NAQUELE MOMENTO

sábado, janeiro 27, 2007 ·

Eu precisava escrever naquele momento. Angustiava-me pensar que não o faria depois. Que tantas emoções eu não expressaria. E que momentos peculiares se perderiam para todo o sempre. Será mesmo que se perderiam? Creio que alguns ficariam tatuados em minha alma. O fato é que eu precisava escrever. Dirimir o que sentia. O jeito era tecer parágrafos em minha mente. Todos desconexos. Algo belo havia no ar. Sentia o desejo em escrever um texto como se fosse cinema. Em preto e branco.
Sei que uma ansiedade me tinha. Ela era pequena, mas incomodava. Ali no ônibus eu lia os artigos. A concentração não era perfeita. Reler parágrafos era necessário. A chegada do rapaz. Ajustes no violão. Gaita já preparada. E o início de uma belíssima canção. Abandonei o jornal. Curti aquele belo som de música americana. Ao final da apresentação de uma música só, ele se apresentou. Um desempregado. Da carteira, retirei dois reais e pedi outra música. Ele atendeu-me com enorme satisfação. E mais uma vez minha alma foi agraciada.
Aquela moça que entrou no ônibus. Olhou-me com interesse (ou era carência?). Reparei. A saia preta deixava as pernas de fora. Sentou-se e mais uma olhada. Eu inseguro. Não era interesse meu, era carência mesmo. Uma troca de olhar infeliz. O jeito foi voltar para a leitura. Ao levantar, não correspondi ao seu olhar. Naquele momento eu era sincero comigo. Às vezes erramos no flerte. Fingimos gostar. Resolvi não fingir.
Meu amigo não foi pontual. Não é a primeira vez. Eu ainda tinha assuntos a resolver. Mas sozinho eu era pouco. Precisava de alguém para somar. Queria falar. Ouvir. Rir. Refletir.
Risadas. Vamos ao café. A atendente pareceu olhar com algum interesse para o bom rapaz. Conversávamos. Seu atraso não me importou. Já havíamos cumprido nossas obrigações. Café puro e um lanche de nome diferente. A atendente era atenta ao nosso papo. Negligenciava seu trabalho. E parecia um tanto chateada consigo. Talvez aquele afazer não lhe apetecesse. Diferentemente da loira simpática e aparentemente feliz.
“Final de papo furado”. Após a espera no Terminal, cada um para seu rumo. Troquei olhares com aquelas moças simples. Ousadas no modo de se vestir. A ansiedade volta aos poucos. Sozinho não me basto. Estou no centro da cidade. Vejo uma bela loja de sapatos. Desço ali. Avisto um belo café. Logo irei visitá-lo. Será com este mesmo amigo. Companhia perfeita para um café reflexivo. Na vitrine, a certeza da compra. O problema é o modelo. Descortesmente a porta da loja é fechada. Não me desagrado. Dinheiro economizado. Impulso impedido.
Neste exato momento é que se inicia o desejo de escrever. É ali, dentro da estação de metrô que armo parágrafos. Sinto uma emoção. Invento beleza naquela mulher. A invenção não dura uma estação. Vejo aquela menina bela. Nada leio. Esqueci o jornal no compromisso. Não durmo. A ansiedade diminui. A distância de minha casa também. Era uma tarde de sábado. Fatos que se deram há pouco. E agora me recolho. Fico em casa. Precisamos disto. Ausentar-nos do mundo. Como que para reciclar. Acalmar a alma. Dar um descanso para ela. A vida na metrópole é muito corrida. Melhor fugir do seu ritmo. E assim eu estaciono. E quem sabe eu até goste. O fato é que preciso. Certamente não sou o único. E você?
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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