ELE GASTA MAIS PARA ROMPER DO QUE PARA CONQUISTAR

quinta-feira, janeiro 11, 2007 ·

J. G. é amigo de todos. Um grande exemplo de diplomacia verdadeira. Um amigo que se pode confiar. Alguém que conquistou muitos corações. Falo especialmente de amizades.
Mas todos temos defeitos. J.G. tem um que é grave. Não saber dizer “não”. Por isso, vive à beira de prejuízos ou erros amorosos.
O fato é que J. G. é um caso à parte. Gasta mais com rompimentos do que com conquistas. Há o caso, por exemplo, da moça que lhe pediu um perfume. J. G. já havia passeado pelo corpo da jovem negra em uma noite metropolitana. Motel e táxi, foram estes seus gastos. O perfume pedido tinha que ser importado. “Ela não é mulher de usar perfume nacional”. E gosta dos mais caros. J. G. se assusta. Tivera a certeza de que fosse um daqui de sua terra. Talvez estivesse até disposto a comprar um para a moça. Vê-se que ele até sabe dizer “não”. Mas deixa sempre a porta aberta para um “sim”. As que percebem aproveitam.
Eis que a moça do perfume pediu-lhe dinheiro para fazer compras. Não sei o valor do pedido original. O fato é que J.G. não conseguiu negar-lhe ao menos 50 reais. E fez isto lançando mão de um empréstimo entre amigos. E confessou ao emprestador que este não ficaria a ver navios. Que era um risco seu. E que precisava fazer isto para se livrar da moça cheia de pedidos.
Pouco tempo passou, a moça telefonou para J.G. Ela percebera na noite de amor que ele ficara louco por seu corpo. E talvez usasse disto para convencê-lo a lhe dar mais dinheiro. Pediu-lhe mais uma quantia para comprar algo para sua criança. Talvez fossem fraldas. Desta vez, já tendo livrado sua alma de arrependimentos ligados ao egoísmo, em função da liberação daqueles 50 reais, J.G. negou prontamente. E a lembrou de que fizera um empréstimo com um amigo para atendê-la no primeiro pedido. Foi este o último telefonema da moça.
Fazendo as contas, é possível que J.G. não tenha tido tanto prejuízo. Parece que ele gastou não mais que 15 reais com táxi e algo em torno de 45 reais com o hotel. Foi a noite em que levou a moça de tantos pedidos para a cama. Lá, ele se deliciou. E com palavras demonstrou sua admiração por aquele corpo que o atraía. Para romper com a moça, despendeu exatos 50 reais. Que talvez ainda sejam devidos ao seu bom amigo.
J.G. segue solteiro. Sempre à caça, ele faz reservas monetárias. Se estas não lhe bastam, faz empréstimos. Honesto, não deixa de honrar suas dívidas. Seu defeito é não saber dizer “não”. E para romper, precisa ir com a consciência livre. E algum prejuízo.
obs: J.G. alegou após este texto que gastou mais para conquistar a garota do que para romper, sendo assim, o melhor título seria: ELE GASTA TANTO PARA CONQUISTAR QUANTO PARA ROMPER; de qualquer forma, já houve mulheres com as quais ele gastou mais para romper do que para conquistar.
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clique no título deste texto e terá outra história sobre um outro personagem pitoresco



2 comentários:

Anônimo disse...
janeiro 11, 2007  

Essa foi boa! De certa forma ele foi recompensado, teve o que queria tambem.
Já que ele não sabe dizer "não", melhor fazer escolhas corretas.

Dina

Anônimo disse...
janeiro 12, 2007  

Ele me pagou, fica sem medo! TEXTO FANTÁSTICO, BROTHER!


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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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