Um brinde à precariedade

sábado, fevereiro 16, 2019 · 0 comentários

Hoje caminhei pela Parada Inglesa. Numa das ruas, vi casinhas pequenas e simples. Construções de uma época que ignoro. Casas térreas com portões baixos. Vaga apertada para um carro.

Sou apaixonado por essas casas. Mas não se trata de um sonho de consumo. É puro apreço.

Também gosto de prédios antigos. O centro de São Paulo tem muitos. São belíssimos. Sempre que tenho o privilégio de caminhar pelas ruas centrais, admiro essas construções com entusiasmo.

Caminhar é observar. E as arquiteturas das construções são o que há de interessante. E o faço com critério: construções atuais eu  as desprezo, sobretudo as mais luxuosas. A simplicidade é poética.

Uma ex-cunhada disse-me que em breve eu estaria com um desses carros que a classe média foi adestrada a gostar. São as chamadas SUV, cujo conforto é inegável. O comentário se deu enquanto eu fechava a porta do meu pequeno Ford Ka 2002. 

Não é fácil conviver com a classe média. O apego às conquistas materiais é deprimente. O vazio e baixo nível filosófico faz com que eu me aborreça. Vejo essas pessoas como personagens de um desenho animado do capitalismo. Elas foram programadas para repetir comportamentos e consumir. A principal estratégia é mantê-las insatisfeitas.

Não há obra maior que um ser humano possa fazer que não seja se auto-conhecer. Todo o resto é muleta. Falo isso porque sei como é viver errante, assustado, angustiado e triste. Sobretudo quando se tenta ser igual aos outros. Sem autenticidade o indivíduo não existe.

Os últimos dois anos foram os mais importantes para mim. Convivi com a bela Mari. E, vacilante, tentei adentrar ao corredor que dá acesso ao lugar comum. Se menti, foi para mim mesmo. A depressão me visitou. Desregulado, virei uma barata. Perdido, elaborei planos que jamais quis colocar em prática. Mari, sagaz, percebeu tudo, sem jamais me revelar. 

A classe média ensina que é preciso vencer. Na verdade, ela replica o que os profissionais de marketing determinam. A classe média não tem opinião. Nem para comprar. Essas pessoas medianas são repetidoras de comportamento. De fato, são desinteressantes.

Perdoem-me, mas essa vida de casar, ter filhos e adquirir não me serve. Bom, nem todos somos bobos. Essa vida não serve para boa parte dessas pessoas que levam essa vida. Os mercados paralelos agradecem. A indústria de remédio também. Os amantes, idem. 

Com tudo dito, não afirmo que estou do outro lado do balcão. Moro em bairro de classe média em um imóvel de bom padrão. Tenho plano de saúde, seguros, empréstimos, investimentos e dívidas. Fora meu emprego e meu carro.

Enfim, estamos todos sob tutela de um sistema capitalista. Não há liberdade de fato. E ninguém está do outro lado do balcão.

Hoje vou à casa do meu irmão Adalton. Intelectual, esse mundo o aborrece. E embora seja um pai de família de classe média, não é um sujeito comum. Pelo contrário, é altamente crítico e consciente.  E ele não está só. 

Lá, encontrarei meu outro irmão, a quem Mari não teve a satisfação de conhecer. Adalmir é um sujeito fora da curva, e que também se aborrece com esse mundo.

Mas será que só os idiotas estão felizes? Não sei. Mas só eles fazem arminha com as mãos. Mas isso já é outro assunto. Neste caso, extremamente pantanoso. 

Sou muito parecido com estes dois irmãos em questões existenciais. Nossas diferenças é que nos fazem autênticos. Nos vemos vez em quando. Precisamos da distância. Os três, amantes da solidão.

Do encontro com os irmãos, devo ir rumo à região central. Já faz tempo ensaio uma visita ao bar e restaurante Al Janiah. Local palestino com atividades culturais. Muito mais interessante do que ir à Vila Madalena. Falo por mim.

