Principal: ato ou fato?

sexta-feira, junho 29, 2007 ·

Folhas que se foram, fato quase esquecido

O início desta narrativa perdeu-se em algum papel que não encontro. Restam as demais folhas. Então, o que temos aqui é uma história sem o devido início. Algo que a torna inusitada. Fato este que me agrada muito. Que me fez lançar mão do improviso. Muitas vezes ele é o melhor a ser fazer.
O trem permanecia parado. Ouço meu nome dito por voz feminina. Encontro-me absolutamente indignado. Ela grita por seguranças. Não tarda, eles chegam ao local. Trazem consigo a informação de que de nada adiantará um boletim de ocorrência. É o Estado mantendo as coisas como são: erradas.
Se eu me encontrava perdido no início da confusão, quando um rapaz pulou sobre outro a fim de subtrair-lhe um estilete, agora sei o meu papel nestas cenas quase trágicas. Proponho-me a ser testemunha.
Caro leitor, não se indigne. Verifiquei uma inversão de papéis. Falo das folhas onde escrevi o fato que se passou. E agora sigo confuso sobre como consertar meu equívoco. A verdade é que sigo aqui fazendo um exercício de criatividade. Possivelmente por este história ter se passado há algum tempo, eu perdi o interesse em narrá-la de modo preciso. Algo que eu havia esquecido completamente. Neste sentido, não sei o que é principal aqui: o ato, ou o fato.
Sei que naquela noite eu seguia ao lado dela. Uma amiga. Não, mais que amiga. Uma mulher que me encanta. Por quem meu coração bate de um modo diferente. Mas as circunstâncias da vida são a foice das ações.
A confusão. O agredido luta para não perder seu estilete. Não que fosse uma arma que portasse. A preocupação era exatamente que o objeto fosse usado contra si. No embate meus desejos vão se clareando. Quero agredir o rapaz tresloucado. Conclamo a platéia para irmos contra o rapaz. Não se tratava de linchá-lo, mas sim de neutralizar seu ataque. O problema seria o modo de fazê-lo. A possibilidade de desando seria muito provável.
O contraponto. A outra testemunha acusa o agredido de portar o estilete como arma. Não entro em debate. Tenho comigo a certeza de que farei isto no momento adequado.
Ainda há tensão. O segurança ameaça se impor com a força, irritado que está com o protetor do agressor, que posteriormente é advertido face a face.
Racionalidade em campo. Ouvimos o funcionário do metrô dizer que ir à delegacia não será de bom proveito. Pior, poderá sujar o nome até da vítima. Só agora, enquanto escrevo, é que me intrigo com o discurso do aviso.
Despeço-me gentilmente do grupo de estudantes. Todos “amigos” da vítima. Faço o mesmo com os funcionários do metrô. Ouço os agradecimentos. Entro no trem com um pico de tensão. Assim que sento, inicio a narração do episódio. A cada parada numa estação, olho para os lados. Não nego, sinto-me ameaçado. O Estado produz isto. Uma sensação de impunidade. Uma insegurança. E, muitas vezes, indignação calada. A minha foi externada. A certeza de que neste momento ela é ineficaz não me frustra. Nem tudo é para agora. Só o que me preocupa é certeza da impunidade. Isto poderá fazer aumentar a violência no país. Quando até uma simples doméstica acaba por ser agredida por jovens violentos. Antes, foi o índio. Amanhã poderá ser você. Eu. Ele. Ela. Quem?

clique no título para ler: Ônibus que demora. E um fato inusitado. Aviso: é violento



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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