Depois de uma constatação, uma crônica

segunda-feira, novembro 14, 2005 ·

Enquanto escrevo, as ondas sonoras trazem Vivaldi aos meus ouvidos. A leveza da música contrasta com a minha agitação. Às vezes o estress nos tem por motivos banais. Quem nunca ficou irritado à toa? São pequenos detalhes que nos pegam de surpresa. É preciso ficar atento aos detalhes. Eles são o que de mais importante há em nossas vidas. Descubra seus detalhes e você será uma nova pessoa. Eu estou descobrindo os meus. Mas ainda sigo ignorante de boa parte deles.

Uma preocupação me tem. Este blog está perdendo suas características principais. O propósito de escrever crônicas ou opiniões está um pouco esquecido. Curioso como ninguém ainda me criticou neste sentido. Eu sou meu próprio crítico, então. Ocorre que não quero fazer deste espaço um diário. Oras, isto é deveras egocêntrico! Quem falou que a minha vida interessa às pessoas?

Mas eu posso fazer uma observação. Talvez uma correção. É possível que este blog seja uma mistura de opiniões, crônicas e auto-retrato. Talvez eu tome a minha pessoa como exemplo para falar sobre os fatos da vida. Sim, talvez seja isto. Se assim for, sinto-me aliviado.

Agora tentarei relatar um fato. E isto se dará em forma de uma crônica. Ocorre que eu estava no metrô. Dirigia-me para um encontro com a minha namorada. Isto se deu no último domingo. Sentado ao lado de uma mulher, vi que um homem a observava libidinosamente. Seu olhar não se fixava apenas no rosto daquela que pouca simpatia expressava. Era um olhar lascivo. Que deixava bem claro sua carência sexual. Bom, de repente nem era carência, e sim um costume tarado daquele rapaz de desejar as mulheres cujo corpo lhe interessa. Olhei para a mulher a fim de depreender o que ela achava sobre a tentativa apelativa de um flerte. Sua feição não era de bons amigos. Penso que ela entendia bem as intenções do rapaz ali em pé com sua mochila em uma das mãos. Claro estava que ele tinha uma única intenção: possuí-la sexualmente e depois ir atrás de outra mulher. Agora, se sua tática de sedução era aquela, penso que ele vai ter que apelar para a carteira e sacar de seu dinheiro de trabalhador a fim de satisfazer suas necessidades (ou será o seu ego? Ou será sua patologia?). Enfim, naquele momento estava claro para mim que no jogo da sedução aquele homem não seduzia a mulher de cara amarrada. Eis que me levanto e peço licença para ela. Prontamente o rapaz tomou o lugar que eu ocupara. Rapidamente a mulher se levantou. Fiquei observando se ela desceria na mesma estação que eu, ou se realmente estava dando um fora definitivo no trabalhador cheio de necessidades ou seja lá o que for. Ela não desceu. Ficou em frente à porta. Talvez desceria na próxima estação. Pensei: É ASSIM MESMO, AMIGO. NEM SEMPRE SE GANHA. Desci. A incerteza que tive é que se o homem, ferido em sua vaidade, levantaria posteriormente para descer na mesma estação que aquela mulher. O que garante que de fato ela o rejeitava? É preciso lembrar que as mulheres, na maioria das vezes, escondem seus desejos. Falo com propriedade. Lembro-me de mulheres que se faziam rejeitar. E que depois de um bom papo deixaram todas as guardas escondidas. Não foram muitas. Na verdade foram muito poucas. O que quero dizer é que um “não” de uma mulher nem sempre é “não”. É preciso pagar para ver. Segui meu rumo. Fui direto ao encontro de minha namorada. Vale lembrar que a conheci no metrô. Certamente não foi com um olhar lascivo.



3 comentários:

Alan disse...
novembro 15, 2005  

Del, esse post certamente renderia um ótimo papo, regado a um bom cappuccino no Fran's ou - por que não? - na Ester. Mas o sono me domina no momento e acho melhor deixar esse papo pra depois. Para não esquecer: 'auto-retrato' é uma boa palavra-chave. Talvez sintetize tudo o que vi até aqui no seu blog. Mas é bom deixar claro que penso que seja uma síntese-abrangente. Uau! Tanta redundância denota o nascimento de uma nova via filosófica!
Melhor eu ir dormir...
Abraço

La Belmonte disse...
novembro 17, 2005  

Bom, agora a feminista vai falar!
Nao de mulher 'e nao sim!!!
Claro que tem mulheres que jogam, mas o grande argumento de muitos homens que abusam de mulheres eh exatamente este que: mulher quando diz nao quer dizer sim! Grande besteira! Para mim a unica palavra que permite duvida seria um Talvez... e olhe la.

Mariana Alves disse...
novembro 17, 2005  

Oii Adelcir tudo bom?
Bom, como me pediu, segue minha opinião.

1 - sinceramente, gostei mais dos outros dois textos que li e até já comentei!

2 - achei este texto um pouco confuso, você fala com o leitor, daqui a pouco já relata o fato... Manter um diálogo com o leitor é até muito legal e interessante. Mas tem que ficar muito atento, para não complicar a leitura.

3 - bom, acho que você não deve se preocupar tanto, se teus textos estão tendendo para um lado, ou para o outro. Escreva conforme a inspiração. Pode ser que hoje, seja uma crônica, amanhã um artigo e por aí vai...

Quando a gente escreve com o coração, o texto fica mais autêntico, mais interessante e atraente. Não que você tenha escrito sem inspiração, mas achei meio tendencioso.

4 - não sei se você tem costume de reler seu texto (cronica, artigo, etc..) em voz alta. Se não o faz, te aconselho a fazer, é muitooo bom!! (Digo isso por experiência própria). Todo mundo que adota esta prática, adora!!

Bom é isso...espero que tenha ajudado!

Abraços!

Mariana

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
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