Voltando para casa

sábado, dezembro 17, 2005 ·

Vou tentar relatar a minha viagem de volta para casa hoje. Linha Terminal Santo Amaro-Bandeira. Cotidiano. Mais uma vez, ônibus velho. Como eu disse, nem sempre consigo evitá-los.
Estava eu sentado em sentido contrário. Muitas pessoas de frente para mim. Antigamente eu receava sentar nestes bancos. Encarar as pessoas de frente não era fácil. Mas agora faço isto com absoluta tranqüilidade. Entre outros fatores, é a maturidade que me permite.
Sabe, às vezes os coletivos parecem um palco. Nele, tragédias sociais. O menino distribui os papéis. Pede a sua esmola. Um texto pronto. Pergunto-me quem fez este texto. Quem definiu o modo de falar. Um modo meio cantado. Arrastado. Chato. Que convence a alguns.
Penso que aquele garoto, que é só mais um entre tantos garotos e garotas, e, principalmente, adultos, representa um papel que lhe foi passado. Ao olhar para ele, pensei: FORTE O SUFICIENTE PARA ESTAR TRABALHANDO. Um momento reacionário meu. Caí para esquerda e reformei o pensamento: DEVERIA ESTAR ESTUDANDO.
O ônibus seguia trepidante. Eu escrevia textos em minha cabeça. A imaginação corria mais veloz que o sanfonado. Então, aquele casal bizarro me intrigava. Uma cena de cinema. Senti-me frente a um belo filme europeu. Como OS AMANTES DE UMA LOIRA. Um filme tcheco que não faz uso de belos atores, muito pelo contrário, beleza neste filme só a dura realidade daquelas meninas solitárias naquela pequena cidade.
O casal parecia brigar. Eu não tinha certeza do que via. Talvez o grandalhão brigasse com a pequena. Olhei para o rosto dele. Queria sentir se ele a amava. Devaneio meu, eu sei. Mas enfim, eu não conseguia definir nada...
Às vezes eu abandonava o casal. Desistia. Deixava de frustrar-me. Olhava pela janela e sentia os olhos apertar. Pasmem! Não era o sol que me obrigava a franzir a testa e apertar os olhos. Não era por charme também. Sentia, meus amigos, que os meus olhos se umedeciam. Uma sensibilidade tomara conta de mim naquele momento. Brigava para não verter lágrimas. Imaginem a vergonha.
Este desejo mencionado no final do parágrafo acima tinha uma origem (creio): as mulheres. Bastava eu lembrar daquelas que vi chorando esta semana que me vinha um desejo de solidarizar com elas. Pretexto apenas? Não sei! Mas as mulheres me emocionam. Essa honestidade em chorar é fantástica. Diferença biológica? Não sei também! Na verdade, penso que não exatamente. Porque eu creio que nós homens não choramos tanto, ensinados que fomos.
Olhava mais uma vez ao meu redor. Pensava em outro texto. Não havia como escrever. Caneta não basta. Sabia que estava perdendo uma boa oportunidade. Mas a vida é assim mesmo. Então eu seguia tranqüilo.
O casal bizarro desceu do ônibus. O grandalhão branquelo seguia na frente pela calçada. Depreendi que ele estava com raiva de sua parceira. Dei de ombros. Outra olhadela e eles se davam as mãos. Fato este que não me foi suficiente para depreender o amor entre eles.
Segui olhando pela janela. Os olhos apertavam novamente. Não trazia comigo lembranças do trabalho. Meu único desejo era escrever (e não verter lágrimas!).
A viagem chegara ao fim. Muitos outros detalhes soneguei neste texto. Fiz escolhas. É assim a vida às vezes. Feita de escolhas. Pena que nem sempre é assim. Obrigados que somos a aceitar determinados acontecimentos.
Dirigi-me ao metrô. Esperava ele lotado. De fato estava assim. Outra viagem se iniciaria. Meu estado de espírito já não seria o mesmo. Não que tivesse se diferenciado tanto. Mas eu mudara. Percebia isto em mim...



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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