O lugar incomum é mais interessante. O incerto. O improvável. O contrário disso deixemos para os idiotas.

Não me demorei no Al Janiah. Duas garrafas de água foram o que consumi. Parti e levei comigo a beleza da garçonete cubana.

Os dias se passaram. Parte da minha segurança desmoronou. Vi as dificuldades voltarem. E então me retraí. Reservei-me à solidão mesmo em público. 

Hoje, sábado, não sei ao certo o meu rumo após o trabalho. Há uma intenção de ir ao Bar do Estadão, mas a verba é curta e o tanque está na reserva. Não quero usar meu crédito. Tenho doze reais na conta, que são o suficiente para guiar da Vila Mariana ao Tucuruvi. 

Creio que hoje eu queira a reclusão. Tenho até uma leitura tramada: Fernando Pessoa, "Livro do desassossego". As poesias dele, hoje as sorvi. "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Curioso, a precariedade é inovadora. Já, o luxo, exagerado, sem graça e egoísta. Lamento, mas desejar ser tratado como semideus tem uma dose de patologia. Fora isso, luxo e corrupção andam lado a lado. A conta quem paga é o precário.

Meu carro é precário. Sem AR, ABS ou vidros elétricos. Tem alguns problemas que sigo esperando ter grana pra mandar consertar. O estepe foi roubado e o óleo já passou da hora de trocar. 

Mari, minha ex-namorada, reclamava do meu salário. Recordo-me do dia em que utilizamos um ônibus. Sua cara não era das melhores. Creio que naquela noite ela se aborreceu. Talvez tenha sentido um desejo de partir, como eu algumas vezes havia sentido. 

Uma conhecida mencionou o Novo. Um partido político feito por gente normal, disse-me ela. Respondi que prefiro os anormais. Lugar comum não me serve. Viver tem que ser ato revolucionário.

Sim, estou cansado dessa gente branca alienada. Que em festas da empresa não estranha que não haja negros representando a diretoria. Daquela menina bonita que  disse amar o capitalismo. De ver só crianças brancas saindo daquela escola particular. Quanta gente alienada. 

Hoje é sábado. Trabalho até às 17h. Daqui, devo ir direto para casa. Esse frio combina com quarto e cama. A alma pede cultura. Leitura. Cinema. Música. Uma sopa ia bem, mas não será o caso. Não quero cocinar. Vinho e chocolate seriam bem vindos. Quem sabe eu vá ao supermercado Sonda na avenida Maria Amália, não muito longe de casa. Comprar sem pressa, agraciado pela organização e limpeza da loja. No caixa, ser atendido por uma das belas funcionárias que executam a tarefa de receber pelos produtos comprados. E lamentar que nenhuma delas seja negra. Lamentar mais ainda por tudo parecer normal, sem de fato estar. 



Despedida

sexta-feira, fevereiro 08, 2019 · 0 comentários

Uma frente fria atravessa a cidade depois de dias seguidos de intenso calor. Mesmo assim não visto uma blusa ou jaqueta que me faça não sentir tanto frio. Mas creio que exagero, a temperatura não está tão baixa assim. 

Considero as pessoas solitárias mais interessantes. Viver só de forma mais livre me atrai muito mais. Já li que a solidão é motivo de um alto número de óbitos. Mas isso só assusta quem não aceita a morte. 

Apesar da referência à solidão, não vivo só, pois moro com a minha mãe. E não é que eu seja um solteiro encalhado. Em verdade, oficialmente ainda não sou solteiro. Eu e Mari pedimos um tempo um ao outro. Mas  isso é um modo elegante de rompimento.

Sempre tive aversão ao casamento. Instituição que ceifa a felicidade de muitos. Uma prisão patética e melancólica. Se há casais felizes, eles são poucos. 

Depois de algumas experiências, chego à conclusão que relacionamentos são formas de colonizar o outro. De modo que, opto por viver só com escassas aventuras.

