Formação profissional

domingo, maio 27, 2007 ·

Crítica aos métodos de seleção
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Este texto possuía outro título: “Jornalismo fachada”. Ocorre, que ao escrever, tornei-o plural, não me prendi a um único assunto. E saí da profissão para a formação. Entendi que meu interesse passou a ser discorrer sobre a formação dos futuros especialistas, cada qual em sua área. Feita a justificativa, passo a extrair do papel o que escrevi na rápida viagem de ônibus, ao voltar para a casa, após duas excelentes aulas com conteúdo analítico.
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Ultimamente tenho escrito de forma mais reflexiva. Mas hoje declino e adentro a um estilo mais ácido. Quero falar sobre o que vejo no jornalismo atual, bem como arriscar um prognóstico. Farei isto de forma honesta e realista. Talvez alguém confunda com pessimismo. Pode até ser também que algum estudante de jornalismo pense a crítica ser para ele. Fica aqui o esclarecimento. O blog não se prende a uma pessoa determinada. Isto se dá quando o assunto não possui caráter reflexivo. O que é possível ocorrer é a identificação da pessoa com o tema exposto. Lembrando da semelhança de realidades por este mundo afora.
Olho uma capa de revista e vejo uma pseudo-perfeição. Daí, faço par com a indignação. Questiono se os leitores acreditam de fato naquela imagem. Não me prendo muito a este pensamento. Deixo tudo de lado, inclusive a capa com a mentira estampada.
A TV também tem seu mundo próprio. Vende ilusões despudoradamente. Alimenta a passividade e contribui para a manutenção do vazio nas pessoas. Seu objetivo principal é o lucro, num entendimento que o dinheiro está acima de tudo.
Os jornais se valem de uma possibilidade maior de flertar com a credibilidade. Creio que sejam as melhores fontes de informação, desde que o leitor tenha discernimento sobre o que lê, pois por detrás dos diários há interesses político-econômicos. De qualquer forma, em alguns periódicos existe a presença de pessoas honestas, bem como debates mais aprofundados.
Com relação às revistas, pouco tenho a dizer. Sei que as mais famosas não merecem muito crédito. Há boas publicações neste seguimento. Não me recordo de muitos exemplos. Talvez um ou dois. O fato é que reconheço não ter muitos elementos para fazer uma análise crítica da mídia brasileira. O que faço aqui é apenas expressar alguns pensamentos. Não me aprofundo, não sou estudioso da área. Se me mantenho superficial, que fique claro: não estou imitando a nossa imprensa como quem quer ilustrar a singela crítica.
E o futuro do jornalismo brasileiro? Quisera poder participar de uma pesquisa sobre este tema. Sei que não posso me basear apenas naquilo que vivencio. Se assim o fizesse, diria que o futuro da imprensa brasileira é sombrio, principalmente do ponto de vista ético. E não é o caso de culpar a faculdade. A deficiência de julgamentos de valores no brasileiro é uma questão cultural. Ser honesto no Brasil é estranho para uma imensa maioria. Se eu estiver errado, não será motivo de frustração, pelo contrário, ficarei absolutamente satisfeito com o engano.
Nesta semana debatemos em classe a questão da proibição da venda da biografia do cantor Roberto Carlos. Divergências à parte, bem como a inutilidade do livro, a questão principal foi apresentada de forma competente pelo professor. Não se assuste, caro leitor, ao saber que a imensa maioria dos futuros jornalistas, sentados de forma passiva, não possui opinião alguma sobre o fato em questão. E não os condene, isto é reflexo do sistema de ensino do nosso país.
Ao final da aula, frustração no professor. Seu desejo por mais debate e expressão de idéias não é atendido como ele planejara. E não é que tal discussão não tenha sido produtiva. Se poucos levantaram a voz, culpemos a falta de embasamento no jovem universitário. E isto está profundamente conectado à questão educacional. Se a escola ensinou o aluno a não gostar de estudar, pensar ou ler, não é a faculdade que vai resolver isto.
Assim, uma questão importante pode ser abordada. Trata-se da maneira como são selecionados os candidatos a futuros profissionais. A seleção centra-se no teste de conhecimentos gerais. Isto é válido, mas não basta. Fica de lado aspectos extremamente importantes para qualquer profissão, ligados à ética e à circunstância psicológica do indivíduo. Este último pode parecer estranho. Mas pense numa pessoa absolutamente desorientada, sem saber quem é, bem como quais são seus desejos. Se o indivíduo não tem ciência de si, tomar decisões torna-se complicado. Frustrar-se passa a ser uma grande possibilidade, quando não, tornar-se um profissional incompetente e insatisfeito. A partir daí, mais um passo para a manutenção da infelicidade já foi dado. De repente, a pessoa poderia ter outra profissão. Ou até adiar sua entrada na faculdade para quando estivesse em um momento de melhor interação pessoal. Mas aí entram a rapidez da vida, a neurose da pressa, as imposições do mercado, sempre preocupado com o lucro. Esse “moneycentrismo” atrapalha o desenvolvimento do ser humano.
Isto posto, penso que, para a otimização da boa formação profissional, urge saber se a pessoa está qualificada para o ingresso no curso o qual acredita de fato desejar. Não basta, portanto, saber resolver complexas equações ou ter em mente fatos históricos. É necessário que o candidato reúna alguns requisitos fundamentais para ingressar em determinado curso. Por exemplo, um candidato a futuro jornalista. Basta que ele aponte a alternativa correta na prova de vestibular? Não. É necessário testar sua aptidão para a produção de textos. Sua capacidade comunicacional. Seus valores éticos, sua condição perceptiva e também sua bagagem cultural, bem como o entendimento que ele possui do mundo.
Se parece absurdo o que digo é por que estamos acostumados a fazer as coisas de forma mais rápida e menos onerosa possível. Contudo, quando se trata de educação, não se deve pensar em termos monetários. O sistema educacional no país é de responsabilidade de todos, sobretudo do governo e das empresas.
Existe uma instituição de ensino em São Paulo que não se limita apenas à prova de conhecimentos. Há entrevista, testes práticos, bem como sondagem cultural do candidato. E isto num curso técnico. Quem ganha com isso são os próprios candidatos, o mercado de trabalho, a instituição de ensino, e, evidentemente, o país. Portanto, o que proponho é absolutamente exeqüível.
Não sei se fui ácido como tencionava. Acredito até que adentrei por caminhos mais reflexivos. O entendimento que tenho sobre a importância de educação de qualidade vai muito além da realidade brasileira. E não pense que basta uma escola de bom nível. A sociedade como um todo possui sua parcela de responsabilidade na formação de seres humanos menos vazios. Deste conjunto, peguemos as empresas. Se para elas basta o indivíduo consumista, não importando sua condição existencial, troquemos toda a direção. O mundo vai muito além de alimentar redes de consumo. Aliás, o lucro monetário é o que menos deve importar. O bem estar da sociedade como um todo deve estar acima de conceitos individuais. Do contrário, permaneceremos sem paz psíquico-social. Se este texto é utópico, que o seja. O que vale é não desacreditar. Conformismo não leva a nada. Aliás, creio já estarmos cheios desse nada que tem sido o mundo. E idiotas não são os que seguem manipulados, mas aqueles que manipulam. Que usam da condição de líderes para manter massas consumidoras passivas, sem ação. Essa inércia toda é inútil para o homem. Já encheu! Ou melhor, não preenche.
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clique no título do texto para ler CLÁUDIO ABRAMO E O JORNALISMO



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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