Gotas de vinho sobre a mesa

domingo, março 26, 2006 ·

Bar. Mesa para dois. Dificuldade em escolher uma melhor. Não havia porque complicar. O garçom de sempre não nos viu. Denunciou sua indignação posteriormente. Fazia questão de atender a minha bela amiga. Entendo aquele senhor. Realmente ela é encantadora. Sua naturalidade conquista atenções masculinas.
Vinho. Não entendo nada. O garçom mecanicamente mostrou-me o rótulo. Assenti com a cabeça. Nem li os dizeres da garrafa. Não tinha a menor idéia de minha decisão. Constrangido? Não, nem um pouco. Cenas de cinema. Comédia. Ri com a amiga.
O garçom ladrão forjava ligeireza. Serviu-me. Derramou gotas de vinho sobre a toalha de mesa. Constrangeu-se. Não nos aborrecemos. Acalmei-o. Vi que minha taça continuara praticamente como havia chegado. Após servir minha amiga, voltou para o meu lado. Confesso, desejei que ele derramasse vinho novamente. Não era maldade. Desejo por uma pauta. Olhei fixamente. Ele derramou...
A noite seguia. O cantor engraçado nos fazia rir. Coentro boliviano. Tema de sua história. Acontecidos em sua cidade. Exageros baianos.
Eu seguia observador. Sem deixar, espero, de ser atencioso com a amiga. Também observava sua tranqüilidade. Que a deixava mais bela. Conversávamos. Divagávamos. E a pizza se ia. E a taça dela o garçom enchia novamente.
Diversas mesas. Mulheres bonitas não era o caso. Bar familiar. Casais que se encontram. Ausência de paqueras.
A moça chegara há pouco. Enquanto dormia sentada, o namorado conversava com a outra. Quem enxergar traição se equivoca. Todos amigos. E não era porque a amiga não fosse bonita. Não me pareceu o caso. Julgamento por aparências. Espero não estar equivocado.
Quebra da calmaria. O rapaz barulhento chegara. Cantou. Dançou. Horrorizou. Com sua parceira fumante sentia-se em uma boate. Erotismo na dança. Cara feia dos garçons. Mulheres rindo timidamente. A minha amiga não se importava. Chocar. Eles queriam. Chocaram. Para mim, expressão de infelicidades. Aquele casal pareceu-me muito infeliz. O rapaz principalmente.
A pizza se fora. O orégano não viera. Alergia. Fome saciada. Palavras no papel. Momento lúdico. Demonstração de carinho. Possível caminho para sedução. Caminho deixado de lado. Sedução apenas nos olhares.
Antes da conta, um café. Cansaço. Sono. Meu apenas. Ela estava bem. Irradiava seu bem estar. Era bom olhá-la. No carro teci elogios. Agradecimentos. Momento verdadeiro. Blues para acompanhar.
A noite me dera pautas. Não podia escrever no mesmo dia. Cansaço. Deixei para agora. E declaro minha incerteza. Não me parece que era este o texto que eu desejava. Talvez eu quisesse ter mudado algo naquela noite. Busca pela perfeição? Não, não é isto. Sei o que eu desejava mudar. E sei também que termino. Se pudéssemos escrever as nossas vidas, como seria?



1 comentários:

Anônimo disse...
março 29, 2006  

Amei! este texto foi pontuado por observações detalhadas da nossa noite no bar. Confesso não ter percebido seu olhar sobre o "todo", ninguém a descreveria melhor. Obrigada pelo "bela" e "encantadora", você desperta em mim essa tranquilidade. Ao seu lado, não preciso forjar comportamentos para serem adequados. Sou apenas essência, com os defeitos e qualidades inerentes a uma pessoa comum. Não sei como agradecer as suas gentilezas para comigo, você é um presente que a vida me ofertou num momento difícil. Com a nossa convivência, voltei a acreditar na sinceridade de atos e palavras, me faz muito bem. bjs

Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br