Mudança de olhar

segunda-feira, abril 30, 2007 · 1 comentários

Sobre os cobradores de ônibus: ação e reação

Tenho comigo dois assuntos para discorrer. São urbanos. De absoluto interesse meu. A escolha se dará no passar de letras. Na construção de frases. Na obtenção de linhas, que é o preencher deste parágrafo. E isto ilustra a vida. Algumas escolhas surgem em nosso cardápio. Daí, a indecisão pode tomar conta. Não optar seria o mais fácil. É o medo do arrependimento que grita. O melhor mesmo, penso, é escolher sem fazer cálculos. Mas isto é um modo meu. Você tem o modo seu.
Cobradores e motoristas de ônibus. Quero me ater mais aos primeiros. Já escrevi algo negativo sobre estes trabalhadores. Recordo-me que disse não ter habilidade com pessoas mal educadas. O tempo passou. Os pneus grandes fizeram muitas viagens. Catracas giraram. Corredores se tornaram de difícil passagem. Muitas paradas não se deram no momento pedido. Reclamações. Insultos entre as partes. E, provavelmente, observadores atentos. Quantos? Não sei! Posso garantir apenas um...
Não foram os homens que nos auxiliam nas catracas que mudaram. Meu olhar transfigurou-se. A minha alma não é a mesma de textos atrás. Se hoje cumprimento alguns cobradores e cobradoras, é porque as amarras internas, muitas delas, se foram...
Vou ilustrar. O homem não usava o uniforme. A razão não importa. Com ele, sua cara embrutecida pela vida. O passageiro finge a inexistência do cobrador. Tem problemas com seu bilhete único. E não dá a mínima para a intervenção do profissional. Este o olha com o devido ódio. Retribui o desprezo com o olhar. E trama superá-lo numa ação posterior.
A oportunidade da vingança é rápida. O rapaz permanece ali atravancando a passagem. Num ato agressivo, o cobrador ordena-lhe que saia dali. Fingimento de surdez. Eu, do lado de cá da roleta, observo atentamente. Não nego solidariedade àquele que um dia condenei com veemência. Tão pouco, condeno o passageiro mal humorado. Que razões teria ele para agir daquele modo? É errado? Sim, não é o certo. Mas vamos lhe conferir outras oportunidades. Eu as tive. Por que ele também não pode ser agraciado pelo tempo?
Minha vez. Paro. Olho para o cobrador e o cumprimento serenamente. Sinto que ele recebe muito bem minha pró-atividade. Retribui minha comunicação de forma cortês e verdadeira. Um papel foge de minha carteira, cuja lotação está pra lá do máximo. Gentilmente, sou avisado pelo agora respeitado trabalhador da companhia de ônibus que me leva. Informo o quão inútil é aquele pedacinho de informação bancária. Um olhar de quem se sente respeitado me é ofertado. Giro o ferro que me separa entre os aprovados e os que esperam aprovação para seguir viagem. Sento e não penso no fato. Mas sinto-me absolutamente respeitado. Lá na frente, quantos pontos para descer, não tenho idéia. Penso na mudança de postura minha. E reflito como as pessoas são reativas. Muitas vezes, culpar o outro é mais fácil. É bom averiguar nosso comportamento. Vai ver que a cara amarrada nossa produz sonegações de sorrisos deles. Possivelmente, nosso mau humor desencadeie reações negativas. E isso vale para muitos outros fatores. Pensemos nas ações e reações. Pensemos nas condenações que fazemos. Deles e de nós...
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Opiniões Opiniones
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Engraçado como você consegue captar os problemas que estão aos nossos olhos e não vemos. Eu me vi assim como você. Já xinguei, reclamei e odiei, mas hoje, assim como você, entendo e compreendo mais esta classe de trabalhadores. Lidar com o público não é fácil. E o público somos nós com nossos problemas, nossas alegrias, lutas e vitórias. Ainda hoje sou usuária assídua do transporte coletivo e vivo diariamente todos estes anseios. É isso aí! Sucesso!
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Elizangela Guedes, 33, enfermeira
solteira, pratica caminhadas
São Paulo - SP



