OUVIDOS PARA ELA

domingo, janeiro 21, 2007 ·

Narrar um fato implica em um primeiro problema: o ponto de partida. Também há a sonegação de detalhes. Daí, algo pitoresco pode ser esquecido. São as falhas inevitáveis da memória. Assim mesmo, relatar o que ficou registrado é de muita valia. É a expressão da alma. Absorve o significativo para ela.
Um bar. Imaginá-lo repleto de plantas e flores é bastante improvável. O lago com peixes também não seria comum. São mesas em meio a uma floresta. A idéia de enormidade no espaço logo nos domina.
Fila para entrar. A revista. O segurança ri da piada, fato inesperado. Todos liberados. Agora é caminhar sobre a madeira. Ir ao encontro do aniversariante. Ele está em alguma mesa em meio aquele verde todo.
Muitas mulheres. Mas não troco olhares. Há dias de maior segurança para mim. Estou com amigos e amigas. Descontração. Finalmente, encontramos o dono da festa. O local está cheio. Mas há espaço. Há conforto.
Queremos beber. Uma bebida com pouca vodka para mim. Nada a mais de álcool. E já foi o suficiente para produzir alterações no humor..
Todos seguem impressionados com a beleza do ambiente. A temperatura aumenta, embora haja tanto verde. Há uma pista de dança. Só ali há música. Sinto falta de uma banda ao vivo. Não sou o único.
Amigos. Dois casais. Elas capricharam no visual. Uma delas causa-me admiração. Seu namorado segue estonteado. Um exemplo do poder feminino. Elas têm o domínio. Basta saber usar.
Ao ver a amiga tão exuberante, um pensamento. Alguns homens ficam indignados ao ver um “oponente” com uma bela figura feminina ao lado. É o ego falando. Queria estar com ela. Artimanhas da natureza masculina.
Três loiras chegam. O bom papo leva meu sono embora. Mas não completamente. A simpática conta seu drama. Relata o namoro rompido. A perda inconformada. A incerteza da reparação.
Seguimos ouvindo a história. Ela pede uma opinião minha. Não é possível opinar sem ter com a outra parte. Seria preciso ver. Sentir. E aí depreender. Sei que um belo namoro está em pause. Quem sabe um novo start. A incerteza está lançada.
É noite de relatos amorosos. Outra jovem com algo para contar. Namorou longos cinco anos. Demorou a perceber o que era tempo perdido. Após uma pausa, o rompimento definitivo. A seqüência de inconformidades do ex-namorado. Para nós alguns homens os dias se turvam ao perdermos uma mulher fascinante e singular.
Dinâmica de um bate papo. O grupo se dispersa. Grupos menores são formados. Duplas, por exemplo. Eu passei a ouvir aquela jovem e bela universitária. Embora fosse nova, expressava maturidade. Trazia também uma melancolia que a fazia ainda mais bonita.
Os olhos verdes seguiam neutros. Neles, um mistério gostoso. Eu a ouvia. Dizia. Observava. Um elogio sincero às suas mãos não tardou. Jamais havia reparado. É assim. Temos qualidades e não percebemos. O mesmo ocorre com os defeitos.
O fato é que eu estava encantado. E num elogio mais incisivo, mudou a cor. Gostou, mas não podia me olhar. Sorriu seu charme. Agradeceu. Confessou. Há muito não sabia o que era isto.
Uma mulher que se sente um tanto invisível. Na verdade, uma distorção. Certamente é muito observada. Faltam apenas aproximações. Há um motivo. Fase de reflexão. Reencontrar-se. O longo namoro a fez ficar em dúvida
Indaguei muito. Talvez investigasse a alma dela. Aquela beleza toda era insuficiente. Queria o que não via...
O ser humano é cheio de detalhes. Segredos. Dificuldades. Felicidades. Infelicidades. Investigava suas infelicidades. Era um modo de descobri-la. Um aprofundamento nela. Comprovar a minha percepção.
O vermelho das unhas. Ficou lisonjeada. Denotou vaidade. Agraciou-se com elogios verdadeiros. Encantado, queria ir além...
Observei. Toquei as mãos. Braços. Olhei. Falei com os olhos. O mistério dela. As incertezas que me dava. Tudo aquilo me encantava...
Expressei. Disse o quanto a sentia especial. Confessei agrado pelo seu jeito. Isso é decisivo. O modo como a pessoa se mostra pra gente. Nisto, ganham aqueles que têm naturalidade.
O plano das incertezas não mudava. Quis entender o que significava conhecê-la melhor. O que seria isto de fato. Vê-la novamente. Um café. Mas dela não gosta. Isto não seria possível. Risadas...
A jovem se esmerou na sinceridade. Seguia tranqüila. Um cigarro ou outro. A promessa dos números. A incerteza em digitá-los depois daquela noite seria a novidade.
O bar praticamente vazio. Um café antes de ir embora. A fila para pagar. O problema com o sistema bancário. Cantores de fila. Um show à parte. Atenções conseguidas. Incômodos. Lá na fila, o nosso anfitrião. O excesso de cerveja não lhe fez bem. A esposa teria que cuidar dele. Era o fim da balada. Segui meu rumo com um casal de amigos. A bela moça se foi com suas amigas. No carro, bom humor e tranqüilidade. A falta que faz uma direção hidráulica. Um acidente parecia iminente. Mas não veio. Na estação mais próxima, eu fiquei. Para casa, eu fui. Sozinho, com sono e tranqüilo...
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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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