ESCÂNDALO NO ÔNIBUS. UMA MOÇA CONHECIDA. E O MEU MORALISMO

sexta-feira, dezembro 15, 2006 ·

O ônibus pára em frente ao posto policial. Buzina. Chama pelos guardas. Dentro do ônibus, a moça grita. Chora. O álcool a faz perder a noção de bom senso. O cobrador quer que ela desça. Juntamente com sua amiga, que vomitara vinho pelo piso do coletivo. Eu já não leio mais. Observo. Igual aos demais.
A moça alcoolizada. Os gritos. As ameaças. Os palavrões. E a tentativa de humilhar o cobrador. Lembro-me dela. Fizemos juntos uma aula no SESC. Ela pareceu-me de bem com a vida. Muito simpática. Rosto sorridente. Sei lá se eram máscaras.
Sei que ela mora próximo à minha casa. Mas jamais a cumprimentei. Também estuda na universidade em que trabalho. No mesmo campus. Mas jamais nos falamos. E nem desejamos algum contato.
Eu caminhava para o ponto de ônibus. Há mais de um mês eu optara pelo metrô. Mas ontem resolvi mudar. Não gosto da mesmice. Gosto de variar. Próximo à escada sinistra que me levaria para a Avenida 23 de Maio, cujo trânsito não é interrompido por nenhum farol, eu avistei a moça. Ela abraçava um rapaz. Uma outra moça se ria de costas para o público. Reparei em seu corpo. Gostei do que vi. Mas olhei rápido. Desci a escada. Cercada de matos e mau cheiro.
O ônibus não demorou. Para a minha surpresa, não estava lotado. Entrei e busquei um assento. A moça desocupou o que seria meu espaço. Suas tralhas podiam ficar em seu colo. Não fui simpático ao pedir licença. Ultimamente não tenho sorrido muito para estranhos.
Sei que as moças adentraram ao ônibus. Suas risadas altas me incomodavam. Gosto de discrição. Não sei os motivos que as fizeram demorar tanto para passar pela catraca. Uma delas sentou-se ali na frente, próximo a mim. A que faria o escândalo permaneceu em pé. Insistia que sua amiga fosse para o fundo do ônibus. Cochichava algo em seu ouvido.
Vômitos. Risadas. Piadas do cobrador bem humorado. Que pede que a moça não ande pelo coletivo, para que não haja risco de sujá-lo ainda mais. De forma truculenta, a minha vizinha trata mal o profissional responsável pela catraca. Tenta humilhá-lo. Diz que seu salário é para limpar vômitos. Em seguida solta um palavrão tão feio quanto o seu comportamento.
O cobrador levara tudo com bom humor. Mas de repente dá uma dura na moça alcoolizada. Inicia-se uma discussão. Ela se mostra muito agressiva. Revela desejo em lhe dar um tapa na cara. É ameaçada pela intenção de um murro. O que a deixa escandalizada.
Berros. Choro. Buzinadas. Dois guardas adentram ao ônibus. O cobrador denuncia a moça em prantos. Ela ameaça agredi-lo novamente. É avisada que pode ser presa. Está claro que os militares a têm como a causadora da desordem. O fato de estar embriagada atenta contra ela, que cobra de nós passageiros coragem para confirmar que foi ameaçada de levar um murro. Ninguém o faz. Eu desejo que os guardas a levem. E um dos tenentes, com a arma na mão, solicita que ela vá para o fundo do ônibus. Ele parece bastante despreparado para a situação. Creio que está mais acostumado a agir com truculência. Ordena que o cobrador se cale. E levanta a voz para a moça, ordenando sua ida para o fundo do coletivo. Sem mais, ela sai andando pelo corredor. Desce pela porta traseira. É seguida pelo tenente mal encarado. O outro, mais calmo, faz o mesmo. A moça grita indignada. Quer que o cobrador fique também. E chora. Eu olho para seu rosto. Carrego comigo indignação e moralismo. Meu desejo é que ela seja punida.
A única pergunta que faço é se o tenente gritaria com uma mulher de classe alta. Sabemos que a polícia existe para proteger os ricos dos pobres. Para manter a “ordem” injusta. Vez em quando eles fingem coletividade. Como fez o tenente ao dizer que a moça estava atrapalhando os demais passageiros. Uma forma de ganhar a nossa simpatia. De fato ela atrapalhava. E incomodava. Ao mesmo tempo que nos divertia. O fato, caros leitores, é que tudo que tire a vida da normalidade nos provoca prazer. Pensem, por que um acidente com vítimas atraem tantas pessoas? É a busca pelo prazer.
Não retornei à minha leitura. Que se tratava de um livro denúncia contra uma corporação violenta da polícia de São Paulo, a ROTA. Segui para minha casa. Onde sigo sozinho. Lá estaria minha cachorrinha a me esperar. Tudo tranqüilo. O fato ocorrido deu-me reflexões sobre o jornalismo. O ocorrido me deu este relato. Se tivesse sido mais trágico, eu teria mais assuntos. Mas sobre isto falo em outra oportunidade.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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