Teatro. Sem companhia. Outro endereço

quinta-feira, março 23, 2006 ·

Teatro. Sozinho. Repetição. Outro endereço. Centro Cultural São Paulo. A prefeitura prestando bons serviços. A gestão anterior não fez por menos.
Telefones tocaram. Convites foram negados. Não fosse isso ou aquilo, iriam. Fatos normais. Aquela que havia dado certeza adoeceu (já sarou!).
A chuva ameaçou atrapalhar. Uma olhada melhor na programação. Outras opções mais tarde.
“Aperitivos”. Mini peças no mesmo palco. Sempre o mesmo autor. Nada de mudar atores. Alterações apenas no cenário e luz.
Risadas. Silêncios. Reflexões. Se fez rir, fez também ver as misérias do ser humano. Por alguns momentos senti-me bem triste. Somo isto mesmo, pensei. Chuva de emoções. De certo, eu não era o único.
Não cansou e a peça terminou. À saída fui dado como advogado. Não, não sou, respondi cortesmente. A carteirinha, disse a mulher. Sorri e confirmei não advogar. Ela havia me visto solicitando meia entrada.
Queria aquela mulher um advogado? Um namorado? Penso que apenas dissipar uma curiosidade. Movida por conteúdos seus que desconheço. Conteúdos que nos fazem escravos...
Tal acontecimento sugeriu uma pauta. Frustração. Podia ter sido melhor. Uma mulher que me interessasse. A tentativa de um papo. Um café, quem sabe. Telefones trocados. Conversas breves durante a semana. Um novo encontro...
Fui para a casa. Teci textos no metrô. Nenhum deles foi para o papel. Somente agora eu escrevo. Início de terça-feira. Não é o mesmo dia da publicação. Brincadeira com passado, presente e futuro. Dúvidas que tenho da existência de um deles.



2 comentários:

Alexandra disse...
março 23, 2006  

Meu querido amigo, a melancolia esteve presente neste texto bem escrito.
Somos..."Chuva de emoções".
Queria ter ído com você, porém mesmo se meu telefone tivesse tocado(como intencionou ligar), eu não poderia ir, estava com muitaa dor de cabeça...

...mas também, se alguém tivesse ído com você, a frustração(breve, acredito)não teria ocorrido...

Porém, este texto precisava de um toque mais melancólico...para deixá-lo mais comovente do que já estava...

"Uma mulher que me interessa"...é o que merece...ela está em algum lugar. Um dia, irá encontrá-la.

Beijos carinhosos...belo texto.

Dudieli disse...
março 23, 2006  

Oi Adelcir!
Demorei pra te dar um "retorno", mas já melhorou pra caramba seus textos... sei que como vc escreve todo dia (ou quase) nem sempre a gente tem imaginação suficiente pra digitar, nem sempre sai fácil, mas a prática leva à perfeição... rsrsrs.
Agora sim sua mania de colocar pontos tá começando mais a parecer um estilo, algo como um videoclipe escrito (lógico que isso na minha opinião, um pobre e mero leitor, hehe). Um dos caras que mora comigo também escreve parecido com vc, e ele também é jornalista. O blog dele é o parede.blogspot.com
Abraço
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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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