Mas Mari é sem dúvida um ser humano fora da curva em alguns sentidos. Uma mulher com uma integridade inquestionável. Bela, ela passeia sua pele morena sem perceber o quanto é desejada. Deixo que ela parta e seja feliz...

O ar-condicionado do vagão do trem me castiga com a baixa temperatura. Sigo rumo à estação donde meu carro está próximo. Passarei em frente à padaria de tantos cafés. Mas quase não adentro mais ao local. 

Diminui a oferta do meu dinheiro por xícaras e copos de café. Tenho sido mais controlado. Talvez porque eu estivesse namorando. Não sei ao certo. Tal dúvida deverá ser sanada no decorrer dos dias.

Uma colega de trabalho de uma das empresas em que trabalhei dizia que eu era um galinha enrustido. Na época eu namorava sua melhor amiga. Ela dizia isso confrontando minha prática de fidelidade às namoradas. 

Jamais esqueci a afirmação. E sempre desconfiei que minha colega estivesse certa. 

Mas por que não traía? Moralismo? Pretensa honestidade? Nunca soube. 

Hoje tenho 46 anos. Jamais quis filhos. E não poderia tê-los ainda que desejasse. Felizmente. Casar, nunca desejei. E agora, nem mesmo ter relacionamentos eu desejo. Vínculos amorosos não me atraem. Prefiro ficar livre. 

Prossigo este texto em uma outra noite. Esta de hoje, uma quinta-feira. O frio amenizou. Já faz algumas horas que estou oficialmente solteiro. Eu e Mari terminamos definitivamente. 

Claro que um rompimento amoroso traz alguma tensão e melancolia. Mas não foi do modo como eu imaginava, como já foi outras vezes. Conversamos de forma breve e polida. Maria é muito delicada e educada. 

Na sequência fui almoçar com meu amigo de sempre, Alan Davis. Contei-lhe o fato. Alan é uma pessoa para quem confesso parte de minha vida. 

Agora, solteiro novamente. Livre, como costumo dizer. Um colega de trabalho disse que há pouco que tenho sorte. Ele é casado e tem por ofício trair a mulher. É um tipo garanhão que cometeu a insensatez de casar. Vive a angústia de não poder partir. 

Machado de Assis escreveu que fecha uma janela, abre outra. Após o fim desse relacionamento vejo possibilidades em minha vida. Quem sabe até sair do país, já que trabalho em uma multinacional. 

A vida é uma coleção de experiências e a vivemos de forma circunstancial. Hoje sinto-me mais confiante. Não posso negar que desejava ficar só. Faço um brinde à solidão. Para mim, o maior dos tesouros é a paz interior. Mas, humanos, somos inconstantes. De toda forma, vale citar Nelson Rodrigues: "A vida é como ela é"



Casa da compreensão

terça-feira, janeiro 09, 2018 · 0 comentários

Fui longe. Peguei as marginais. Eu estava tenso. A ansiedade me atacava. Havia um desânimo e pessimismo. Eram as emoções atuando. Somos animais emotivos. Precisamos de carinho e compreensão. Mas é difícil compreender. Dar carinho vai de cada um. Depende do histórico afetivo. Para muitos dar carinho é impossível. Sei de mim: às vezes sou agressivo e ofensivo. A maldade me tem. No fim, amoleço. E me compreendo. Sou um animal doente. Você também.

Eu perguntara antes: a entrega de fato está disponível? Havia incongruências. Alertei. Sim, está disponível. Retire até às 18h, disse-me via chat a atendente simpática, cujo nome fiquei sabendo depois, quando tal questão virou um problema: falha no sistema.

Sistemas falham como nós humanos falhamos. Normal. Não senti raiva. Talvez não houvesse espaço em mim para tal sentimento. Eu já não estava perto dos 100% fazia alguns dias. Mas eu sabia o motivo.

