Crônica de ontem

sábado, abril 14, 2007 ·

Sampa e alguns de seus repertórios


A inspiração para escrever estava presente ontem. Isso é o aviso de que este texto pode não ser tão feliz. O fato é que a noite de ontem foi recheada. Acontecimentos, imagens, um clima delicioso. Minha alma tranqüila. E São Paulo repleta de repertórios. Mas não escrevi, apenas mentalizei palavras. E agora, quem sabe, tento recuperá-las...
Vou roteirizar. Iniciarei pela minha ida ao trabalho. Ônibus de piso baixo. Belo e confortável. Eu dormia. Vez em quando acordava. Foi então que ouvi uma voz firme pedir dez centavos ao menos. De repente, um corpo que se arrastava. Ao lado, a muleta. E se o leitor pensa que se tratava de alguém com expressão de sofrimento, comete precipitação. O humor daquele homem era melhor que o de muitos por ali. Sua habilidade de comunicação era admirável. Com inteligência, tornou o esmolar uma prestação de serviços. Orientado por uma assistente-social, entregava camisinhas aos seus “clientes”. E mencionou palavras fortes: Não é porque peço esmolas que não faça parte da sociedade. Fantástico! Fiquei com algumas camisinhas. Peguei mais, pois ele insistiu. Mas não fui um bom cliente. Não tinha centavo nenhum no bolso...
Para o leitor que não mora em Sampa, ou que aqui habita, mas segue preso em sua casa, esta cidade é assim mesmo, uma salsada de acontecimentos. É de fato palco para criações. Um longa-metragem sem fim. Que às vezes se mostra extraordinária, outras mais, bastante patética.
Uma bela camisa cobria meu corpo. Na sociedade de aparências, um tecido de bom gosto faz diferença. Claro que a combinação entre o colorido da alma e o azul do pano moderno ajudava. O que vale mesmo é o que vem de dentro. E o que vinha de mim era bom e contagiante. Eu era o primeiro contagiado...
A noite estava deliciosa. Seguia ali pela Paulista. A juventude fervia. Em mim, a tranqüilidade que resultava em elegância. Um surto literário me tinha. Eu observava e escrevia mentalmente. Mirei a banca de jornal e vi a revista mentir perfeição para mim. Até quando estas revistas vão nos tratar feito idiotas? Ah, já sei! É só não comprar!
Tenho um trabalho a fazer. E faço com absoluto prazer. Minha imaginação voa. Faço imagens interessantes. Meu desprendimento colhe olhares femininos. É isso. As pessoas adoram o bom humor alheio. A naturalidade. O mundo não está tão perdido...
Agora eu volto para o meu endereço fixo. A empresa em que trabalho é assim, vários prédios por esta cidade imensa. E ali na bela Paulista, eu me sinto bem. Mas já percebo cansaço. Mudança em minha expressão. Cansaço no olhar. Fuga dos olhos femininos...
O ponto de ônibus está lotado. Um coletivo segue parado. Lá dentro vejo a movimentação dos bombeiros. A maca à porta de saída. No corredor, um corpo estendido. Massagem cardíaca. Meu olhar se dirige para a platéia. Atônitos, os rostos fixam olhos. É uma busca pelo inusitado. Um prazer desejado, porém ignorado. Não há ali ato de bondade. Mas é humano, absolutamente humano...
Caminho. Estou em outra avenida. Um bar lotado de jovens universitários fora das classes. Pagode, bebida e prazer. Outro espetáculo. Flanelinhas são abordados por policiais. Um motorista esbraveja. O jovem é revistado. Observo. De modo irracional, faço torcida pelo representante de uma minoria. Arrisco até a pensar que o senhor dono do carro inventara um assalto. Imediatamente percebo minha subjetividade. Que logo deixo de lado. Não é possível saber o que ocorreu de fato apenas com o olhar...
Deixei de mencionar. Mas farei isto para terminar esta crônica. Ainda lá na outra avenida, eu adentrara a um café maravilhoso. Nele, um cinema de excelente qualidade. Ambiente bonito, porém sem exageros. Arrisco uma xícara no débito. A incerteza da permissão da transação deixa-me um tanto apreensivo. Felizmente, o banco me autoriza a tomar um curto. A bela máquina prepara a bebida. A simpática atendente erra na medida. Após a correção, delicio-me. Agradeço simpaticamente. Aliás, fui tão simpático que deixei a moça sem graça... Agradeço e inicio passos que me deram os parágrafos anteriores...
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clique no título do texto para ler UMA NOITE NO CENTRO VELHO DE SÃO PAULO
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Opiniões Opinioenes

Neste eu consegui te ver de azul..rsMas é impressionante como seus textos conseguem trazer com tanta nitidez acontecimentos nunca antes presenciados,por mim ao menos, é como se ao lê-los as palavras se misturassem e se transformassem em uma tela de vídeo, na qual nossos olhos conseguem enxergar exatamente o que os seus olhos viram....Gosto quando escreve sobre esta cidade, talvez porque não a conheça, não sei!Enfim..Ótimo!
Dinalaine Fernandes
Leitora-colaboradora
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1 comentários:

Dina disse...
abril 15, 2007  

Neste eu consegui te ver de azul..rs
Mas é impressionante como seus textos conseguem trazer com tanta nitidez acontecimentos nunca antes presenciados,por mim ao menos, é como se ao lê-los as palavras se misturassem e se transformassem em uma tela de vídeo, na qual nossos olhos conseguem enxergar exatamente o que os seus olhos viram....Gosto quando escreve sobre esta cidade, talvez porque não a conheça, não sei!
Enfim..Ótimo!

Dinalaine

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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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