DONA MARGARIDA - uma empreendedora social

segunda-feira, dezembro 11, 2006 ·

Por Adelcir Oliveira e Carolina Santana
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O C.O.T.I.C. (Centro Organizado de Tratamento Intensivo à Criança) nasceu de um erro. A sua fundadora, Maria Margarida de Mello, sonhava em montar uma casa de assistência às crianças portadoras de HIV. Deixou que um de seus parceiros cuidasse do cadastro da entidade junto ao órgão oficial. A funcionária do órgão confundiu-se. Registrou a casa como um centro de atendimento às crianças especiais. Nasceu o C.O.T.I.C – um referencial na zona norte de São Paulo como casa de assistência às crianças com necessidades especiais e câncer, vítimas de uma realidade social bastante precária.Após sete anos de existência, mais de 360 crianças passaram pela casa. Para a presidente da entidade, é motivo de muita alegria quando uma delas é adotada. Normalmente, as famílias adotantes são de alto poder aquisitivo. Uma dinâmica onde menores rejeitados pelos pais acabam sendo acolhidos por outros, ávidos em dar amor e carinho para elas. De acordo com Dona Margarida, é isto o que mais necessitam. E relata a mudança para melhor daquelas adotadas quando retornam à casa para visitação.Hoje são cerca de 60 crianças abrigadas. E já há uma fila de espera de 23 menores de idade. Elas chegam ao C.O.T.I.C principalmente por denúncias dos hospitais contra os pais. Após passar pelos trâmites judiciários, tornam-se responsabilidade da Tia Margarida, como é carinhosamente chamada pelos meninos e meninas assistidos pela entidade.Dona Margarida tem muita história para contar. Carrega consigo uma vasta experiência em filantropia. Faz o trabalho voluntário por amor. E sente-se quase totalmente realizada. Assim, em 2007 quer realizar o seu grande sonho: montar uma casa de apoio às crianças com HIV. Se depender de garra, este sonho será mais um exemplo de sucesso na filantropia brasileira.Para a sobrevivência da entidade são necessárias doações. Estas chegam aos montes. Sejam por pessoas físicas ou jurídicas. Há também um serviço de telemarketing que angaria recursos. Aqueles que se sentem incomodados quando recebe uma ligação telefônica pedindo doações, não imaginam a batalha o dia-a- dia das pessoas que trabalham em prol de outras vidas. Certamente, a doação de dinheiro é um ato muito menor em relação à doação do tempo que pessoas como Dona Margarida fazem sem nenhum interesse lucrativo.A bela casa que abriga as crianças fica em um bom bairro da zona norte de São Paulo, o Horto Florestal. Cercada por uma vizinhança de alto poder aquisitivo, a entidade recebe apoio dos moradores dali. Após pagar anos de aluguel, o grupo voluntário ficou sob o risco de perder a casa. Sua proprietária resolveu vender o imóvel. Como sorte não faz mal a ninguém, a curadora do projeto conseguiu um time de doadores. Foi com a ajuda dos jogadores do Corínthias que ela comprou o imóvel. Livre do aluguel, essa guerreira segue construindo outro prédio no terreno para fazer a junção das três casas do C.O.T.I.C. Tudo isto, fruto do espírito empreendedor da Tia Margarida.