Salada de macarrão

sábado, abril 28, 2007 · 0 comentários

texto receita

O fato que narro não se dá neste momento. Ele já ocorreu. E não foi uma única vez. Se já foi passado, poderá ser presente. Quanto a ser futuro, não há dúvidas sobre esta possibilidade. O tempo, neste caso, pouco importa. Nem importa...
O retorno para casa. Sei da intenção. A fome fez os meus planos. A vontade dá seu palpite. E o prazer de cozinhar fecha o trio. Cheio de certezas, a salada de macarrão aguarda mais um ato de criatividade. Com calma, carinho e vaidade, o prato será preparado. Serei em cada tempo cozinheiro, garçom e cliente de mim...
Água para ferver. Uma pequena panela denuncia a porção única. No belo prato de louça branca, derramo os poucos parafusos. Enquanto o fogo faz sua parte com a água, sigo calado com meus pensamentos e minha concentração. O momento é absolutamente terápico.
Aquela velha tábua de bater bife. A linda nutricionista japonesa ensinou a falta de higiene da peça. Argumentos e beleza que convenceram não foram suficientes. Os bifes seguem apanhando na mesma tábua de bater. E a nutricionista linda e feliz, o que será dela?
Alho picado. Filetes bem finos de pimenta vermelha. Tempero pronto, um pouco. Pimenta-do-reino para embelezar. Numa taça, que se propõe abrigar apenas sobremesas, a exceção para as ervilhas. Se o alho virou quadradinhos, o mesmo se deu com a cenoura e o pimentão.
Sardinha. O toque primordial. É bom que seja de firme consistência. Cortá-la ao meio e subtrair-lhe a espinha é imperativo sabido pelo leitor ou leitora apreciadores deste peixe. Volta a faca como artista. Pica o enlatado e o deixa pronto para a dupla com o macarrão. Nesta miscelânea saborosa, cada ingrediente tem sua devida importância. Formam uma sociedade culinária em perfeita harmonia.
Limão. Ele é o par imprescindível da sardinha neste espetáculo de vinte minutos entre o preparo e o saboreio. Ato único. Alho e sal fecham o quadrado perfeito. Mas os demais componentes desta receita são também indispensáveis. O que mostra a importância solidária. Nesse prato organizado, cada detalhe compõe magistralmente a obra. Que para o cozinheiro é arte sincera e serena.
Maionese? Molho inglês? Bacon? Presunto? Queijo? Etc? Vai ao gosto do cozinheiro-leitor. Este é o prato da liberdade. Cuja receita não é segredo fechado. O que significa que a salada aqui escrita não tem uma forma rígida de ser preparada. Há total flexibilidade. Vai da presença coletiva dos ingredientes, bem como do que pede o lado guloso da alma deste que escreve. E come.
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clique no título do texto para ler Sarapatel
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O meu é mais simples! Texto delicioso, devo dizer! Ah, deve ficar uma delicia! Eu faço essa salada, mas de modo diferente. Coloco vários tipos de macarrao: parafuso (colorido e comum), penne, rigatone. Tempero com pimenta do reino, sal, maionese e cheiro-verde. Fica até bonzinho tb...rsrsr
-Zenna Santos, 38, adoraria ver o mar
Dona de casa
Uuruaçu - GO
Indica a leitura do texto "Visita ao mar"
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Opiniões Opiniones
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Adelcir, fiquei morrendo de vontade de comer essa salada de macarrão. Pode passando a receita tin tin por tin tin :-)
-Maria Olímpia, 34, solteira
Funcionária pública
Adora livros, cinema e música
São Paulo - SP
Indica a leitura do texto "Gangorra (e pedras a serem chutadas...)"
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Acabei de acordar e li seus textos. Bem, aquele comentário do Benê nem vou falar nada, porque eu adoro aquele profissional! Quanto ao texto "Salada de macarrão", já não me agradou tanto quanto os outros que são envolventes. Vou ler novamente, com mais calma. Mas de primeira lidinha não curti muito. Mas vc sabe que eu adoro o escritor.
Juliana Vazquez, 20 anos, solteira
Universitária, Adora ler
São Paulo - SP



