Um carnaval passado. Uma mulher passada. (título provisório)

domingo, fevereiro 12, 2006 ·

Antes de iniciar um relato, sou obrigado a revelar uma contradição minha. Ocorre que falei que não me prendo ao passado. Mas o fato é que tenho escrito sobre fatos que se foram. Pessoas que não fazem mais parte de minha vida. É uma contradição. A explicação é simples: sou humano!

Carnaval. A auto-estima não era das melhores. Eu era o único homem entre cinco ou mais mulheres. Entre elas, irmã e prima. A pequena cidade mineira estava lotada.
Sei que via aquela loira de vestido, cuja cor, creio, era azul. De maneira que, eu fitava seu corpo com desejo. Finalmente nossos olhos se encontraram. Muitos foram os encontros dos nossos olhares. Mas, em um desses encontros não marcados, ela fixou o olhar. A timidez (ou será a baixa auto-estima?) me dominou. Fugi dos seus olhos...
Diante de seu olhar fulminante, eu precisava tomar uma atitude. Quando o grupo que estava comigo resolveu ir para um bar próximo dali de onde se dava o show, cuja banda não faço idéia qual era, de tão ruim que devia ser, tive a chance de me aproximar daquele belo corpo coberto por um simples vestido.
Hoje, ao ler livros com personagens provincianos, imagino o quanto aquilo representava para aquela bela mulher. Não é por preconceito que digo isto. Ocorre que numa metrópole as “aventuras” são maiores, mais possíveis de ocorrerem. Numa cidade provinciana o tédio bate à porta de muitos. Para mim, as mulheres estão mais à deriva. Isto por que o estilo de vida não é como o das capitais. Sim, elas trabalham. Mas, tem sobre elas o manto da moral. O cuidado que devem ter com sua reputação é grande. Para que não sejam rejeitadas pela sociedade. Tal rejeição, sem dúvida, sempre está pronta para entrar em ação.
Quando passei pela loira disse-lhe que queria conhecê-la. – Depois, foi o que ela disse. Dei de ombros e fui embora. Não queria ficar por baixo. Fui para junto do grupo de mulheres que me acompanhavam. Contudo, não me conformara. Voltei lá e perguntei para ela: – Depois quando? A bela loira se assustou. Daí em diante não me recordo o que falamos. Sei apenas que no dia seguinte nos encontramos no grande parque da cidade. Conversamos muito. Um encontro à noite fora marcado. Nenhum beijo...
A noite chegara. A chuva a acompanhava. A mulher dos meus desejos de carnaval se atrasara. Sei que a chuva foi um dos motivos. Não me recordo de outros. Enfim, nos encontramos. O primeiro beijo possivelmente não demorou muito. O que me lembro vivamente é que o clima entre nós esquentou muito. Nunca em toda a minha vida uma mulher me excitou tanto. Sei que nos controlamos. Desejávamos mais. Precisaríamos de um novo encontro. A vida não quis...
Eu voltei para São Paulo. Escrevi cartas para ela. Recebi algumas também. Falávamos ao telefone. O desemprego me impossibilitou de voltar a cidade. Eu ficava em casa. Lembrava dos fugazes e intensos momentos que tivemos naquela noite quente de carnaval. Precisava reencontrá-la. Até que seu ciúme fez com que brigássemos...
O tempo passou. Voltei à cidade. Não sei como ela ficou sabendo da minha presença. Reencontramos-nos fora da cidade. Ela estava em fase de separação. Havia se casado. E tal casamento fora péssimo para ela. Não podia ser vista com outro homem, sob risco de implicações judiciais. Sei que nos beijamos. Ela contou que após a nossa briga me escrevera. A carta foi para o 417. Moro no 471. Enfim, tudo havia mudado. Fato normal. Depois disto, nunca mais nos falamos. Voltei outra vez à pequena cidade, tempos depois. Levei comigo uma namorada. Foi a última vez que fui lá. Dificilmente voltarei lá. Dificilmente reencontrarei esta mulher. Talvez eu queira. Talvez não. Não sei...



2 comentários:

Anônimo disse...
fevereiro 12, 2006  

" A muitos carnavais-um amor platônico- contradição?


"Um vestido azul- a muitos carnavais"

Zenna disse...
fevereiro 19, 2006  

UMA MULHER DE AZUL(CREIO),PASSADO - CONTRADIÇÃO?

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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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