Evidentemente, nem tudo é alegria. O que deixa Dona Margarida triste são os falecimentos. Cita como exemplo uma criança que morreu de síndrome alcoólica. Vítima de uma mãe alcoólatra, o bebê ingeriu bebida alcoólica ainda durante a gestação. O álcool destruiu os órgãos do feto, que nasceu com necessidades especiais. Ao nascer, seu organismo necessitava do álcool, pois estava viciado. A abstinência o levou à morte quando tinha um ano e meio de vida.Drogas e bebidas fazem parte da realidade social destas crianças. Que são vítimas de mães viciadas. Quase todas as famílias são de origem bastante pobre. Mas há um caso de uma mãe fazendeira no Paraná que engravidou de um peão da fazenda. Sob pressão da família, ingeriu remédio para abortar. Em função disto, o bebê nasceu sem sistema nervoso central. O pai adotivo, um delegado, após perceber os problemas entregou-o à Justiça, que o encaminhou ao C.O.T.I.C. Não passou muito tempo, a criança morreu.Um caso peculiar é dos irmãos de índios. A mãe, por possuir dois cromossomos Y, não pode ter filhos homens, pois estes sempre nascerão com problemas. A tribo, por tradição, sacrifica qualquer nascido com anormalidades. Assim, o pai dos irmãozinhos de índios fugiu da tribo a fim de salvá-los. Abrigados no C.O.T.I.C, só podem receber visita do pai, pois há o risco de um membro da tribo matá-los. Para os índios, um feto com problemas é um sinal: algo ruim pode acontecer. Sacrificá-lo seria a solução.Estes fatos relatados ilustram a complexidade que é o trabalho de quem preside uma associação deste tipo. Além desses casos delicados, há uma enorme responsabilidade que recai sobre a pessoa. O rigor fiscalizador do Ministério Público é grande. De seis em seis meses as entidades devem prestar contas ao Ministério Público. Além disso, há a responsabilidade pelas crianças. Qualquer tipo de problema que atente contra a vida dos menores recairá sobre quem preside a associação.O leitor pode indagar se o governo ajuda uma instituição como a C.O.T.I.C. Dona Margarida dispensa tal ajuda. Prefere o governo bem longe. E reclama das dificuldades criadas por ele. Relata, por exemplo, que não consegue cadastrar a instituição como entidade filantrópica. Somente isto abriria as portas para estabelecer parcerias com grandes empresas e contribuir com o seu trabalho social. As empresas só podem abater do Imposto de Renda doações à entidades filantrópicas que possuem cadastro no órgão responsável. Para as empresas é interessante do ponto de vista fiscal, bem como em relação ao marketing extremamente positivo como responsabilidade social.Dona Margarida segue firme frente à instituição. Trabalha de domingo a domingo, cerca de 10h por dia. Além disso, faz plantões em hospitais para vigiar o tratamento dispensado às crianças internadas. Sua grande revolta é em relação ao ensino público para as portadoras de necessidades especiais. Reclama da falta de profissionais capacitados, bem como da forma que elas são tratadas nas escolas. A casa prefere pagar escolas especializadas para os seus abrigados. Pois, o C.O.T.I.C não ajuda apenas crianças especiais ali abrigadas. Também cuida de quarenta famílias em bairros simples da zona norte de São Paulo, como o Jova Rural. Além disso, assisti a uma aldeia de índios em Bertioga, na Boracéia I. Um trabalho social que visa fazer com que a tribo se torne auto-sustentável. Nesse sentido, o C.O.T.I.C criou condições para que os índios plantassem seus próprios alimentos. Já a partir do próximo semestre a tribo não necessitará das doações que poderão ser encaminhadas para outros necessitados.O C.O.T.I.C é feito de pessoas. E só existe em função delas. Seja de quem cuida ou de quem é cuidado. Num mundo que prega o individualismo, chega a ser espantoso o trabalho dos membros desta instituição. Doam tempo, carinho, amor, dedicação, e, muitas vezes, até dinheiro para ajudar quem deveria ser cuidado por aqueles que o geraram. Na ausência do governo, estas pessoas auxiliam vidas. Despreocupadas com prestígio, seguem anônimas. Enquanto muitos querem ocupar vagas governamentais com o intuito de obter prestígio e poder, bem como benefícios financeiros. Certamente, pessoas assim são de nenhuma utilidade para a sociedade. Parece estar claro, a solução dos problemas sociais da humanidade passa pelas mãos de pessoas como dona Maria Margarida. Uma empreendedora social. Uma das tantas exceções em meio à nossa sociedade egoísta e individualista.A Tia Margarida não anseia cargos políticos. Já foi assediada por políticos. Quer distância deles. Prefere proximidade com quem precisa dela. E sabe que para fazer filantropia é necessário estar preparada para receber a ingratidão. Que existe, mas não a desanima. O que vale, são os sorrisos de crianças como Vinícius, portador de ossos de vidro, que a chama de Tia Margarida. Talvez deixe a casa um dia. Quando poderá ser adotado por uma família. A Tia Margarida ficará com saudades, certamente feliz pela partida do garoto. Pois sabe da importância de uma família para ela. E assim é a dinâmica do C.O.T.I.C. Outras crianças esperam a sua vez. E não podem esperar muito. O problema é que há poucas Tias Margaridas. A sociedade agradece? Nem todos.
site da C.O.T.I.C: www.cotic.org
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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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