Mudança de olhar

segunda-feira, abril 30, 2007 ·

Sobre os cobradores de ônibus: ação e reação

Tenho comigo dois assuntos para discorrer. São urbanos. De absoluto interesse meu. A escolha se dará no passar de letras. Na construção de frases. Na obtenção de linhas, que é o preencher deste parágrafo. E isto ilustra a vida. Algumas escolhas surgem em nosso cardápio. Daí, a indecisão pode tomar conta. Não optar seria o mais fácil. É o medo do arrependimento que grita. O melhor mesmo, penso, é escolher sem fazer cálculos. Mas isto é um modo meu. Você tem o modo seu.
Cobradores e motoristas de ônibus. Quero me ater mais aos primeiros. Já escrevi algo negativo sobre estes trabalhadores. Recordo-me que disse não ter habilidade com pessoas mal educadas. O tempo passou. Os pneus grandes fizeram muitas viagens. Catracas giraram. Corredores se tornaram de difícil passagem. Muitas paradas não se deram no momento pedido. Reclamações. Insultos entre as partes. E, provavelmente, observadores atentos. Quantos? Não sei! Posso garantir apenas um...
Não foram os homens que nos auxiliam nas catracas que mudaram. Meu olhar transfigurou-se. A minha alma não é a mesma de textos atrás. Se hoje cumprimento alguns cobradores e cobradoras, é porque as amarras internas, muitas delas, se foram...
Vou ilustrar. O homem não usava o uniforme. A razão não importa. Com ele, sua cara embrutecida pela vida. O passageiro finge a inexistência do cobrador. Tem problemas com seu bilhete único. E não dá a mínima para a intervenção do profissional. Este o olha com o devido ódio. Retribui o desprezo com o olhar. E trama superá-lo numa ação posterior.
A oportunidade da vingança é rápida. O rapaz permanece ali atravancando a passagem. Num ato agressivo, o cobrador ordena-lhe que saia dali. Fingimento de surdez. Eu, do lado de cá da roleta, observo atentamente. Não nego solidariedade àquele que um dia condenei com veemência. Tão pouco, condeno o passageiro mal humorado. Que razões teria ele para agir daquele modo? É errado? Sim, não é o certo. Mas vamos lhe conferir outras oportunidades. Eu as tive. Por que ele também não pode ser agraciado pelo tempo?
Minha vez. Paro. Olho para o cobrador e o cumprimento serenamente. Sinto que ele recebe muito bem minha pró-atividade. Retribui minha comunicação de forma cortês e verdadeira. Um papel foge de minha carteira, cuja lotação está pra lá do máximo. Gentilmente, sou avisado pelo agora respeitado trabalhador da companhia de ônibus que me leva. Informo o quão inútil é aquele pedacinho de informação bancária. Um olhar de quem se sente respeitado me é ofertado. Giro o ferro que me separa entre os aprovados e os que esperam aprovação para seguir viagem. Sento e não penso no fato. Mas sinto-me absolutamente respeitado. Lá na frente, quantos pontos para descer, não tenho idéia. Penso na mudança de postura minha. E reflito como as pessoas são reativas. Muitas vezes, culpar o outro é mais fácil. É bom averiguar nosso comportamento. Vai ver que a cara amarrada nossa produz sonegações de sorrisos deles. Possivelmente, nosso mau humor desencadeie reações negativas. E isso vale para muitos outros fatores. Pensemos nas ações e reações. Pensemos nas condenações que fazemos. Deles e de nós...
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Opiniões Opiniones
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Engraçado como você consegue captar os problemas que estão aos nossos olhos e não vemos. Eu me vi assim como você. Já xinguei, reclamei e odiei, mas hoje, assim como você, entendo e compreendo mais esta classe de trabalhadores. Lidar com o público não é fácil. E o público somos nós com nossos problemas, nossas alegrias, lutas e vitórias. Ainda hoje sou usuária assídua do transporte coletivo e vivo diariamente todos estes anseios. É isso aí! Sucesso!
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Elizangela Guedes, 33, enfermeira
solteira, pratica caminhadas
São Paulo - SP



1 comentários:

Eliz Guedes disse...
maio 04, 2007  

Engraçado como vc consegue captar os problemas que estão aos nossos olhos e não vemos, me vi assim como vc, já xinguei, reclamei e odiei, mas hj assim como vc entendo e compreendo mais esta classe de trabalhadores, lidar com o público não é fácil, e o público somos nós com nossos problemas, nossas alegrias, lutas e vitórias, ainda hj sou usuária assídua do transporte coletivo e vivo diariamente todos estes anseios;

É isso aí, Sucesso!
Elizangela Guedes!!!

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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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