DICIONÁRIO ANTES DA NOITE

quinta-feira, março 29, 2007 ·

Apenas fragmentos do repertório da noite paulistana

Antes de iniciar a escrita, uma pesquisa. Procurei no dicionário a palavra perto do que quero. É para retratar a sensação que São Paulo me dá à noite. Um repertório imenso e inesperado. Às vezes assustador. Não escolhi a palavra de fato. Não quis “miscelânea”, por já ser conhecida por mim. “Salsada” me interessou. Significa confusão, mas não está dentro do que quero de fato. Enfim, não selecionei palavra alguma. Mas já disse o que queria.
Bom, parece que é mais fácil apelar para o teatro. E dizer sobre aquela noite. Um sábado. Ali, a encenação variada. Miseráveis. Burgueses. Medianos. Muitos com a aparência imprecisa. Discordância com a realidade da carteira. O sapato de qualidade vem de um passado. Dispor de dinheiro agora já não é mais possível. O que se quer dizer aqui é óbvio. Aparências são aparências.
Ali. Mesa de bar. O iniciar tímido do papo. Um desconforto em mim. Saudade plena da cama. A preocupação com o cansaço. Não apenas o de agora, o de amanhã também. Dito e feito. Bem feito!
Eu. Dois amigos. A tentativa de se encontrar na História. Todos perdidos. Até mesmo o estudante de Geografia. Os outros dois, futuros jornalistas. Se teremos sucesso é outro caso. Nem é esta a preocupação momentânea. O que se deseja é amar o caminhar. Dissipar dúvidas. As minhas, neste sentido, já se foram. As do colega poderão se ir. Nem preciso dizer a possibilidade contrária.
Muita cerveja. Fico com meu refrigerante, embora evite esta bebida. Melhor prestigiar as frutas. O álcool vai entrando em cena. Pouco a pouco, busco em cada uma das companhias filosofia e humor. É incrível ouvir bêbados filosofando. Não é que digam bobagens. E não sou eu que posso avaliar isto. Fico com o sarcasmo envolvido. As piadas destiladas. Risos sinceros. E muita, muita observação. Não reclamem! Não bebo, nem danço. Observo!
Um morador de rua. Quer uma moeda. Um dos amigos oferece seu apartamento. Retira do miserável algumas risadas. Ainda lhe resta isto. O troco é uma moeda. Se não dou esmolas, hoje é dia de contradição. O homem agradece. Vai embora feliz. Não tardaria para outro surgir. E assim era. A "peça" seguia ali na rua. Éramos personagens daquela noite. Volta e meia, um mendigo. Cada qual com seu discurso. Interessante era o respeito mútuo. Divaguei nos ditos daquele homem, cujas calças eram seu toalete. Ouvi seu agradecimento por nossa atenção, o dinheiro, para ele, era o de menos.
Não questiono a veracidade da informação dada pelo homem de calças sujas. Absorvi as suas palavras. Depreendi que ele nada tem a perder. Talvez mentir não faça tanto sentido. Embora tal prática possa ser costume. E ainda se crê possível faturar com ela. O morador de rua ficou com a moeda. Desta vez dada pelos dois bêbados. Uma disputa pela benevolência maior. A ele uma azeitona. Olhei bem em seu rosto. Profundamente. O que vi? Não faço idéia! Valeu foi ouvi-lo. Essas pessoas já não existem para nós...
Andar por São Paulo, região central, é avistar muitos corpos no chão duro. Cobertor para proteger-se do frio e dos olhos. Mas para que preocupação com o olhar alheio, se eles são invisíveis? O fato é que nem todos estão cegos... E que fiquemos atentos, seguimos cada vez mais invisíveis também...
Passa uma prostituta quase sem roupa. Seu corpo tira a atenção dos copos. Vem uma criança vender amendoim. Ganha uma azeitona também. Concorda que a pretinha não está boa. Ainda assim, retira mais uma. A mulher de US$10 mil. Passáramos por ela durante nossa caminhada antes do bar. E não negamos ter o valor anunciado sem consulta. Aquela mulher. Sua existência. Seu mundo. Corpo marcado. Olhos roxos. O que será que se passa dentro dela? Para onde ia?
Rua Augusta. Estamos ali. Seguimos para o bar. Não seria a encenação final. “Esta cidade não pára”, vocês já ouviram isto.
Caminhamos e nos desviamos. Um aglomerado de jovens saídos das telas de cinema americano. A picape quer passar. Empurra diversos duplos-personagens. O insulto não tarda. O motorista se equivoca em sua demonstração de força. Engatar a ré em meio a tanto trânsito só podia dar no que deu. Vaias e insultos. É ele o centro das atenções. Fica consigo quase todo o ridículo do espetáculo...
Milho verde. Bêbada, a garota de programa sugere o marketing. O calor não combina com tal alimento. Deixemos que a moça coma sozinha...
Vale lembrar que já na madrugada o cansaço se fora. Adiado para as horas seguintes. Conseqüência merecida que muito me agradou. Se pagar a conta foi demorado, não deixou de ser inusitado e engraçado. A simpática atendente se divertia. Eu era o único sóbrio ali. Não que a moça estivesse alcoolizada. Apenas estava do outro lado. O balcão como divisão não era desconforto. Estranho seria sua ausência...
Embriagados esquecem senhas. “Vaquinha magra” pra pagar a conta. Agora é caminhar. Os ônibus já voltaram às ruas. Há ainda muitas risadas. O insulto da vendedora de cigarros com ervas indianas. O colega achou caro. Ficou como "pobre". Risadas debochadas. Será que há outro povo tão debochado como nós?
O final da noite. Um bar na região central de Sampa. Ausência de afeto. Histórias com teor agressivo. Um desconforto em mim. A expressão do desprezo um pelo outro. Prostitutas, viciados em jogos, trabalhadores mal pagos. A mudança de humor de um dos amigos. É o álcool que dava a conta. Um café para mim. A despedida. Ficam os dois lá naqueles que seriam seus últimos copos da noite. Caminho para o metrô. O sol surgirá enquanto eu, outros, estivermos nos túneis. Sob a terra. Invisíveis um para o outro...
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ps: os amigos embebecidos pelo álcool reclamaram posteriormente; não gostam que eu não bebo e fico observando; tal reclamação foi feita em estado sóbrio; o blog publica, pois é democrático.
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ps2: um dos integrantes da mesa do bar comentou o texto; argumentou que a história contada não interessaria à nenhuma classe social brasileira; sua crítica foi honesta e sincera; o blog publica, faz parte dos seus preceitos; em respeito ao personagem-leitor, será feita uma releitura do texto.

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p3: satisfação ao leitor-personagem: foi feita um releitura do texto; observou-se diversas passagens com teor crítico, porém de modo sutil; também, a ilustração da noite com diversas passagens imagéticas, o que muito interessa aos que não conhecem a noite paulistana; o texto segue publicado; de qualquer forma, será apresentado ao Conselho do blog. Adelcir Oliveira



clique no título do texto para ler UMA NOITE NO CENTRO VELHO DE SÃO PAULO



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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