Virada de plano

domingo, maio 06, 2007 ·

Saída em busca de um texto

Primeiro, o relato sincero e necessário. Dez linhas rabiscadas foram deixadas de lado após uma releitura. E negar sentimento de frustração seria inverdade. Para quem gosta de escrever, a impossibilidade de fazê-lo às vezes aborrece. De qualquer forma, vai de como se está por dentro. Se eu me incomodava, era porque arestas minhas acordavam subitamente...
No parágrafo seguinte, a narração da minha ida à Virada Cultural, organizada pela prefeitura desta cidade que não é só de quem aqui habita. Aliás, o mundo é de todos. Sem essa de “minha cidade”, “meu estado”, “meu país”! Pra ser sincero, desgosto muito desse pronome possessivo. Prefiro-o no plural: nosso E isso não significa que é só dos seres humanos. Há um complexo ambiental o qual apenas estamos inseridos.
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Tenho aqui um bloco de papel e uma caneta não muito confiável. Parte do valor, apertado, em minha carteira será investido em uma esferográfica. Muito frustrante seria ter onde escrever sem a possibilidade de fazê-lo pela simples ausência de um mero tubo recheado de tinta. A cor tanto faz...
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A Linha – Azul do metrô é o traçado que o trem cumpre de forma rápida e eficiente. A limpeza aqui é uma marca. O cidadão respeita o meio de transporte. E neste ambiente de troca de respeito, cá estou rumo à estação que me espera sem saber.
Vergueiro. Desembarco e inicio passos curtos em direção ao Centro Cultural São Paulo. Basta apenas subir uma escada e depois a rampa. Não há tantas pessoas. A bilheteria está vazia, na verdade. Gratuitamente, sou ofertado com um ingresso-convite. Os shows de música já começaram. Ao ler este texto, carece o leitor da informação precisa. Não sigo no mesmo ritmo do que me cerca. Aliás, meu humor não está lá muito bom. Não tenho comigo o desprendimento que tanto gosto...
Confesso que abandonei o papel onde escrevi o texto. Entenda que ele se trata apenas de uma base. O fato é que gosto de expressar o que a minha alma guardou. E não fazê-lo no exato momento do ocorrido é, para mim, muito mais gratificante. É também mais produtivo. Isto não significa que terei desprezo pelas palavras de ontem. Não é bem assim...
Nesta “Virada à Cultura”, nada sou que mais um participante. Evidentemente que não sou o único que escreve a respeito. A diferença é que o evento em si é secundário. No centro do palco, meus sentimentos. E não se trata de egocentrismo. Nessa de sentir, não sou tão diferente de você. E se as palavras aqui são um modo de repartir, é porque geram identificações. E a isto eu chamo de fusão de almas: a minha e a sua, caro leitor. Lembro, precisamente, que há muitas almas que não se fundem...
Antes da primeira atividade cultural, uma parada em frente à lanchonete. O banco de madeira me acolhe. Valem algumas rápidas palavras. Toda essa pressa por que o espetáculo já começou. O registro de palavras se dá com imensa velocidade. Antes da música com a qualidade que espero, um café com atendimento precário. O melhor nome para o estabelecimento comercial seria DESCOMPASSO. Perfeita! A sugestão de marketing. Imperfeito! O local.
Madeira. Assim são as cadeiras da sala. Muitas estão vazias. Vai ver que alguns aqui as imitam. E é muito provável que eu esteja falando de mim. Quantas vezes não damos ao outro deficiências internas que são nossas?
Alto volume. Vai o show sem esperar. As primeiras palmas já se manifestaram. Grita a alma. Confesso que ela não está aqui. Assim, não será fácil escrever. Sinto que minhas necessidades momentâneas não são culturais. Mas deixo isso de lado. Prefiro fazer uma reflexão. Não agora...
Reflito. Este tipo de evento deveria se dar ao menos uma vez ao mês. Combina demais com o porte desta metrópole rica em diversidades. Vale dizer que hoje teremos transporte público funcionando 24h sem interrupção. A minha proposta é que tornemos tudo isto mais corriqueiro.
Intervalo. Animadores de auditório cegos. São três. De modo simpático, conversam conosco. Acho interessante esta oportunidade dada a eles. É uma forma de adaptação e integração. A cultura tem disto. Seu propósito deve ser sempre deixar as pessoas em um mesmo nível. Claro que isto não se dá sempre de modo prático.
Não fiquei até o final da apresentação da última banda. Não nego, algo me inquietava. A ansiedade levou a minha concentração. E nessa insatisfação momentânea, eu me perdi. Esse descontentamento comigo tornou o momento desagradável.
Outro ingresso. Mais uma xícara da bebida muitas vezes por mim preferida. Uma pequena fila para organizar. De frente a um pequeno palco, alguma serenidade faz o momento melhor. De qualquer forma, um pico de carência transfere as minhas vontades. E não nego a você, que um banco vazio à minha frente me fez medo. Ao lado dele, ela que me olhou de forma interessada. Se eu disser que o desejo meu me convenceu, faço trato com uma inverdade. Se olhei tanto, é porque precisava me convencer. Até que não olhei mais. Nem me convenci...
No palco um espetáculo maravilhoso. A breguice como tema para arrancar risadas, que às vezes se mostraram impertinentes. A satisfação geral pode ser medida pelos sinceros agradecimentos da platéia. Rapidamente, sou o primeiro a deixar o local. Agora, meu rumo é outro. Teatro Municipal. João Bosco. Tentativa que farei. Quem sabe, boa música de fato...
Essa insatisfação. O humor deprimido. Nada a ver com o evento. Não vou creditar a culpa à demora na fila da lanchonete. Tão pouco a tentativa de adentrar ao Municipal, cuja espera em duas pernas foi em vão. Se alguma cor ainda restava em mim, agora domina o cinza, que faz par com o cansaço...
Se eu escrever que a frustração me tem, equivoco-me. Sigo como quem entende que a inconstância é inevitável. Felicito-me com essa aceitação. E desconfio que sozinho pelas ruas eu não me basto. Mas trago comigo a incerteza sobre esta desconfiança. O que é absolutamente positivo.
Fim de noite para mim. Não escrevi exatamente como eu planejara. Deixei de mencionar fatos. Tencionava relatar vivências no momento do ocorrido. E agora sigo absolutamente satisfeito com o abandono do plano.
Esse cansaço todo. Meu corpo necessita de horas de sono. Grita em conluio com a alma. São eles que ordenam à minha volta. Engraçado como isto me faz pensar que não somos nós que tomamos as rédeas de nossos atos. Mas não dêem atenção a este devaneio. Fiquem com os que vocês já têm...
Não cumpri o estabelecido. Abandonei o plano. Ou talvez ele tenha me abandonado ao ver
minha inaptidão para o nosso acordo. Resignado, abandono tudo. Largo mão. Esqueço papel e caneta. Estico as pernas no banco vazio do trem. Não mais escrevo. E não durmo...
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clique no título para ler "Arte, erotismo e café"
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Opiniões Opiniones
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Adelcir, não me é possível deixar de apontar o amadurecimento da sua forma de escrever. Ainda que o conteúdo de seus textos seja o mesmo, sempre uma espécie de auto-análise e crítica do entorno (e esse "o mesmo" não é em nada depreciativo, pois passamos a vida a nos plagiar), eles se tornaram mais poéticos, ganharam uma inusitada combinação de palavras que leva à admiração. É interessante como você se expressa maravilhosamente bem através da escrita, como mostra um eu que, no cotidiano, teima em esconder (pelo menos para mim. E eis aqui o dilema: é você que se esconde ou sou eu que não percebo esse seu lado denso e sofisticado). Não posso esconder o meu orgulho e o prazer de lê-lo.
Adalton Oliveira, noivo, adora ler
Economista - USP
São Paulo - SP
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Adelcir, meu "velho" amigo! Suas palavras são sempre bem colocadas, bem pensadas e teus textos são MARAVILHOSOS, de fácil compreensão.Assim como você é uma pessoa fácil de compreender!
Sempre hei de passar aqui! Cuide-se! Beijos Grandeeeeeeeeee
Mariana Cardoso, 22, namora, segue amadurecendo
Universitária - Jornalismo - UNIP
São Paulo - SP
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Adorei o texto, Adelcir!!!!! Muito bom!!!! bjs e boa semana!
Maria Olímpia, 34, solteira
Funcionária pública
Adora livros, cinema e música
São Paulo - SP
Indica a leitura do texto "
Gangorra (e pedras a serem chutadas...)"
http://opinioesecronicas.blogspot.com/2006/03/gangorra-e-pedras-serem-chutadas.html#links