Trés años después

segunda-feira, abril 23, 2007 · 1 comentários

Ellos
Miro la puerta. Hay muchas. Las llaves están en mis manos. Entonces, hago la opción. Solo así empiezo la escrita. Las puertas de que hablo son las de la imaginación. Lo que quiero decir es como empezar… Ya lo hice…
La canción. Ney Matogrosso. Una voz muy linda que canta lindas letras. (…) Hoy acordé y no lloré ni reclamé abrigo... Hace mucho tiempo que abro los ojos por las mañanas de este modo. Todo esto, fruto del amor propio conquistado. Y eso es fundamental para todas las personas. Vivir sin investigaciones internas hace la vida sin sentido.
Ellos. Tres años después. Deseos que necesitan el teste. Añoranzas de los dos cuerpos. Deseos callados. Insatisfacciones con otras parejas.. Tecnología. Un reencuentro virtual. Desprendimiento. Suavidad en los dichos. Pero el resguardo. La confesión de las intenciones debería ser poco a poco, cuidadosamente…Y así lo fue. Las puertas de los segredos fueron abiertas delicadamente. En Ellos las llaves. Una canción. Aquella canción. Él tocado por el lindo sonido. Recuerdos y deseos… Palabras… Cariño… Añoranzas… Ansias… ¿Miedos? ¡No, ninguno!
El reencuentro. Una bella región en San Pablo. Almuerzo. Él, estresado. Ella, tranquila. Acerca del restaurante había un café muy elegante. Y allí el reencuentro de Él con la serenidad. Ella cuenta su historia muy compleja y muy literaria. Quedase admirada con la comprensión de Él. Declara el momento agradable para su alma. La reciprocidad de las sensaciones es el plato fuerte…Mucha alegría. Sonrisas. La posibilidad de un reencuentro. El humor con la paga de las cuentas. La certeza que la vida es una película. Y que Ellos son personajes de un cine de la vida… La complejidad de la vida de Ella hace todo que lo ocurre entre Ellos aún más lleno de arte… El reencuentro ocurrió y fue muy agradable y sereno…
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clique no título do texto para ler Quem devemos amar primeiro para amar?