Voltei para a casa de mãos abanando. Fora um prejuízo, o qual pedi ressarcimento sem esperança. Essas empresas uberizadas trabalham com baixíssimas margens de perdas. Só eles ganham, a gente sobrevive.  É o que tem para hoje. 

Mas tudo podia piorar. O google maps disse-me para manter à esquerda. Assim o fiz: fui parar em uma rodovia concedida. Resumo: paguei pedágio. Conclusão: o prejuízo aumentou. Raiva? Muita! Abusei de palavrões dentro do carro. Esbravejei contra o app de trajetos. Muita raiva! E passou. Passou. Dos males o menor. Sobrava em mim algum positivismo.

Minha namorada, a Mari, perguntou-me se eu estava aborrecido. Fui sincero: não estava. Ela se referia ao ocorrido com o app de entregas (Shippify). Ela não sabia: eu já estava aborrecido há dias. Tal fato em nada mexeu comigo. Serviu como aprendizado: passei a conhecer melhor a dinâmica do app de entregas. Claro, a Vanessa do chat deveria saber disso antes de mim. Mas não sei. Talvez tenha sido novidade para ela também. Às 15h uma entrega disponível  com aviso que era para retirar  às 10h do mesmo dia. Indaguei: ainda está disponível? Sim, está. Não estava.

Eu gosto de guiar meu carro. Mas pouco. E de preferência sem errar caminhos. Eu saíra da oficina após uma revisão e descobrira dois problemas a serem resolvidos. E pagara uma conta alta: 800 reais. O mecânico é de minha confiança. Fez reparos no amortecedor, além de alinhamento, balanceamento, regulagem de faróis e outras verificações. Mas não desejava uma conta tão alta! Três vezes no cartão da Nubank, o cartão cool. E o dinheiro está curto. Tenho que trabalhar mesmo de férias. Sou um trabalhador precário, versátil e sem grana, como disse meu irmão Adalton. Não é fácil sobreviver. E a vida segue em frente.

Dormi cedo. Precisava me ausentar do mundo. E sonhei com entregas. Uma até na Argentina. Entregas das quais não realizei uma que fosse. Tudo era conflito. Eu dormira conflitante. Sim, usar meu carro para ganhar uns trocados. Isso tem cara de prejuízo. A uberização veio para extrair mais trabalho e concentrar mais renda. Preciso dar um jeito.

Claro, eu queria trocar meu carro. Mas não posso, pois tenho prioridades. A minha casa é uma delas: necessita de diversas obras. Aos poucos farei tudo. E nem tudo sozinho: a casa possui mais donos. Eu sou apenas um herdeiro. E moro com a minha mãe. 

Sim, aos 45 anos morando com a mãe. Coutinho disse que as pessoas inteligentes seguem morando com os pais após os 40. Não é o meu caso. Não que eu seja burro, mas é falta de opção mesmo. Entenda, se tento ganhar dinheiro com bicos, é por que sou um homem que ganha pouco. Compreenda: a vida é difícil. E eu não sou o único. Já vivemos a precarização do trabalho. Já deixamos de ser proletariado: viramos precariado.

Compreenda. Mesmo que você não viva isso. O mundo, tal qual o homem o construiu, não é para todos. E sempre, ou quase sempre, haverá alguém pior do que nós.

O sofrimento e as decepções da vida dão a nós as doses de compreensão necessárias para que baixemos nossas armas. "A vida é dura".

Alguém vai dizer que estou muito negativo e pessimista: compreenda.

Mas hoje acordei melhor. Levantei tarde. Depois de muito sonhar. Eu sonho demais. Todas as noites novas aventuras. Às vezes repetidas. Dormir é meu brinquedo. Não importa se não é o predileto.

Pensei logo que acordei: preciso de minhas reservas financeiras. Sim, eu estava melhor, porém pessimista. Pois programara arrecadar dinheiro com as entregas. Mas eu já não garantia em mim que conseguiria fazê-lo. Era um sentimento de fracasso. Mas eu sou contraditório. Você também.

