O SHOPPING E O FORA

sábado, outubro 22, 2005 ·

As araras da loja ofertavam diversas roupas. Os sapatos eram os mais desejados por Pamela. O meu desejo, naquele momento, era apenas ela. Fortemente atraído, tive ímpeto em agarrá-la. Não o fiz, respeitoso que sou. Entre abraços, beijos e olhares, eu deixava claro minhas intenções.
Exausto em ver roupas, supliquei para sair da loja (eu não suportava mais ficar ali!). Mas antes de sair, ela levou-me ao setor de lingeries. Neste momento meu desejo havia diminuído. Cheguei até mesmo a rejeitá-la.
Fomos para o café de braços dados. Estávamos assim praticamente todo o tempo. Pedi um pão-de-queijo e um expressso com espuma de leite. O atendente, com quase nenhuma simpatia, não deu a mínima para a espuma. Cordial que sou, apenas lamentei, não reclamei. Se depender de mim, o mundo não vai para a frente.
Sentamos frente a um espelho. Pamela pediu-me para que eu ficasse mais próximo dela. Eu já não tinha mais certeza de que ela me queria. Assim mesmo arrisquei algumas palavras incisivas. Não me recordo o que disse. Sei apenas que ela me fez negativas. Reagi bem. Fui entendedor. Ela confessou que houvera me desejado. Mas percebeu que se ficasse comigo seria apenas para vingar-se do ex-namorado. Hoje, seus sentimentos por mim são apenas de amigo. Ela tem por mim um grande carinho. Diz que eu sou um dos responsáveis por hoje ela estar melhor. Eu dei atenção para ela num momento em que estava muito abalada sentimentalmente. Fiquei feliz em saber isto. Confessei também que eu tinha tido um interesse por ela. Depois ele se foi e havia voltado naquele dia. Não sei o que ela depreendeu de minha fala. Eu revelei que um dos motivos era porque somos da mesma classe e isto me incomoda, posto que minha liberdade eu não quero perder. Mas eu não me fiz de vencido. Ao longo de sua permanência ao meu lado, tentei diversas vezes arrancar um beijo. Estávamos na última vitrine. Livraria. Senti-me atraído novamente. Tentei encostar-me nela. Esperta, ela se afastou. Fui cortêz e respeitei. Sei que às vezes nós homens precisamos ser audazes, mas só faço isto com plena certeza de que a mulher me quer.
No ônibus, tornei-me mais audacioso. Entre abraços, eu procurava seus lábios. Ela ria e se protegia. O momento era engraçado. Eu persistia. Eis que ela alertou-me que o meu ponto era este. Salva por um ponto de ônibus. Vencido pelo mesmo ponto. Dei um beijo em seu rosto e fui-me. Pamela tornara-se mais interessante para mim...



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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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