Relacionamento profissional

quinta-feira, abril 19, 2007 · 2 comentários

O profissional se dá já na faculdade

Vejo diversos universitários. Observo comportamentos. Alguns, futuros profissionais não muito desejados. Modos que fecham portas. O que mais observo é isto: portas sendo cerradas. Talvez por que a pessoa pense não precisar de ninguém. Fia que seu futuro está longe de todos ali. Grave engano...
Se o indivíduo já se mostra arrogante antes do diploma em mãos, decerto não será alguém que contribuirá com um bom clima dentro de uma empresa. E isto é absolutamente essencial. Por outro lado, temos que ser mais compreensivos. O jovem ao entrar na faculdade, leva consigo diversas frustrações. Muitos são sabedores de sua incompetência. E, a partir desta realidade, adotam um comportamento hostil, uma forma de sobreviver a tantos complexos.
Lembro-me de um amigo se queixando do comportamento dos seus pares na sala de aula. Concordamos que jovens demais querem mesmo é prazer. Compenetrar-se em uma aula de Sociologia é pedir demais para eles. Por isso, cursar uma faculdade requer um mínimo de maturidade. O culpado disso é o próprio mercado de trabalho que aposenta as pessoas cedo demais. O resultado é uma mão-de-obra cada vez menos bem preparada.
Eu já li que algumas empresas voltaram a contratar pessoas mais velhas. Mas a regra geral ainda é o jovem cheio de energia. Eu ia dizer que as empresas seguem com desengano em relação ao fato, pois jovens há que seguem tão apáticos que parecem inexistir. Mas dada à escassez de vagas, possivelmente eles não fazem falta alguma. Aliás, o que não existe faz falta?
Sejamos mais positivos. Bons futuros profissionais nas faculdades. Pessoas que possuem um relacionamento inter-pessoal exemplar. Jovens libertos de amarras inconscientes. Se os trato de forma positiva, não condeno os demais. Afinal de contas, nada mais são que vítimas de suas mentes já adoecidas, resultado de uma sociedade um tanto vazia de bons sentimentos.
E já que o mercado necessita de uma minoria, palmas para as exceções. Sim, jovens com pró-atividade, que se portam de modo profissional dentro de uma instituição universitária, são poucos. O que se tem é uma maioria mal-educada, perdida e mal-amada. Ausência de amor próprio e de carinho alheio. Se a culpa é dos pais, não sei. Mas o modo de vida que temos não produz grandes pessoas. E o que são os pais destes estudantes, senão pessoas mal construídas? Todos? Não! Ofende-se quem se enquadra!
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Opiniões Opinioenes
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Acho que este seu texto vale uma tese de doutorado, pois toca, talvez, num dos maiores problemas que existe hoje: a esperança de que jovens profissionais possam sacudir a empresa e através de sua rebeldia, provocar rupturas, mudanças, caminhos alternativos.
Isso acontece sim. Os mais experientes COs das grandes corporações chegam mais cedo nessas funções justamente pela sua rebeldia, mas também pelo seu pro ativismo e, principalmente competência. Sem dúvida, essas exceções serão sempre bem vindas no mercado. Mas, por outro lado, temos aqueles que sobram. A estes basta apenas tentar seguir os exemplos daqueles que se tornaram sucesso ou idolatrá-los como profissionais de nossas áreas de atuação.
Afinal, não é assim? As universidades não gastam fortunas para levar um jornalista de "nome" para uma palestra aos seus alunos? Vide as palestras em que todos os campi se juntam para ver meia dúzia de palavras sem provocar discussão nenhuma...Bem, o mercado é assim. Os mais competentes serão sempre idolatrados, por sua, competência. Por outro lado, aqueles que agem de forma rude, deselegante, mal educada com professores e companheiros de classe nada mais são que resultado dessa sociedade, onde vislumbrar um crescimento profissional depende da competência. Muitos não a têm e despejam sua incompetência em pessoas erradas. Pior, quando podem adquirir um pouco de conhecimento, na prática ou na teoria, pelas disciplinas nas faculdades, despejam nos mestres, todo o rancor e desespero causado pela própria inconsistência pessoal, moral, intelectual.
Nós professores, educadores,ainda tentamos modificar essa relação, mostrando um pouco do profissional que temos, um pouco da educação que nos foi dada numa época em que respeito não era apenas uma questão de
defender-se
ou saber o que é certo ou errado, mas saber se comportar em qualquer lugar, inclusive em uma sala de universidade, pois é alí, também, que se forma o caráter do indivíduo e sua capacidade de pensar de forma
positiva e pró-ativa.

Benê Rodrigues,37
São Paulo - SP
Assessoria de Imprensa
Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo
Sócio-diretor da CONCEPTO/BNR Comm Ltda
Assessoria de Imprensa/Produtora de Conteúdo
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Por essas bandas se diz: Se sentiu- se ofendido é pq a carapuça serviu. Muito lúcido esse texto.
Zenna Santos ,37
Goiânia - GO
Leitora-colaboradora
Profissional autônoma



