Um espancamento antes do ônibus

sábado, outubro 21, 2006 ·

blog violência
Ponto de ônibus. Longa espera. Frio, não muito. Trânsito sem paz Algumas pessoas ali comigo. Cada um na sua. Eu, tranqüilo. Papo, não era meu desejo. E aquela menina eu até olhei. Mais por costume. Ou o desejo de ver algo feminino. Ainda que não tão belo.
Um carro pára. Seis rapazes descem dele. E vem em direção ao ponto. Percebo a entonação agressiva nos gestos. Alguém grita. Logo imagino que se trata de um arrastão. Penso que correr não adianta. O pensamento é muito rápido. O desenrolar da cena mostra-me meu equívoco.
Cena inédita para mim. Os rapazes raivosos iniciam um espancamento. A vítima grita. Entra em desespero. Mas os seus algozes seguem decididos. Chutes. Socos. Cotoveladas. Gritos, gemidos...
O mais velho da turma preocupa-se com a opinião pública. Informa-me de dentro do carro que o espancado é um estuprador. A tensão faz-me acreditar imediatamente. Era como seu eu desse o aval para que a pancadaria prosseguisse. E ela prosseguiu.
Nós que ainda esperamos o ônibus, assistimos calados. Passividade coletiva. Auto-proteção. É cada um por si. Acreditar que se trata de um estuprador, alivia sem deixar de chocar.
O espancamento prossegue. A vítima está no chão. Uma voz comanda a retirada. Mas alguns ainda não estão saciados. “Vamos zerar ele”, diz um que está bem atônito. Presumi que “zerar” seria ir até o final. Mas tive a certeza que era muito mais entusiasmo que desejo por justiça, se de fato se tratava de um estuprador.
A vítima caminha até o outro lado da rua paralela à avenida movimentada. Os algozes se apertam no Uno. Todos ali seguimos calados. Havia um pretexto para que conversas se dessem. Não sei ao certo porque conversas foram sonegadas. Eu era como a maioria. A tensão me tinha. A voz calada. E a dúvida: era um estuprador ou não?
O ônibus ainda demorou um pouco mais. O rapaz espancado ficou caído na calçada. A ajuda foi chegando. Nenhuma delas das pessoas que esperavam o seu ônibus.
De vez em vez, eu olhava para o corpo caído no chão. Cheguei a investigar com os olhos se ele ainda estava vivo. Eu desejava muito saber a verdade. O real motivo de seu espancamento, ou se de fato trava-se ele de um estuprador.
Indaguei-me por que o grupo não o levou para a delegacia, já que o mesmo era reconhecido como um criminoso. Por um momento tal indagação deu-me a certeza da mentira. Já que não o entregaram para a polícia, não seria verdadeira a alegação para espancar. Em seguida supus que eles queriam uma outra forma de fazer justiça. E que os meios legais não os satisfaziam. Quem sabe fossem até falhos.
Finalmente o ônibus chegou. Um rapaz que correu em direção à porta de embarque causou-me um susto. A tensão ainda me dominava. Entrei e sentei. E fui embora para casa. Tenso. Duvidoso. E com vivência de um pouco da dinâmica desta metrópole. A gente sabe o que ocorre. Não ver é bem melhor. É como se não existisse. Mas neste exato momento algum crime está ocorrendo. Só que não estamos vendo. Ver não nos faria menos passivos. Apenas nos chocaria. Creio.



0 comentários:

Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br