegue colocar tão bem no papel,o modo.O final tb é......inesperado,inteligente!!Sabes nos fazer ir a Piranguinhos
,passear pelas ruas,sentir as pessoas,entrar na casa e até....tomar um café c/ vc!!!Bjs
Alexandra Galvão, pediatra
Campo Grande - MS



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
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