Pauta encontrada

· 0 comentários

Tenho que fazer a escolha das primeiras palavras. É para dar início. A dificuldade não é ausência de inspiração. O contrário disto é a verdade. Diversas idéias navegam em minha mente. Só espero não me afogar nelas...
Hoje conversei com uma das leitoras-colaboradoras do blog. Anunciei o assunto daquele que seria o próximo texto. Mas se eu embarcar pela crítica, o leitor não muito afeito a esta sincera publicação vai tripudiar. Na verdade, eu gostaria apenas de escrever sem nada dizer. O desejo é de plena liberdade... Mas eu sei que ela não existe...
Confesso. Parei e pensei. Fazia a busca por uma pauta. Embaralhei-me nas opções. E agora me lembro da bela amiga, que inspirou Alianças que aprisionam. Se acaso ela estiver com lindos olhos seus percorrendo as linhas que traço aqui, de certo estará angustiada à espera de um assunto claramente definido. Mas nem sempre se tem tudo bem claro...
Decidi. Quero comentar sobre o texto que antecede a este. O modo como tocou algumas mulheres. Que gerou comentários e até confissões. E até roubou palavras da mulher que me é linda. Fato este que me intrigou. Creio ser imperativo um desabafo seu (e assim o foi).
Outra leitora. Resumiu sua história. Relatou a dor de ver seus castelos desmoronarem. O sofrimento do rompimento. A dor que sentiu. Sobre esta dor nada posso dizer. Só é possível relatar. Mas não desejo isto. Deixo para a imaginação do leitor. Escrever também é sonegar...
Um bom amigo indignou-se com a minha exposição. Desacreditou ser possível falar sobre algo que não se experimentou. Desprezou a possibilidade de observar. Mas o que seriam de tantas histórias escritas não fossem as observações?
Este blog é sabedor de casamentos felizes. Mas não nega informação de que são raros. Sobre isto não há necessidade de se fazer alarma. Melhor discorrer sobre os passos em falso, o risco de fazê-los. Mas não é pretensão aqui ser cartilha da vida. O desejo único é de refletir. E expor tais opiniões. No mais, desculpar-se se elas são críticas demais. E não é caso de pôr a culpa na realidade. Afinal de contas, ela pode ser abordada de muitos ângulos. Neste sentido, torna-se pertinente falar de forma bastante positiva dos matrimônios. E assim o será se for o desejo da minha alma...

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clique no título do texto para ler ELA SE LIBERTOU!