Fui ao caixa eletrônico do Itaú, que dificilmente está quebrado. Não encontrei na tela opções de resgate. Saí tranquilo. Eu estava mais calmo. Fui à padaria 24h que fica perto de minha casa. Brinquei com o atendente, que nunca vi de mau humor. Comi um pão de mandioca e café puro no copo (não era americano). Lembrei que estive ali com minha bela namorada e sua bela filha mais nova. E ri sozinho. Mari odiava que eu gastasse tanto naquela padaria. Você vivia como milionário, disse-me uma vez. 

A contradição de ideias e desejos me fizeram comprar um carregador portátil para celular. Desses para carros. E eu fora excepcionalmente bem atendido. Calculei que ali todos fossem sócios. E admirei tal suposto empreendedorismo. Digo assim, pois todos poderiam ser apenas empregados. Eu me projetara: quisera ser dono daquela loja. Sim, este é um conflito que tenho: não gosto de ser empregado. Desejo autonomia, mas não é fácil. Tentei uma vez como corretor de imóveis. Foi um fiasco, excetuando os contatos e amizades.

Por que eu comprara tal acessório? Ora, eu ainda pensava nas entregas. Pois necessito do meu celular carregado para guiar por aí com pacotes. Mais um investimento neste sentido. Já fora a revisão do carro, combustível, e agora o carregador. Vai dar tudo certo? Tem que ser assim? Ora, tem que ser como for. Tudo é literatura.

Eu me compreendo. E sei que tais conflitos pelos quais passo se dão em razão das minhas emoções. Um sociólogo poderia dizer que tenho noção da minha realidade e das demais pessoas. De fato, eu tenho. Mas parece que a felicidade tem como principal função a alienação. Entre alienação e infelicidade, fico com a felicidade.

Eu ainda não almocei. O app Shippify me interrompeu: avisou-me de uma entrega. Enquanto fui ao google maps para verificar a distância, outro entregador aceitou a tarefa. É assim: tem que ser rápido. Ainda estou aprendendo. Faltam-me certezas. 

Minha mãe indagou se almocei. Deixei um bife fora do congelador, disse-me.  Estou sem fome. A ansiedade me alimenta. Mas nada tão grave. É preciso alguma ansiedade para se mover, do contrário é pura letargia. Claro, não estou abdicando do equilíbrio, acaso ele exista. É muito provável que psicólogos e psiquiatras não saibam o que estão dizendo. Estamos falando de ciência, não de religião. Porque os religiosos, estes realmente não sabem o que estão dizendo.

Minha mãe vê na TV aqueles programas de violência, onde o jornalista finge seriedade em seus comentários sobre as desgraças do mundo. No final do mês gasta bem seu salário astronômico por tantas mortes. 

Depois ela muda de canal e para num pastor com cara de vendedor. Ou são os vendedores que têm cara de pastor? Enfim, ambos vendem. E o macro é o lucro. Mas pense: se o sujeito procura o pastor  para obter sucesso financeiro, o pastor não pode aceitá-lo para o mesmo objetivo? São duas empresas onde só uma ganha.

Por mim, eu não teria TV em casa. A menos que fosse para ver um canal de arte. Só a arte eleva. Além dos bons sentimentos pela humanidade. Não importa que tipo de pessoa. Amar não pede preceitos. Refiro-me ao amor verdadeiro. E, claro, estou falando de quem se ama de fato. O ser humano merece carinho e compreensão. E quem vai compreender os inquisidores? São vítimas também. A humanidade é a grande vítima do mundo e seu algoz é ela própria. 

Segue a vida.

