Ônibus velho lotado; pensamentos prontos (e machistas); e um belo decote (mas sem bons modos)

sábado, novembro 26, 2005 ·

Ônibus lotado. No desconforto dos bancos eu permanecia lendo. Ao meu lado um belo decote. Era contraste com os modos não muito delicados da morena. Rumo a Santo Amaro eu seguia viagem. O trabalho me esperava. O ânimo surgiria quando lá eu chegasse.
“Difícil encontrar uma mulher perfeita: bonita e inteligente”. “Algumas mulheres parecem que não tem cérebro!”. Era o que o rapaz mais falante dizia ao seu colega de viagem. Simples rapazes. Trabalhadores ao certo. Suas filosofias, claro, eram carregadas de preconceitos e pensamentos prontos.
Diversas vezes mudaram de assunto. Nem sempre eu prestava atenção. Mas dizer que levar surras é de gosto de algumas mulheres não podia passar despercebido. “É tempero para relação, pensam elas”. Pasmem mulheres! Mas saibam, o mundo masculino é sórdido! Na verdade, este pensamento pronto é uma forma de justificar a violência contra as mulheres. Mulher nenhuma deve ser agredida fisicamente. Nem mulher, nem homem.
Seguia lendo Balzac. Fazia anotações para fazer este texto. O belo decote ao lado dormia bebadamente. Seu perfume era álcool. Uma jovem estudante. Seria até bonita se tivesse melhores modos. Mas não é de surra que ela precisa. Necessita o que todos necessitam: boa educação.
Às vezes interrompia a minha leitura. Trepidações severas do coletivo. Uma chuva fina caía lá fora. Quando ela cessava eu abria a janela, pois fazia calor. Olhei para trás calculando a dificuldade que teria para passar no corredor. Às vezes olhava os dois "filósofos" a fim de avaliá-los. O mais falante tinha muito assunto. O outro era na verdade um tipo que concorda com tudo. Sentia como se ele não estivesse ali. Parecia estar com a sua namorada. Sim, as mulheres sabem, muitos homens são demais ausentes. Não vou dizer se a maioria. Mas sei o quanto as namoradas e esposas reclamam de atenção. Talvez a explicação seja a que uma amiga me deu: "os homens não conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo". Algo que ela leu. Nem sempre o que está escrito pode ser tido como uma verdade irrefutável.
Deixei o coletivo. Indignei-me com seu péssimo estado. Não foi fácil passar pelo corredor. Nesses momentos, sinto como se uma confusão fosse iminente. Um esbarrão. Um tropeção. Sei lá, algum contato físico indesejado. Levei comigo minha indignação. Ônibus velho e filosofia machista. Tive uma recompensa. A idéia para uma crônica. Dirigi-me ao trabalho. O ânimo de fato surgiu durante o expediente. Trabalhei muito. Foi bom.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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