Carona (texto de uma leitora que prefere o anonimato)

sábado, agosto 19, 2006 ·

- Moço, dá uma carona!

O rapaz olha a mulher ali ao lado do carro e como lhe parece familiar, diz que sim. Gentilmente abre a porta.
É noite. Fim de expediente. O cansaço fica evidente no modo como seus olhos se encontram com os dela. Nada de avaliação. Apenas indagação quanto ao destino da carona. É cuidadoso ao retirar o carro do estacionamento, acena amistoso para o vigia. Agradecimento. Rotina.
O trânsito exige toda a sua atenção. A hora do rush já passou, mesmo assim o fluxo continua intenso nessa cidade que não dorme nunca.
Tece algum breve comentário sobre esse ou aquele ponto da cidade. Ela reclama do calor que assola a metrópole nos últimos dias. Ele responde que esse fenômeno tende a piorar daqui até outubro.
Sua atenção continua no trânsito. A atenção dela se concentra em suas mãos ao volante. Mãos firmes e ao mesmo tempo gentis. Dirige com a perícia de quem está acostumado a transpor barreiras sem, no entanto, atropelá-las. Uma faixa para pedestres. Freada suave. O fluxo segue e são levados por ele. Um motoboy passa 'costurando' o trânsito. Ela se assusta. Ele apenas ri e comenta que a velocidade da vida às vezes nos faz cometer imprudências. Isso não apenas no trânsito!
Ela observa seu perfil. Queixo firme. Boca bonita. A barba está começando a despontar. Olhos expressivos que mesmo atentos possuem uma doçura misteriosa. O movimento nas calçadas não escapa à sua percepção. Comentário breve sobre uma peça que está em cartaz. Ótima, diz ele.
Ela flagra um meio sorriso, quando diz a ele que nunca foi a um teatro. Ele diz que isso o faz lembrar de alguém. Os dois riem.
A viagem continua. O celular toca. Ele atende, e educadamente diz que está no trânsito. Retornará a ligação mais tarde. Novamente suas mãos se tornam o foco da atenção dela. Quando muda a marcha o faz com naturalidade e leveza invejáveis. Ela fica imaginando que da mesma maneira com que dirigiria um Jaguar, aquele homem dirigiria um fusquinha, sem que o ego afete sua maneira de ser por conduzir esse ou aquele carro. Ela olha através do vidro e conclui que uma das melhores maneiras de se analisar como uma pessoa conduz sua vida é vendo como ela se comporta no trânsito.
Ela sente que sua admiração por ele cresce à medida que observa seus movimentos. Respeito ao pedestre. Nada de buzinadas e freadas bruscas. Segue o fluxo e nos momentos decisivos faz o que tem que ser feito. Ultrapassagens seguras.
Farol fechado. O tamborilar dos dedos no volante é o único indício de sua pressa.
A imaginação fértil da mulher se põe a trabalhar e visualiza aquelas mãos com uma certa impaciência despindo o corpo de uma mulher. E não consegue evitar um meio sorriso. Com certeza, pensa ela, a perícia e suavidade continuam elementos comuns nesse outro segmento.
Há algo de sensual na maneira como ele massageia a nuca. Músculos cansados. Outro farol. Ela sente seu perfume e se pergunta como alguém pode sair de um dia de trabalho e ainda conservar aquela aura de masculinidade, aquele cheiro gostoso de homem bem cuidado.
A viagem está terminando. Ela tenta prolongar aqueles momentos indagando sobre sua vida. Ele diz que sua vida, no momento depende de um banho relaxante, cama e um bom livro! Ela sorri. Identificação de gostos. Divergência de rumos. Ele pára o carro. Ela agradece a carona de modo formal. Diz que ainda segue rumo a um ponto de ônibus próximo. Mas não lhe informa que tomará ainda naquela noite um avião rumo a Goiás. Aperto de mãos. Quase cede ao desejo de passar a mão pelo seu rosto ao dizer novamente: obrigada!
Não fica bem... Sai do carro. Fecha a porta com delicadeza. Sorri e acena um adeus. Ele corresponde. O cansaço ainda está lá naqueles olhos, mas algo mais lhe chama a atenção. Avaliação. Um segundo de reconhecimento como se pensasse: de onde mesmo me lembro dessa mulher?
O sorriso íntimo dela se intensifica, pois ele não reconheceu a passageira de muitas viagens de ônibus, de trem ou metrô. Alguém que esteve muitas vezes por perto. Uma integrante de seu intenso e delicioso mundo virtual.



1 comentários:

opiniões&crônicas disse...
agosto 19, 2006  

Bom texto. Reli há pouco. Diria que gostei muito da percepção que você tem da minha pessoa ao volante. E acertou em muitas coisas. Parabéns!


bjs

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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