Crônica de ontem

sábado, abril 14, 2007 · 1 comentários

Sampa e alguns de seus repertórios


A inspiração para escrever estava presente ontem. Isso é o aviso de que este texto pode não ser tão feliz. O fato é que a noite de ontem foi recheada. Acontecimentos, imagens, um clima delicioso. Minha alma tranqüila. E São Paulo repleta de repertórios. Mas não escrevi, apenas mentalizei palavras. E agora, quem sabe, tento recuperá-las...
Vou roteirizar. Iniciarei pela minha ida ao trabalho. Ônibus de piso baixo. Belo e confortável. Eu dormia. Vez em quando acordava. Foi então que ouvi uma voz firme pedir dez centavos ao menos. De repente, um corpo que se arrastava. Ao lado, a muleta. E se o leitor pensa que se tratava de alguém com expressão de sofrimento, comete precipitação. O humor daquele homem era melhor que o de muitos por ali. Sua habilidade de comunicação era admirável. Com inteligência, tornou o esmolar uma prestação de serviços. Orientado por uma assistente-social, entregava camisinhas aos seus “clientes”. E mencionou palavras fortes: Não é porque peço esmolas que não faça parte da sociedade. Fantástico! Fiquei com algumas camisinhas. Peguei mais, pois ele insistiu. Mas não fui um bom cliente. Não tinha centavo nenhum no bolso...
Para o leitor que não mora em Sampa, ou que aqui habita, mas segue preso em sua casa, esta cidade é assim mesmo, uma salsada de acontecimentos. É de fato palco para criações. Um longa-metragem sem fim. Que às vezes se mostra extraordinária, outras mais, bastante patética.
Uma bela camisa cobria meu corpo. Na sociedade de aparências, um tecido de bom gosto faz diferença. Claro que a combinação entre o colorido da alma e o azul do pano moderno ajudava. O que vale mesmo é o que vem de dentro. E o que vinha de mim era bom e contagiante. Eu era o primeiro contagiado...
A noite estava deliciosa. Seguia ali pela Paulista. A juventude fervia. Em mim, a tranqüilidade que resultava em elegância. Um surto literário me tinha. Eu observava e escrevia mentalmente. Mirei a banca de jornal e vi a revista mentir perfeição para mim. Até quando estas revistas vão nos tratar feito idiotas? Ah, já sei! É só não comprar!
Tenho um trabalho a fazer. E faço com absoluto prazer. Minha imaginação voa. Faço imagens interessantes. Meu desprendimento colhe olhares femininos. É isso. As pessoas adoram o bom humor alheio. A naturalidade. O mundo não está tão perdido...
Agora eu volto para o meu endereço fixo. A empresa em que trabalho é assim, vários prédios por esta cidade imensa. E ali na bela Paulista, eu me sinto bem. Mas já percebo cansaço. Mudança em minha expressão. Cansaço no olhar. Fuga dos olhos femininos...
O ponto de ônibus está lotado. Um coletivo segue parado. Lá dentro vejo a movimentação dos bombeiros. A maca à porta de saída. No corredor, um corpo estendido. Massagem cardíaca. Meu olhar se dirige para a platéia. Atônitos, os rostos fixam olhos. É uma busca pelo inusitado. Um prazer desejado, porém ignorado. Não há ali ato de bondade. Mas é humano, absolutamente humano...
Caminho. Estou em outra avenida. Um bar lotado de jovens universitários fora das classes. Pagode, bebida e prazer. Outro espetáculo. Flanelinhas são abordados por policiais. Um motorista esbraveja. O jovem é revistado. Observo. De modo irracional, faço torcida pelo representante de uma minoria. Arrisco até a pensar que o senhor dono do carro inventara um assalto. Imediatamente percebo minha subjetividade. Que logo deixo de lado. Não é possível saber o que ocorreu de fato apenas com o olhar...
Deixei de mencionar. Mas farei isto para terminar esta crônica. Ainda lá na outra avenida, eu adentrara a um café maravilhoso. Nele, um cinema de excelente qualidade. Ambiente bonito, porém sem exageros. Arrisco uma xícara no débito. A incerteza da permissão da transação deixa-me um tanto apreensivo. Felizmente, o banco me autoriza a tomar um curto. A bela máquina prepara a bebida. A simpática atendente erra na medida. Após a correção, delicio-me. Agradeço simpaticamente. Aliás, fui tão simpático que deixei a moça sem graça... Agradeço e inicio passos que me deram os parágrafos anteriores...
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clique no título do texto para ler UMA NOITE NO CENTRO VELHO DE SÃO PAULO
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Opiniões Opinioenes

Neste eu consegui te ver de azul..rsMas é impressionante como seus textos conseguem trazer com tanta nitidez acontecimentos nunca antes presenciados,por mim ao menos, é como se ao lê-los as palavras se misturassem e se transformassem em uma tela de vídeo, na qual nossos olhos conseguem enxergar exatamente o que os seus olhos viram....Gosto quando escreve sobre esta cidade, talvez porque não a conheça, não sei!Enfim..Ótimo!
Dinalaine Fernandes
Leitora-colaboradora
31, Contadora
Uruaçu - GO



