Especialistas cegos

quinta-feira, maio 10, 2007 ·

O assunto vem quando quer
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Caneta que falha. PalCaneta que falha. Palavras que busco. O encontro de letras agrupadas é mais rápido. E ao passo que o papel recebe tinta azul, vêm à tona lembranças. Algumas delas insistem. Outras se vão rapidamente. Acomodo meus pensamentos para o livre trânsito ideológico.
Acreditar. A idéia criada. Uma falsa verdade que se torna absolutamente crível. E você segue momentos da vida preso à nova ilusão. O modo de desembaraçar os laços elaborados pela mente é o mergulho no real, o encontro com o motivo.
O leitor mais atento percebe que este blog sou eu em fragmentos. Uma divisão de pedaços que produz um encontro de cores. Às vezes, predominam as partes cinzas. Outras, cantam um belo colorido. Nessa inconstância de cores, meus encontros e desencontros.
Confesso enorme desejo em mudar de assunto. E essa súbita vontade combina com a velocidade do mundo. O fato é que foram criadas aqui condições para discorrer sobre alguns temas. As palavras que plantei abriram-me caminhos. E nessa luz que lanço à minha mente, o encontro com novas recordações. O leitor gentil e acostumado com o estilo não vai se importar com a inclinação que faço. Já o outro, que desgosta de cambios repentinos, ou aquele que pede mais aprofundamento, vai se desgostar do meu ato. Mas enfim, quem decide por onde eu vou é a fonte da partida das palavras...
Profissionais. A Era da especialização. Não sei quando teve início. Desde então, especialistas cegos para o mundo. Cérebros voltados para a eficiência e resultados. Nenhuma capacidade de entender o que lhes rodeia. São idiotas especializados. Querem um exemplo? Certamente vocês já os têm. Muitos seguem de olhos fechados pelos corredores das discórdias em empresas de alguns que agora lêem este texto. Ao vasculharem, vão encontrar muitos inaptos para cargos de liderança. Isto não será novidade. É um traço cultural do mercado brasileiro. Uma distribuição de poder baseada no grau de relacionamento entre as pessoas. Perde a empresa. Perde o país.
Quando não basta a incompetência, somam-se a ela as patologias. E neste caldeirão lúgubre tenho exemplos de pessoas adoecidas que se formaram exatamente em uma especialização que se propõe tratar almas doentes. Separando os dois casos, fico com o pior deles. E imagine alguém que não se ama. Tem ódio pelo ser humano. Projeta suas frustrações nos seus comandados. Usa do timbre de voz para esconder seu complexo de inferioridade. Trata aos demais com deseducação e desprezo. Bebe sua arrogância diária. E segue assim, infeliz e mal falada. O que é esta pessoa? Alguém. Uma especialista que não pode ajudar o outro a ser mais feliz. Tudo porque a infelicidade fez par com ela. Penetrou em seu ser usando de suas não-aceitações. Teve como ferramenta seus complexos. E fez deste ser humano alguém adoecido. Nisto, perde a pessoa o seu tempo de vida. Perde o mundo os passos para melhorar. Um caso isolado. Um exemplo. E o mundo segue assim errado, bem errado. E mal comandado. Mas nem sempre. Felizmente.


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clique no título do texto para ler Temos a obrigação de melhorar como pessoa



1 comentários:

Sandro D'Oliveira disse...
maio 18, 2007  

Este texto me fez pensar, enquanto o lia, que, talvez, valha a pena pensarmos no significado da alteridade nas relações humanas. Por ser pouco refletida, o caos relacional se estabelece em tais desencontros, tais como o descrito nessa crônica. Boa reflexão.

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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