3 comentários:

Mariana - Lagartixa - Roots disse...
maio 07, 2007  

Adelcir, meu velho amigo!rs
Suas palavras são sempre bem colocadas, bem pensadas e teus textos são MARAVILHOSAS de fácil compreensão.Assim como você uma pessoa fácil de compreender!hehehe
Queridooooooooooo sempre ei de passar aqui!rs
Cuide-se
Beijos Grandeeeeeeeeee

Adalton disse...
maio 08, 2007  

Adelcir, não me é possível deixar de apontar o amadurecimento da sua forma de escrever. Ainda que o conteúdo de seus textos seja o mesmo, sempre uma espécie de auto-análise e crítica do entorno (e esse "o mesmo" não é em nada depreciativo, pois passamos a vida a nos plagiar), eles se tornaram mais poéticos, ganharam uma inusitada combinação de palavras que leva à admiração. É interessante como você se expressa maravilhosamente bem através da escrita, como mostra um eu que, no cotidiano, teima em esconder (pelo menos para mim. E eis aqui o dilema: é você que se esconde ou sou eu que não percebo esse seu lado denso e sofisticado).
Não posso esconder o meu orgulho e o prazer de lê-lo.
Abraço
Adalton

Ju disse...
maio 08, 2007  

Gostei..sempre vejo e costumo não deixar um coments..muito bom esse texto...Aplausos pra ti!!

Bjus Ju

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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
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Revisão de textos
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