Eu confesso que poucas vezes vivi minhas férias  tal qual eu queria. Nem sei se já fiz isso algum dia. Perdoa, mas as férias me aborrecem. Creio que sou escravo do trabalho. Isso me traz vantagens, pois eu teria um trabalho autônomo onde não necessitasse de férias. Por três anos trabalhei em dois empregos, portanto eu não tinha férias de verdade. Parava em um dos empregos, seguia no outro. E não juntei grana: juntei dívidas. O dinheiro era pouco? Não, eu que não sabia administrar as minhas finanças. Neste ano fui salvo por uma medida do atual governo: o resgate do FGTS das contas inativa. Não fosse isso, eu estaria entre os nomes vermelhos do sistema financeiro. Meu perfil está bom, mas o que está para vir é perigoso. Preciso de grana excedente. Tenho tempo ainda.

É preciso se compreender.

Quando dei título ao texto eu pensara em falar de outras pessoas. Mas me vi no divã, cujo ouvinte  era eu  mesmo. Não sou de dar conselhos. Prefiro citar minhas experiências, meus aprendizados. É melhor fazer terapia com pessoas de profundidade filosófica, ou, então, falar sozinho, acaso você tem algum conteúdo filosófico. É melhor o monólogo do que perder tempo com pessoas presas aos ditames da sociedade e das religiões.

Veja só, é fácil apontar armas. Sobretudo por detrás de uma tela de computador. Os inquisidores amam as redes sociais. Nelas é possível ser o que mais se deseja: covarde. Mas estas pessoas não são vilãs, são vítimas, sobretudo de si. Estão doentes, presas, e insatisfeitas. É necessário levá-las para a casa da compreensão e mostrar-lhes um espelho. Vai doer. E precisa doer. Mas talvez não. É provável mesmo que elas quebrem o espelho e ataquem o terapeuta e publiquem nas redes sociais as fotos da tragédia, que terão muitas curtidas e comentários agressivos de apoio. Não há mais cura em muitos casos. Finda com o fim dos dias. Enterra-se o sofrimento. Tempo perdido. Subsídio para literatura.

Eu estava no mercado, um dos quais eu prefiro. Loja bem arrumada e iluminação agradável, além de boa variedade de produtos. A classe média vai ali. Minha mãe até gosta dessa rede, mas prefere um mais barato e absurdamente desagradável. Sua dentista diz que não quer nem saber de preços: prefere comprar e se divertir.

Eu era uma máquina de compreensão. Melhor seria dizer uma máquina de projeção. Olhava as pessoas e via algumas delas ansiosas e aborrecidas. Eu me projetava e as compreendia em busca de autocompreensão. E tudo isso me fazia mais calmo e menos agressivo.

O supermercado estava cheio. Foi um pouco difícil estacionar. Mas o  lugar é tão agradável e bem arrumado que mesmo lotado não me causou estresse.

Eu procurava, entre tantos produtos, farelo de trigo. Aprendi que é bom para o intestino. Encontrei um belo pacote escrito "fibra de trigo". Desconfiei e iniciei a leitura do rótulo. Vi que era o que eu procurava. Uma senhorinha muito simpática e bem arrumada ficou curiosa. Eu expliquei  sobre o produto. Mas ela procurava outra coisa. Coloquei o pacote no carrinho. Fui para um lado, ela para outro. Na peixaria  eu voltaria  a encontrar esta senhorinha e lhe ofertar um sorriso. Ela quis saber o peso de cada peixe. Após obter a informação disse que faria um telefonema. E  partiu. Não a vi mais. E é muito provável que nunca mais eu volte a vê-la. Não é sempre que vou a este  supermercado.

Mari diz que é preciso amadurecimento para compreender ao outro. E coloca que é difícil tal arte. Não é fácil mesmo. É necessário também as emoções sobre controle. E se compreendemos ao outro a vida se torna mais tranquila. Não buscamos razão, senão apenas apaziguamento e harmonia. Mas não é fácil compreender. Não basta escrever tais linhas ponderadas. Não basta. Mas vale tentar. Já foi dito que tentar é mais importante. Vamos seguir tentando. E talvez jamais conseguir. 

Vale repetir: o ser humano precisa de afetividade, carinho. Só assim podemos aplacar toda essa agressividade. Tenho observado. Reparado. No trabalho, por exemplo: conflitos evitáveis, desnecessários, seletivos. Gente do bem que desponta. Se perde.