ALIANÇAS QUE APRISIONAM

sábado, abril 07, 2007 · 8 comentários

Passo dado sem avaliar as possíveis consequências
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Escrever. Imperativo que me domina agora. Não teci palavras esta semana. Houve tentativas que não passaram de equívocos. Não foi a primeira vez que cometi enganos. Aqui pode até ser mais um. O fato é que extirpo pensamentos sem deixar de pensar na bela amiga. Que desgosta de abstrações. Mas admira como consigo prosseguir na construção de palavras. É para ela este texto. Sem deixar de dizer que ela não é diferente de outras “elas”...
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O fato é que desejo emocionar. Quiçá, brotar lágrimas nos olhos de muitas mulheres com a leitura das palavras que aqui deito. Porque a realidade que vou tratar não é tão diferente de muitas outras. Certamente que agora a atenção feminina para a tela do computador é maior. Já há apreensão. Calma! Vocês podem se decepcionar. É possível que eu tenha me enganado. Pode até ser tudo isto dito de forma não interessante. E aí no lugar de lágrimas o que se terá serão suspiros com deboche.
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Alianças. A prisão para sempre. No amor e na doença. Pena que não se pensaram nas doenças da alma. Essas é que contribuem para a desconstrução das promessas. Como pode alguém jurar amor eterno? Como prever nossos sentimentos? O que podemos é desejar que eles sejam de tal modo. Mas o script da vida não nos foi dado de uma vez. Ele vem em doses diárias.
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Ela. Bela e simpática. Defeitos? Tem-nos. Não é diferente de nós. Evidentemente, tem suas peculiaridades. É quando se diferencia. Assim é com todos. Somos diferentes, parecidos e até iguais. Tudo simultaneamente. Se assim não fosse, poderia ser que a convivência fosse mais tranqüila.
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A história desta moça ilustra outras realidades. Mulheres que estão presas por um par de alianças. Ir embora. Sumir. Libertar-se. É esse o desejo dela e delas. Mas não é simples assim. O seu par possui uma severa dependência psicológica. Ele apenas se encontra na esposa. A ausência da mulher significaria sua inexistência. É como decretar sua morte com o corpo presente...
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A mulher se casa. Chora lá na cerimônia. Acha tudo lindo. Padres reclamam que os noivos preocupam-se mais com o glamour do que com o significado religioso do matrimônio. Mas este vai além disso. Não se trata aqui de Vontades. O que se tem é algo absurdamente delicado: a felicidade de duas pessoas e daquelas que serão geradas. Portanto, o passo para o casamento não pode ser vacilante. Tampouco displicente.
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O dia-a-dia. A rotina. Cuida do marido. Tem também o filho. A emoção já não existe mais. Paixão findou-se. Tesão deixou de acontecer. É um passar de dias cinza. Um sonhar com o inesperado. E enganar-se mutuamente. Quem sabe fingir que está tudo bem.Para quem está do lado de lá. Simplicidade na opinião. Separa-se e pronto, tudo resolvido. Cada um para seu canto. Vida nova. Mas a prisão vai além das alianças. Existem componentes psicológicos que os unem. E este aprisionamento é o mais sério. Pensem na pessoa que só existe na outra. Sua alma já não tem cor. Nem mesmo o cinza da tristeza. Se o outro se for é o fim...
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“Madame Bovary”, de Gustave Flaubert. Uma grande obra literária. A personagem aborrecida pelo casamento e pela vida provinciana. O ódio que ela deposita em seu marido. O olhar vazio. A tristeza interna. Ausência de emoções, prazeres da carne e da alma. O desejo incontido de amar, apaixonar-se, entregar-se para um homem que a faça mulher de verdade.
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Quantas mulheres por aí são personagens de Flaubert?Façamos justiça. Homens frustrados também existem. É a displicência no ato. O não tratamento do matrimônio como algo absolutamente delicado. Casar por convenção social. Fazer o que todos fazem. Há uniões que deram certo? Sim, sem dúvida! Felizmente! Se é a maioria ou minoria, não sei ao certo. Bom, talvez eu tenha uma opinião e não queira dizê-la. O tédio que observo em tantos casais constrói o que penso.
