ALIANÇAS QUE APRISIONAM

sábado, abril 07, 2007 ·

Passo dado sem avaliar as possíveis consequências
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Escrever. Imperativo que me domina agora. Não teci palavras esta semana. Houve tentativas que não passaram de equívocos. Não foi a primeira vez que cometi enganos. Aqui pode até ser mais um. O fato é que extirpo pensamentos sem deixar de pensar na bela amiga. Que desgosta de abstrações. Mas admira como consigo prosseguir na construção de palavras. É para ela este texto. Sem deixar de dizer que ela não é diferente de outras “elas”...
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O fato é que desejo emocionar. Quiçá, brotar lágrimas nos olhos de muitas mulheres com a leitura das palavras que aqui deito. Porque a realidade que vou tratar não é tão diferente de muitas outras. Certamente que agora a atenção feminina para a tela do computador é maior. Já há apreensão. Calma! Vocês podem se decepcionar. É possível que eu tenha me enganado. Pode até ser tudo isto dito de forma não interessante. E aí no lugar de lágrimas o que se terá serão suspiros com deboche.
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Alianças. A prisão para sempre. No amor e na doença. Pena que não se pensaram nas doenças da alma. Essas é que contribuem para a desconstrução das promessas. Como pode alguém jurar amor eterno? Como prever nossos sentimentos? O que podemos é desejar que eles sejam de tal modo. Mas o script da vida não nos foi dado de uma vez. Ele vem em doses diárias.
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Ela. Bela e simpática. Defeitos? Tem-nos. Não é diferente de nós. Evidentemente, tem suas peculiaridades. É quando se diferencia. Assim é com todos. Somos diferentes, parecidos e até iguais. Tudo simultaneamente. Se assim não fosse, poderia ser que a convivência fosse mais tranqüila.
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A história desta moça ilustra outras realidades. Mulheres que estão presas por um par de alianças. Ir embora. Sumir. Libertar-se. É esse o desejo dela e delas. Mas não é simples assim. O seu par possui uma severa dependência psicológica. Ele apenas se encontra na esposa. A ausência da mulher significaria sua inexistência. É como decretar sua morte com o corpo presente...
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A mulher se casa. Chora lá na cerimônia. Acha tudo lindo. Padres reclamam que os noivos preocupam-se mais com o glamour do que com o significado religioso do matrimônio. Mas este vai além disso. Não se trata aqui de Vontades. O que se tem é algo absurdamente delicado: a felicidade de duas pessoas e daquelas que serão geradas. Portanto, o passo para o casamento não pode ser vacilante. Tampouco displicente.
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O dia-a-dia. A rotina. Cuida do marido. Tem também o filho. A emoção já não existe mais. Paixão findou-se. Tesão deixou de acontecer. É um passar de dias cinza. Um sonhar com o inesperado. E enganar-se mutuamente. Quem sabe fingir que está tudo bem.Para quem está do lado de lá. Simplicidade na opinião. Separa-se e pronto, tudo resolvido. Cada um para seu canto. Vida nova. Mas a prisão vai além das alianças. Existem componentes psicológicos que os unem. E este aprisionamento é o mais sério. Pensem na pessoa que só existe na outra. Sua alma já não tem cor. Nem mesmo o cinza da tristeza. Se o outro se for é o fim...
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“Madame Bovary”, de Gustave Flaubert. Uma grande obra literária. A personagem aborrecida pelo casamento e pela vida provinciana. O ódio que ela deposita em seu marido. O olhar vazio. A tristeza interna. Ausência de emoções, prazeres da carne e da alma. O desejo incontido de amar, apaixonar-se, entregar-se para um homem que a faça mulher de verdade.
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Quantas mulheres por aí são personagens de Flaubert?Façamos justiça. Homens frustrados também existem. É a displicência no ato. O não tratamento do matrimônio como algo absolutamente delicado. Casar por convenção social. Fazer o que todos fazem. Há uniões que deram certo? Sim, sem dúvida! Felizmente! Se é a maioria ou minoria, não sei ao certo. Bom, talvez eu tenha uma opinião e não queira dizê-la. O tédio que observo em tantos casais constrói o que penso.
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A personagem do texto. Uma mulher muito desejada. Cheia de amor para dar. Uma libido extraordinária. E agora? Prosseguirá esta mulher se aviltando noites e dias? Será que ela busca sua liberdade? Carrega consigo o medo da separação? Pensa apenas na outra parte? Anula-se? É vítima ou vilã de si?Enfim, não creio ter conseguido inundar olhos. Mas certamente gerei identificação. Fica este texto para tantas mulheres que seguem infelizes no casamento. Que não tem no parceiro a aventura de viver a dois. Que hoje flertam com o tédio e a indiferença. Que quando juraram seu amor, traíram a si mesmas. E mesmo que tivessem ouvido Raul, possivelmente, teriam dado o passo. Que hoje se mostra assim: em falso.
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clique no título do texto para ler FRUSTRACIÓN EN LAS PAREJAS
sugestão de leitura: Sala da covardia
PP
opiniões opiniones opinition
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Iria falar que faltou uma única coisa: a dor de ter passado por isso. Eu fiquei casada por 7 anos. Não tive filhos, e talvez não tenha a mesma dor daqueles que tem filhos. Mas posso lhe dizer que o maior medo de tudo é ver o sonho se desfazer. A vida fica sem chão, a sociedade lhe massacra, o medo do desconhecido, do futuro, do não saber como vai viver. Não saber nem se portar mais. Parece que todas as referências anteriores se perdem, e é preciso muita força para reconstituí-las. Demora. Quem passa por um casamento sonhado, esperado, querido, demora muito para se recompor como pessoa, e é preciso coragem..
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Rosangela Riccotta, 36,Adora ler
Analista de Sistemas
São Paulo - SP
Anônimo disse... Abril 09, 2007
Bom, que eu sou sua fã isso não é novidade!E esta ai motivo!Este assunto... casamento, ja foi tema de diversos textos que vc escreveu, mas como sempre vc consegue lá no fundo tirar algo de novo, que nos prende atenção e faz com que tiremos uma lição de tudo isto. Parabens! Dina
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opiniões&crônicas disse... Abril 10, 2007
Obrigado, minha querida! Fico super feliz em te contentar com um texto que escrevo!Um grande beijo!Del
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Eliane Jardim disse... Abril 10, 2007
Tom,Gostei muito deste texto. Parabéns. Eu não me identifiquei, pois sou muito feliz no amor, mas pude perceber o quão profunda foi sua sinceridade.Realmente a felicidade da alma tinha que ser um bem maior, mas não é!Um beijo querido.
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opiniões&crônicas disse... Abril 15, 2007
Obrigado, Eli! Você é um dos exemplos de felicidade no amor. E espero que vocês prossigam assim. A melhora na sociedade, penso, está no indivíduo, no tratamento das almas...bjsDel (TOM)
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Anônimo disse... Abril 15, 2007
A vivência de um casamento é indiscutível, somos criadas a construir nosso sonho de vida em cima disso e quando vemos todo nosso castelo ruir, não sabemos como nos portar, como nos sentir, perdemos sim, todas as referências, e é preciso muita coragem para nos recompor, nos reconstruir, nos re-erguer, sem pensar em mais nada, somente em nossa vida..
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Anônimo disse... Agosto 19, 2007
A maioria dos casamentos tende ao tédio...é quase uma regra!O tempo é quem dita,se cedo ou tarde!!è claro q casamos apaixonados,crendo...mas...é um auto-engano e um engano-interpessoal.Os apaixonados dizem q nunca mais se apaixonarão de novo,pura ilusão.Tudo passa e recomeça!!
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naty disse... Julho 26, 2009
"Aliancas que aprisionam". Bom, não acho que de fato uma aliança de casamento possa prender. Mas infelizmente existem N pessoas que não sei por qual motivo vivem preso à infelicidade tamanha. Principalmente, as mulheres . tantas que sonham ser feliz . serem amadas, desejadas, mas não se libertam. Não sabendo que a chave está em suas próprias mãos.
n
Opiniões & Crônicas disse... Julho 27, 2009
Já se passaram exatos três anos que publiquei este texto. De lá pra cá, a minha amizade com a "Atrasada" apenas cresceu, e hoje a tenho como a grande amiga. Já ouve jantar em casa sua. Teatro. Café. Ela está noiva e feliz. Talvez, na melhor fase de sua vida. Em todos os nossos encontros, as contas eu não paguei. O seu noivo sempre faz as vezes...



