Brasília, cidade-fantasma

quarta-feira, junho 13, 2007 ·

Por Adalton Oliveira
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Vi pela imprensa, recentemente, que o ministro japonês da Agricultura, Toshikatsu Matsuoka, foi acusado de envolvimento em corrupção. Apesar de ter sofrido apenas uma acusação, sem ainda haver provas concretas contra si, ainda assim, o ministro cometeu suicídio, fez aquilo que os japoneses chamam de Bushido, ao qual se obriga todo aquele que foi desonrado.
Tal não foi minha preocupação ao ler tal notícia. Ela deriva do fato de imaginar eu, inocentemente, que a ação de Matsuoka pudesse inspirar nossos políticos, nossos sempre tão enlameados governantes. Logo imaginei que faltariam cemitérios para tantos corpos, o que certamente acabaria por acarretar um sério problema de saúde pública. Mas, não só: se todo brasileiro corrupto (e não apenas os políticos) resolvem-se dar cabo da própria vida, estaríamos diante do maior holocausto da história. Não só o maior, mas o único no qual as pessoas foram os assassinos de si mesmos.
Se Matsuoka tivesse feito discípulos por aqui, Brasília hoje seria uma cidade-fantasma, povoada apenas pelas recordações das falcatruas, das orgias com dinheiro público, das absolvições escabrosas que nossos amados políticos vêm fazendo ao longo dessas quatro décadas de fundação da cidade.
O Bushido, o ato de Matusoka, faz parte do código samurai, que prega a morte pelas próprias mãos para todo aquele que for ferido em sua honra. Nossos políticos jamais o fariam pelo simples fato de, ao ouvirem a palavra honra, indagar-se se é ela algo para comer ou para passar nos olhos. Há muito que perderam a vergonha na cara. Depois de denunciada a maracutaia em que estavam envolvidos, sobem à tribuna e, mostrando a mais cínica indignação, dizem-se inocentes e acusam os seus detratores. Enquanto discursam, já pensam em novas formas de pilhagem do dinheiro público. E nós, palermas, assistimos a tudo e achamos que tudo isto é normal, que é assim mesmo. E assim nosso país vai navegando em águas tranqüilas rumo ao despenhadeiro certo.
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Adalton Oliveira
Economista - USP

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clique no título para ler Progresso e meio ambiente (por Adalton Oliveira)


Opiniões Opiniones

Bom texto! Muito de acordo com o blog. Um assunto hard expresso de forma clara e simples. Eu tenho esse pensamento também. Se fomos punir e prender os desonestos, não haverá onde colocá-los.
Adelcir Oliveira, 34
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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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