Claro, não sejamos inocentes. Tem muita maldade no caldo de discussões e brigas. Tem gente que ama a maldade. Como compreendê-las? Estão de fato doentes? A maldade seria um doença?

E veja, compreender não é perdoar. Não é dar a outra face. É preciso ser justo. Pegue um corrupto. Deve ser punido, sem dúvida. Um bandido, um assassino, idem. Mas punir não significa maltratá-los. Basta que cumpram uma pena de privação de liberdade. E é preciso que se autocusteiem. Ou seja, que trabalhem na prisão. Bom para todos. E assim eles produzem a pagam os danos morais e econômicos causados à sociedade.

Nenhum tipo de animal deve ser fadado aos maus tratos. Isso é doença de quem o faz. Maldade desnecessária.

Termino. Compreendo se não gostou do texto. Compreenda se não o considerou digno de leitura.  É assim mesmo. São as diferenças. Ainda bem que elas existem. Mas não é preciso agredir para expressar seu desapreço. Também não carece elogio acaso tenha havido apreço. Deixemos como está.  E nada mais. 









Rumo a 2018

domingo, outubro 08, 2017 · 0 comentários

Trem noturno para Grajaú. Eu parafraseava o bom filme "Trem noturno para Lisboa", com o excelente Jeremy Irons. Dirigia-me para a casa da minha bela namorada, Marilene Sabino, chamada por todos de Mari. No twitter publiquei minha paráfrase, citando dois fatos que vi. Uma roda de jovens, em que observei a palavra mais repetida por eles: "mano". Depois, uma dupla feminina. Que cantava música gospel. Desafinação e pseudo entusiasmo. É assim mesmo: eu não creio no entusiasmo do religioso. Se existe, é inventado, e o prazo de validade é curto. 

Era uma noite de sábado. Eu trabalhara sete horas. Tive a boa cia do meu grande amigo Alan Davis, já mencionado aqui. Somos "amigos de copo e de cruz". Fazemos parte do regime CLT dentro da instituição que nos emprega. E temos objetivos diferentes. Alan estuda para se tornar professor universitário. Eu caminho para o que chamo de fórmula híbrida: CLT + trabalho autônomo. 

São rumos e são buscas. E a vida segue. Tentar é importante, isso é dizer mais do mesmo. E no que se tenta, estratejar é fundamental. E isso são lições aprendidas durante a vida. Foi o tempo de passo em falso. Já passamos dos 40 anos. 

Ia para o Grajaú, subdistrito em que mora minha linda e adorável Mari. Teríamos algum tempo juntos. Faz sete meses que namoramos. Eu que passei anos sem uma namorada, vivendo de escassas e inúteis aventuras. Demorava. O tempo ia passando. Eu, solteiro. Negando pretendentes. Sendo questionado. Advertido que escolhia demais. Mas permaneci na minha posição. Escolhi. Não que houvesse tantas opções. Elas existiam, eram  poucas, sim. E mesmo nessa escassez eu negava as mãos (e todo o resto) às pretendentes. Até que surgiu a Mari. E, passadas algumas dificuldades, o ajuste da sintonia se deu. E hoje navegamos juntos em mar de harmonia e muito amor. Mari é de fato a única mulher que amei de verdade.

Da estação Pinheiros até a estação Grajaú são muitas paradas. E eu vou lendo notícias ou conversando com a Mari por meio de aplicativos. E reflito. Eu quase sempre faço isso. Tenho refletido muito. Bastante tempo sem escrever, mas absorvendo informações e observando muito.

É comum o chamado "shopping trem" nos vagões da CPTM e Metrô aqui em São Paulo. E são muitos os vendedores. Jovens, em sua maioria. Em busca da autonomia e lucros acima de salários baixos e cargas horárias excessivas. Não que estes jovens vendedores trabalhem menos horas. Mas se extenuam de tanto trabalhar, é por conta própria, como costumam dizer. 

