Naquela empresa - Texto 7

quinta-feira, outubro 12, 2006 ·

Evidentemente que ficar desempregado é degradante. Muito embora eu pense que diversos trabalhos degradem a alma humana. Já fazia cerca de nove meses que eu me encontrava desempregado. Aquele emprego significou duas coisas importantes em minha vida. O retorno para a área áudio-visual, bem como o completo desencanto por ela.
Meu primeiro emprego fora em uma escola que possuía uma produtora de vídeo. Eu amei os afazeres. Saí de lá acreditando no meu talento. Fiquei fora do mercado. Tentei algumas produtoras. Daí descobri que meu pequeno portfólio tinha pouco valor. Até conseguir voltar. E o contato com amadores que se julgavam acima de todos foi absolutamente destruidor para mim.
Eram pessoas com pouquíssimo conhecimento teórico sobre vídeo. Aprendiam praticando. Ao modo deles. Nem mesmo conheciam nomenclaturas. E não tinham nenhuma orientação profissional. Isto não é condenável. O problema é arrogar-se conhecedor supremo de um assunto para o qual o indivíduo jamais se preparou.
O tempo foi passando. Eu percebi rapidamente que deveria me esforçar. Fazer horas-extras. Assim o fiz. E o patrão disse-me que estava muito contente com o meu trabalho. Claro que é bom ouvir isto. Mas havia algo por trás. Eu estava sendo explorado. E o que ele dizia era que eu era uma ótima mão-de-obra. Barata e que se fazia explorar tranquilamente.
Penso que nas empresas, pelo o que vivi, pelo o que já ouvi, falta o respeito ao ser humano. Por exemplo, há uma grande produtora no mercado. Umas das mais conceituadas. O ser humano para ela é lixo. A pressão é enorme. E há detalhes. Cadeiras, por exemplo, faltam para os trabalhadores. Um local de desprezo aos funcionários. Lugar que jamais quero por o meu pé. E que não indico para ninguém. Até alerto.
Ali, naquela empresa, vi o quanto um funcionário simples não passa de um número. Que pode ser subtraído a qualquer momento. Facilmente substituído. E aprendi o quanto o comportamento que vem de cima, do ponto de vista hierárquico, influencia as pessoas.
Deste modo, os funcionários aprenderam a se desprezar. Na verdade, todos ali tinham vergonha de trabalhar naquela empresa. Era a certeza de que o outro sabia que você ganhava pouco e era nada valorizado. O ambiente gerado em função disto era destruidor.
Estabeleci contatos. Dava "bom dia". Passava pelo setor simples da empresa. Onde o produto final era embalado. Os dois rapazes que trabalhavam comigo não cumprimentavam os funcionários deste setor. Era um modo de se sentir superior. Falta de educação também.
Não via diferenças entre as pessoas dos diferentes setores. Até hoje não vejo. Deve-se cumprimentar as pessoas como seres humanos que são. Pouco importa o cargo. O salário. O status.
No próximo texto avanço no tempo. E inicio o retrato do ambiente nocivo que se tornou aquele setor. Edição.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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