8 comentários:

Anônimo disse...
abril 09, 2007  

Bom, que eu sou sua fã isso não é novidade!E esta ai motivo!
Este assunto... casamento, ja foi tema de diversos textos que vc escreveu, mas como sempre vc consegue lá no fundo tirar algo de novo, que nos prende atenção e faz com que tiremos uma lição de tudo isto.
Parabens!

Dina

opiniões&crônicas disse...
abril 10, 2007  

Obrigado, minha querida! Fico super feliz em te contentar com um texto que escrevo!

Um grande beijo!


Del

Eliane Jardim disse...
abril 10, 2007  

Tom,

Gostei muito deste texto. Parabéns. Eu não me identifiquei, pois sou muito feliz no amor, mas pude perceber o quão profunda foi sua sinceridade.
Realmente a felicidade da alma tinha que ser um bem maior, mas não é!
Um beijo querido.

opiniões&crônicas disse...
abril 15, 2007  

Obrigado, Eli! Você é um dos exemplos de felicidade no amor. E espero que vocês prossigam assim. A melhora na sociedade, penso, está no indivíduo, no tratamento das almas...

bjs

Del (TOM)

Anônimo disse...
abril 15, 2007  

A vivência de um casamento é indiscutível, somos criadas a construir nosso sonho de vida em cima disso e quando vemos todo nosso castelo ruir, não sabemos como nos portar, como nos sentir, perdemos sim, todas as referências, e é preciso muita coragem para nos recompor, nos reconstruir, nos re-erguer, sem pensar em mais nada, somente em nossa vida..

Anônimo disse...
agosto 19, 2007  

A maioria dos casamentos tende ao tédio...é quase uma regra!O tempo é quem dita,se cedo ou tarde!!è claro q casamos apaixonados,crendo...mas...é um auto-engano e um engano-interpessoal.Os apaixonados dizem q nunca mais se apaixonarão de novo,pura ilusão.Tudo passa e recomeça!!

naty disse...
julho 26, 2009  

' aliancas que aprisionam"
bom não acho que de fato uma alinça de casamento possa prender .. mas infelizmente existem ene de pessoas que não sei por qual motivo vivem preso á infelicidade tamanha..
principalmente as mulheres . tantas que sonham ser feliz . ser amada, desejada.mas não se liberta..
não sabendo-as que a chave está em suas próprias mãos..

Opiniões & Crônicas disse...
julho 27, 2009  
Este comentário foi removido pelo autor.

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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

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Revisão de textos
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