RICOS FORA DO PODER

quinta-feira, dezembro 14, 2006 ·

A indignação nos faz escrever. Li o livro “Abusado – o dono do Morro Santa Marta”. Um retrato do funcionamento do tráfico nas favelas e da relação da polícia carioca com este segmento da sociedade. Escrito por Caco Barcellos, o livro é também uma denúncia das práticas de tortura por parte dos policiais, que cometem atos fora da lei, com abuso de autoridade e absoluto desrespeito pelo ser humano.
“Abusado” despertou meu interesse por aqueles que vivem nas favelas. Também me fez flertar com o jornalismo investigativo. Assim, dei início à outra leitura. “Rota 66”, do mesmo autor. Agora em São Paulo. Ainda no início, já pude ler o relatos dos abusos da polícia paulistana, bem como sua gana em matar.
Os livros se dão em épocas diferentes. Abusado é desta década, enquanto o "Rota 66" narra fatos acontecidos durante a ditadura militar.
Eu já havia percebido que a polícia existe para defender o patrimônio. Que proteger as pessoas é algo secundário. Que aqueles que têm melhor poder aquisitivo são os respeitados pelos defensores da "ordem" social injusta. Ao ler estes livros, vi o quanto o pobre é desvalorizado. E o desprezo que o poder oficial tem por eles.
Evidentemente que esta postura do Estado brasileiro é absolutamente infeliz. Evidentemente que as pessoas que estão no comando não passam de bonecos. Tipos infelizes. Egoístas. Preocupados com poder e prestígios. Pessoas absolutamente inúteis para a sociedade.
Dia destes, entrevistei junto com uma amiga de faculdade, Carolina Santana, a presidente de uma associação que ajuda crianças especiais. Fantástico ver o quanto ela despreza o prestígio social. Sua dedicação ao ser humano. E seu desprendimento em relação aos detentores do poder. Saí de lá maravilhado. Sei que não faço praticamente nada para melhorar esta sociedade. Claro, se eu pudesse arrancar os donos do poder de onde eles estão e bani-los de nossa sociedade, eu o faria com muito prazer.
Por isso que eu digo aos meus amigos que não votem nos ricos. Eles não vão fazer absolutamente nada para equilibrar a sociedade. Vão trabalhar pelos seus. E é incrível como as pessoas seguem votando em milionários. Nas últimas eleições, vários milionários foram eleitos. E agora? O que vão fazer para promover a justiça social? Nada! No máximo, uma medida para maquiar reais interesses.
Penso que as soluções do mundo não estão nos governos. Estão sim em meio à sociedade. Em pessoas que presidem pequenas associações. Nos movimentos sociais. Estes precisam crescer e contagiar. E só assim poderemos derrubar os ricos do poder. Eles não podem continuar a decidir por nós. E decidir apenas em favor próprio.
Termino com um link. Pimenta Neves foi condenado. Um rico. Que entra com os recursos que parlamentares ricos criaram para dificultar a prisão de quem tem condições de gastar fortunas com advogados também ricos. Este homem deve ser preso. A Justiça não deve apenas prender os pobres. Que o jornalista que assassinou sua namorada cumpra os 89 anos que foi condenado na cadeia. E que a Justiça não faça corpo mole para prendê-lo. E, mais uma vez, que os ricos saiam do poder.
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clique no título deste texto para ler A POLÍTICA COMO PRODUTO DE CONSUMO



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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