Fábio é sobrinho do meu outro grande amigo, o Gama. Trabalhava comigo na mesma empresa que o Alan Davis. Foi demitido após uma reestruturação na empresa. E ele queria ser demitido. Só não esperava que seria demitido do seu outro emprego. Daí, fiou-se às vendas. Inscreveu-se como microempreendedor, pando o INSS todo mês. Hoje Fábio tem uma renda maior da que tinha com dois salários. Trabalha muito, sem dúvida. Mas não tenho má vontade, nem a preguiça de quando era empregado, diz o jovem empreendedor.

O fato é que a carteira assinada será cada vez coisa mais rara nos anos vindouros. É a chamada "pejotização" da economia. No Brasil já foi aprovada a terceirização geral. Muita gente vai virar prestadora de serviços sem registro em carteira. Ou seja, será contratada com pessoa jurídica: PJ. 

Há aqueles que temem o futuro. Eu vibro. Sim, tenho muito otimismo. Mas comigo, não com o país. Eu penso firmemente que ganharei mais dinheiro nos próximos anos. Claro que todos estamos em função do que ocorre economicamente no país quando se fala em dinheiro e trabalho. Neste sentido, parece-me que o ambiente econômico aqui vai melhorar. Teremos novos investimentos. Menos desemprego e uma população menos endividada e mais confiante para novos gastos e tomadas de empréstimos. 

Claro que seguiremos um país com graves problemas sociais relacionados às desigualdade e enorme violência justamento por conta da citada desigualdade. Sobretudo por que teremos muito provavelmente governos alinhados à agenda neoliberal, cuja principal característica é governar para grupos reduzidos, contemplados à partir das classes médias. Abaixo disso, as pessoas que fiquem com sua própria sorte.

E quem será o candidato vitorioso alinhado à agenda neoliberal. Eu acreditava firmemente que seria o prefeito de São Paulo João Doria. Mas política requer análise constante. Hoje penso que Geraldo Alckmin pode ser favorecido pelo chamado voto útil contra duas ameaças altamente conservadoras: Bolsonaro e Doria. Um nos costumes, outro na economia. 

O Jornal Financial Times afirma que Bolsonaro será eleito. Doria diz que as ideias de Bolsonaro são frágeis e vão se desidratar durante a campanha. Eu concordo com o prefeito, e creio que o deputado carioca chegará em quarto ou terceiro lugar. 

A corrida presidencial segue. Lula deverá ficar de fora por uma condenação em segunda instância. Com isto, o PT não terá um candidato com a musculatura do ex-presidente. Marcará território, nada além disso. De certo, ficará de fora do segundo turno, se houver. A esquerda terá Ciro Gomes e Marina Silva como principais candidatos. Dividida, com a presença ainda do PSOL, dará espaço para a direita decidir entre seus candidatos as vagas no segundo turno ou uma vitória já em primeiro turno. E é nessa fraqueza e divisão da esquerda que vejo a oportunidade para Alckmin rumar à vitória, recheado de voto útil de progressistas, temerosos de uma vitória mais ainda à direita do Doria ou Bolsonaro.

Muita água ainda vai rolar. A Lava-Jato ainda ameaça o atual governador de São Paulo. Aécio e Serra já ficaram para trás. Cabe a Alckmin engolir sua cria: João Doria. Livrar-se de eventuais denúncias. Lula deverá morrer na praia. Marina não vai muito além dos 20% de voto. Ciro não tem força. Bolsonaro é só uma onda. E Doria pode ser derrotado pelo voto útil em Alckmin.

Aguardemos os próximos lances no tabuleiro de 2018. Nossa frágil democracia, que anda sendo contestada, passa por um teste difícil. Deverá sobreviver. Mas certamente tem dado passos para trás em relação ao seu fortalecimento. Se tivermos eleições no ano que vem, já deveremos nos dar por contente. Quanto ao resultado, que seja o menos pior para o Brasil.








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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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