Estranho

domingo, junho 24, 2007 ·

Amarras do individualismo

Que estranho... Aquele evento. Eu não participei dele. E não é por isso que escrevo. Causou-me incômodo aquela salsada de médicos nas imediações daquele pavilhão. Brancos, todos os que vi de pela alva. Conversas em inglês, espanhol, chinês (creio). Desculpem-me, e os negros nesta festa? Iniciaram as civilizações de forma errada e permanecemos persistentes nesse erro que é o abismo social entre brancos e negros?? Que patético isso...
Penso. Que graça tem contribuir para o estático? Viver para transformar parece ser mais gratificante. E não importa o tamanho do ato. Tratar a todos sem considerar status já é grande coisa. Mas parece que isso não é lá muito interessante para muitos. Essa preocupação apenas consigo e os mais próximos. Talvez um dia fique notório que o bem coletivo é melhor.
Justiça. Não sejamos tão incrédulos. Ali naquele evento de certo havia pessoas do bem. Gente educada e de alma bela. Que trata aos demais com o devido respeito. Alguns até estão aborrecidos com o que os rodeia. Não são todos que se bastam com status, consumo e desprezo. Se é que alguém de fato se basta com isto...
Para que vocês imaginem, visualizem o momento. Eu não apertava meus passos. Uma sensação boa de quem se sente um mero observador me acometia vez em quando. Homens de terno deixando os táxis. Mulheres elegantes vestidas com caras amarradas, como quem fica com a porta entreaberta, em alguns casos completamente fechada. Jogar as chaves fora é coisa que elas não ousam. Papéis pelo chão. A cidade desrespeitada, completamente desprezada. E eu crítico ao imaginar que muitos guardavam os endereços da luxúria espalhados sob meus pés. A idéia de apreço pelas pequenitudes que o dinheiro permite causava-me algum aborrecimento. Aliás, creio que a busca pelo prazer constante é uma das ferramentas perniciosas entre as pessoas. É pelo prazer que ela traí costumeiramente. Que engravatados desviam verbas públicas - é o gozo por obter altas cifras! E o “ilustre” malandro ainda exala soberba. É pelo suposto prazer de não se sentir excluído do grupo que muitos jovens bebem insanamente. Enquanto isso, o mundo segue solto, louco e egoísta. Mas não fechemos questão. Muitos por aí há que vivem para o alheio. Outros tantos que apenas escrevem. É o modo mais confortável que encontraram para sentirem-se melhores. Além daqueles que contribuem de forma mínima, mas essencial. Eu escrevo. Observo. Pratico da forma como ainda posso. Talvez eu pudesse mais. Mas não é fácil livrar-se das amarras que o individualismo nos impõe.
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clique no título para ler "Consumo, logo existo"

Parabéns, excelente artigo.Mas, dou-lhe um tema para pensar, se assim quiser: o que nos faz tão individualistas? Será da natureza humana ou procede o individualismo exagerado do sistema em que vivemos?
Adalton César, economista

Obrigado, Adalton! É uma proposta intrigante. Vale pensar sobre ela! Creio que o individualismo está muito ligado à forma de vida, bem como aos medos que ela suscita nas pessoas.
Adelcir Oliveira - DEL, autor deste blog



2 comentários:

Mariana - disse...
junho 25, 2007  

Del Meu amigo...
Adoro por demais este seu blog....na verdade adoro por demais você...
Uns dos principais culpados das constantes mudanças que vêem ocorrendo no meu universo!rs kkkkkkkkkkkk
AMO AMO AMO
MAS ODEIO PELOS! BAH!kkkkkkkkk
Beijos meu amigo

Déa disse...
junho 29, 2007  

ooi.. finalmente eu comento aki..
entao, primeira pelo amor de Deus, escurece esses comentários de cima, seu e do economista.. q são 1h13 da matina e eu jah to ficando cegaaa..rs
outra coisa me conta se foi vc qm fez seu perfil.. (isso dah um filme.. heim??)

e qd ao individualismo eu acho q acontece por causa do capitalismo, mas antes disso, bom.. eu estou escrevendo um livro sozinha.. certo?? entao.. nao necessariamente tem a ver com um sistema essa história toda..

e.. pra ser sincera eu to capotando de sono.. entao prometo q volto e leio os demais textos.. ok??

"A moderação de comentários foi ativada. Todos os comentários devem ser aprovados pelo autor do blog." desativa!! vc num disse q temos liberdade??? rs.. Brincadeira.. certas coisas devem ser evitadas msm..


PS: está bem limpo o blog.. agradável de ler...

bjos
Déa

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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