O outro lado

sexta-feira, outubro 21, 2005 ·

Falarei brevemente de uma experiência negativa que eu tive e procurarei terminar este texto de uma forma positiva, posto que este é um preceito deste blog, sem contudo ser uma obrigação.
Inicio com uma constatação: as pessoas que estão no mesmo barco nem sempre se ajudam. Constatei isto durante os cerca de cinco anos que estive naquela empresa. Lá observei o quanto é nocivo a convivência sem união entre as pessoas.
Diante de um ambiente opressor, cheio de proibições e um profundo desprezo do empregador para com os empregados, era-me estranho que os oprimidos não se unissem em busca de algo melhor para todos. A explicação é simples: o medo de perder o emprego. Era cada um por si. Isto se dava por dois motivos: má qualificação profissional e o alto índice de desemprego. Este último fator fazia do patrão senhor da situação.
Diante do quadro exposto acima, o que se tinha era um ambiente de absoluto individualismo e de franco não-amor. Confiar um no outro era tarefa difícil. A baixa auto-estima das pessoas colaborava para a falta de bons sentimentos para com o colega de trabalho. É fato que uma pessoa que não se ama, não ama o próximo.
Eu devo dizer que não tínhamos uma casta de bandidos. Ocorre que todos ali eram frutos de suas mentes, manipuladas pelo sistema da empresa e pelos respectivos históricos de vida.
Se a experiência foi bastante negativa, retirei dali lições que hoje me são úteis. Aprendi a como não ser como pessoa. Senti o quanto é necessário o amor e a união entre as pessoas. Para mim, uma empresa, ao contratar, deve prezar pelo caráter e auto-estima dos candidatos. O indivíduo que ama a si e aos demais produz mais e melhor. Além disso, contribui para um ambiente saudável.
As empresas devem adotar o conceito de fazer líderes as pessoas de bem com a vida. Elas fazem o mundo alheio muito melhor.
Passados os cinco anos de angústia (que hoje percebo que foram uma escola, ainda que cruel) eu me felicito por hoje estar trabalhando em meio à pessoas de bem com a vida (com as devidas exceções), boa parte delas de excelente caráter. Agora estou conhecendo o outro lado. Atravessei a rua. Eu só tenho a agradecer e sorrir feliz em saber que neste mundo há pessoas belas de se conviver. Não citarei nomes. Mas devo dizer que algumas delas vão ler este texto. Para vocês o meu muito obrigado.



3 comentários:

Pat Farias disse...
outubro 21, 2005  

AD
Espero estar no meio desses bons colegas que encontrou neste novo ambiente de trabalho. Agradeço mesmo assim, sem ter a certeza que estou entre "eles".
Concordo com esse sistema que descreve e sinceramente gostaria que ele fosse aplicado nesta instituição onde trabalhamos.
Sei que ganhei um "colega"...Hoje tenho um novo amigo que é você!

Alan disse...
outubro 21, 2005  

Você matou!

Luciana Souza disse...
outubro 21, 2005  

Del , parabéns pelo texto ..... como o Alan disse ... vc MATOU...rs

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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