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A personagem do texto. Uma mulher muito desejada. Cheia de amor para dar. Uma libido extraordinária. E agora? Prosseguirá esta mulher se aviltando noites e dias? Será que ela busca sua liberdade? Carrega consigo o medo da separação? Pensa apenas na outra parte? Anula-se? É vítima ou vilã de si?Enfim, não creio ter conseguido inundar olhos. Mas certamente gerei identificação. Fica este texto para tantas mulheres que seguem infelizes no casamento. Que não tem no parceiro a aventura de viver a dois. Que hoje flertam com o tédio e a indiferença. Que quando juraram seu amor, traíram a si mesmas. E mesmo que tivessem ouvido Raul, possivelmente, teriam dado o passo. Que hoje se mostra assim: em falso.
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clique no título do texto para ler FRUSTRACIÓN EN LAS PAREJAS
sugestão de leitura: Sala da covardia
PP
opiniões opiniones opinition
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Iria falar que faltou uma única coisa: a dor de ter passado por isso. Eu fiquei casada por 7 anos. Não tive filhos, e talvez não tenha a mesma dor daqueles que tem filhos. Mas posso lhe dizer que o maior medo de tudo é ver o sonho se desfazer. A vida fica sem chão, a sociedade lhe massacra, o medo do desconhecido, do futuro, do não saber como vai viver. Não saber nem se portar mais. Parece que todas as referências anteriores se perdem, e é preciso muita força para reconstituí-las. Demora. Quem passa por um casamento sonhado, esperado, querido, demora muito para se recompor como pessoa, e é preciso coragem..
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Rosangela Riccotta, 36,Adora ler
Analista de Sistemas
São Paulo - SP
Anônimo disse... Abril 09, 2007
Bom, que eu sou sua fã isso não é novidade!E esta ai motivo!Este assunto... casamento, ja foi tema de diversos textos que vc escreveu, mas como sempre vc consegue lá no fundo tirar algo de novo, que nos prende atenção e faz com que tiremos uma lição de tudo isto. Parabens! Dina
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opiniões&crônicas disse... Abril 10, 2007
Obrigado, minha querida! Fico super feliz em te contentar com um texto que escrevo!Um grande beijo!Del
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Eliane Jardim disse... Abril 10, 2007
Tom,Gostei muito deste texto. Parabéns. Eu não me identifiquei, pois sou muito feliz no amor, mas pude perceber o quão profunda foi sua sinceridade.Realmente a felicidade da alma tinha que ser um bem maior, mas não é!Um beijo querido.
l
opiniões&crônicas disse... Abril 15, 2007
Obrigado, Eli! Você é um dos exemplos de felicidade no amor. E espero que vocês prossigam assim. A melhora na sociedade, penso, está no indivíduo, no tratamento das almas...bjsDel (TOM)
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Anônimo disse... Abril 15, 2007
A vivência de um casamento é indiscutível, somos criadas a construir nosso sonho de vida em cima disso e quando vemos todo nosso castelo ruir, não sabemos como nos portar, como nos sentir, perdemos sim, todas as referências, e é preciso muita coragem para nos recompor, nos reconstruir, nos re-erguer, sem pensar em mais nada, somente em nossa vida..
l
Anônimo disse... Agosto 19, 2007
A maioria dos casamentos tende ao tédio...é quase uma regra!O tempo é quem dita,se cedo ou tarde!!è claro q casamos apaixonados,crendo...mas...é um auto-engano e um engano-interpessoal.Os apaixonados dizem q nunca mais se apaixonarão de novo,pura ilusão.Tudo passa e recomeça!!
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naty disse... Julho 26, 2009
"Aliancas que aprisionam". Bom, não acho que de fato uma aliança de casamento possa prender. Mas infelizmente existem N pessoas que não sei por qual motivo vivem preso à infelicidade tamanha. Principalmente, as mulheres . tantas que sonham ser feliz . serem amadas, desejadas, mas não se libertam. Não sabendo que a chave está em suas próprias mãos.
n
Opiniões & Crônicas disse... Julho 27, 2009
Já se passaram exatos três anos que publiquei este texto. De lá pra cá, a minha amizade com a "Atrasada" apenas cresceu, e hoje a tenho como a grande amiga. Já ouve jantar em casa sua. Teatro. Café. Ela está noiva e feliz. Talvez, na melhor fase de sua vida. Em todos os nossos encontros, as contas eu não paguei. O seu noivo sempre faz as vezes...



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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