Salada de macarrão

sábado, abril 28, 2007 ·

texto receita

O fato que narro não se dá neste momento. Ele já ocorreu. E não foi uma única vez. Se já foi passado, poderá ser presente. Quanto a ser futuro, não há dúvidas sobre esta possibilidade. O tempo, neste caso, pouco importa. Nem importa...
O retorno para casa. Sei da intenção. A fome fez os meus planos. A vontade dá seu palpite. E o prazer de cozinhar fecha o trio. Cheio de certezas, a salada de macarrão aguarda mais um ato de criatividade. Com calma, carinho e vaidade, o prato será preparado. Serei em cada tempo cozinheiro, garçom e cliente de mim...
Água para ferver. Uma pequena panela denuncia a porção única. No belo prato de louça branca, derramo os poucos parafusos. Enquanto o fogo faz sua parte com a água, sigo calado com meus pensamentos e minha concentração. O momento é absolutamente terápico.
Aquela velha tábua de bater bife. A linda nutricionista japonesa ensinou a falta de higiene da peça. Argumentos e beleza que convenceram não foram suficientes. Os bifes seguem apanhando na mesma tábua de bater. E a nutricionista linda e feliz, o que será dela?
Alho picado. Filetes bem finos de pimenta vermelha. Tempero pronto, um pouco. Pimenta-do-reino para embelezar. Numa taça, que se propõe abrigar apenas sobremesas, a exceção para as ervilhas. Se o alho virou quadradinhos, o mesmo se deu com a cenoura e o pimentão.
Sardinha. O toque primordial. É bom que seja de firme consistência. Cortá-la ao meio e subtrair-lhe a espinha é imperativo sabido pelo leitor ou leitora apreciadores deste peixe. Volta a faca como artista. Pica o enlatado e o deixa pronto para a dupla com o macarrão. Nesta miscelânea saborosa, cada ingrediente tem sua devida importância. Formam uma sociedade culinária em perfeita harmonia.
Limão. Ele é o par imprescindível da sardinha neste espetáculo de vinte minutos entre o preparo e o saboreio. Ato único. Alho e sal fecham o quadrado perfeito. Mas os demais componentes desta receita são também indispensáveis. O que mostra a importância solidária. Nesse prato organizado, cada detalhe compõe magistralmente a obra. Que para o cozinheiro é arte sincera e serena.
Maionese? Molho inglês? Bacon? Presunto? Queijo? Etc? Vai ao gosto do cozinheiro-leitor. Este é o prato da liberdade. Cuja receita não é segredo fechado. O que significa que a salada aqui escrita não tem uma forma rígida de ser preparada. Há total flexibilidade. Vai da presença coletiva dos ingredientes, bem como do que pede o lado guloso da alma deste que escreve. E come.
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clique no título do texto para ler Sarapatel
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O meu é mais simples! Texto delicioso, devo dizer! Ah, deve ficar uma delicia! Eu faço essa salada, mas de modo diferente. Coloco vários tipos de macarrao: parafuso (colorido e comum), penne, rigatone. Tempero com pimenta do reino, sal, maionese e cheiro-verde. Fica até bonzinho tb...rsrsr
-Zenna Santos, 38, adoraria ver o mar
Dona de casa
Uuruaçu - GO
Indica a leitura do texto "Visita ao mar"
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Opiniões Opiniones
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Adelcir, fiquei morrendo de vontade de comer essa salada de macarrão. Pode passando a receita tin tin por tin tin :-)
-Maria Olímpia, 34, solteira
Funcionária pública
Adora livros, cinema e música
São Paulo - SP
Indica a leitura do texto "Gangorra (e pedras a serem chutadas...)"
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Acabei de acordar e li seus textos. Bem, aquele comentário do Benê nem vou falar nada, porque eu adoro aquele profissional! Quanto ao texto "Salada de macarrão", já não me agradou tanto quanto os outros que são envolventes. Vou ler novamente, com mais calma. Mas de primeira lidinha não curti muito. Mas vc sabe que eu adoro o escritor.
Juliana Vazquez, 20 anos, solteira
Universitária, Adora ler
São Paulo - SP



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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