A continuação que não se deu

domingo, junho 10, 2007 ·

A incompetência antes da desistência
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Perdoem-me, mas obrigo-me a usar velha tática. Usar da confissão como princípio. Faz tempo que não faço isto. Mas escrever é deixar claro fases. Possivelmente, também, é pegar uma delas emprestada.
Eu estava à mesa com duas mulheres maduras. Nos cabelos, a mesma cor de tinta.. Entre elas, uma amizade sincera que perdura. No cardápio, os pratos disputavam a escolha. Finalmente, um deles não se mostrou tão imperfeito.
Apenas uma das pseudo-loiras lê este blog. E ela reclamou a extensão dos últimos textos. Peço desculpas à bela amiga caso eu me estenda aqui. E deixo claro o meu equívoco, pois sei que um blog impõe textos curtos.
Eu aprendia sobre as mulheres. Bebia parte da minha bebida quase sem álcool. Fazia indagações. Estava claro, eu era um investigador à mesa. Mas por que eu fazia isto? Por que uma busca por tantas certezas?
Uma pausa. Por um instante deixei a caneta de lado. Lembrei-me de uma cena. Foi a última da noite com elas. Comparei o momento com o cinema superficial que alguns produzem. E vi como a vida é muito mais bela que essas futilidades.
Num filme convencional, eu teria tentado beijar a loira. E ela teria deixado. Dali, nasceria uma paixão. Num filme realista, que se baseasse na vida real, o telespectador poderia se frustrar pela despedida cortês.
Era uma noite de carência afetiva para mim. Mas eu me sentia feliz. Não completamente, mas satisfeito do modo como eu lidava com meus sentimentos. Ao menos a carência não me fazia fantoche conforme diversas vezes fez.
Aqui, uma satisfação ao leitor. Não sei se terminei este texto. A continuação dele, não encontrei em papel algum. Muito possivelmente, eu desisti de escrevê-lo. Não posso mencionar as razões. Sei que ele me agrada. Continuá-lo, portanto, é de meu interesse. E acredito que você deseja prosseguir com a leitura que faz.
A noite em questão terminou na carona e despedida educada. Ainda de madrugada, não me recordo o que fiz. De qualquer forma, isto pouco importa. O que me valeu foram as boas companhias. Conhecer uma das “loiras”. Aprender com elas. Ouvir relatos sobre a realidade feminina. Compará-las com aquelas que ainda amadurecem. Como a bela amiga que hoje acordou com um desânimo sem explicação evidente. Logo, chegará à idade das outras duas. Se vai pintar os cabelos, não tenho a menor idéia. De certo, sua alma terá outra cor. E, sempre, irá prevalecer um tom ou outro. A inconstância é companheira para a vida toda.
Vou respeitar aquela que reclama de textos com tantas palavras. Usarei da brevidade. E baseado nela terminarei este texto. Não nego uma ponta de frustração. Eu deveria ter escrito mais no papel. Pois não fui competente de fato para prosseguir com esta narrativa. Claro que eu poderia ter usado de artimanhas. Fundido noites. Mulheres. Realidades. Mas não o fiz. E assim está feito. A vida, como nos textos, ou nos tabuleiros de xadrez, não é lá muito previsível. Nem sempre as coisas se dão como a gente quer. Frustrar-se é negar aprendizado.
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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