Adelcir Oliveira (Delneri)
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Baldeações e despretensão
Não sei se a hora importa ou faz diferença para o leitor. Sei que é manhã e que devo estar em meu destino às 10h. O dia está bonito, faz até sol. Pode ser que alguém diga que o dia frio também pode ser belo. Cada um tem seus próprios olhos e sua alma. “Olhos da alma”.
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Mais uma vez estou num vagão de uma composição ferroviária. Metrô. São Paulo. Tucuruvi a Sé, sentido Barra Funda. Mas o destino final é outro e vai ser necessário utilizar os serviços da CPTM. É o que chamamos de Trem aqui em Sampa. Pegarei sentido Itapevi. Desembarco na Estação Lapa. Depois disto, mais alguns minutos de caminhada. Sigo para mais uma entrevista de emprego. Vou tão despretensioso que isto pode me ser desfavorável. De qualquer forma, visto-me bem. Terno e gravata. Sapato da marca que gosto. Vamos ver o que será. Depois disto é provável que eu visite agências de emprego. Mas deixo aqui uma confissão: o desejo de não ter mais patrão.
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Estou na Linha Vermelha com destino à Barra Funda, conforme eu disse. Este é um trem reformado. O ar condicionado está forte, dá até para sentir frio na mão que segura um dos balaustres do vagão. Se antes havia lotação total, agora já não há tantas pessoas assim. Este trecho de viagem é curto. Sigo tranqüilo. O trem da CPTM acelera. Já, já estou na Lapa. Tudo está tranqüilo e “pelas ordens”.
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Preciso reforçar meu café da manhã. E já o fiz, em verdade. Ocorre que escrevo com interrupções. Que se dão nas baldeações. E antes de pegar um ônibus, posto que declinei de fazer uma caminhada até a empresa onde busco uma vaga, reforcei meu desayuno em uma lanchonete sofrível e com atendimento precário e mal-humorado. No que se refere a atendimento há muito desaviso ainda. Diversos empresários alienados em relação às mudanças do Marketing. E não são apenas pequenas empresas. Muitas gigantes ainda estão em outra Era.
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A entrevista já se deu. Surpreendi-me com a juventude do gerente, bem como com seu entusiasmo. Estive seguro e tranqüilo, mas creio que não serei selecionado. E o motivo é minha formação. E se eu te treino e você depois abandona a empresa para trabalhar com jornalismo? , desafiou-me o gerente. Entendo perfeitamente seu ponto de vista. E até vi a pergunta como um desafio em relação a meu comportamento frente a objeções. De minha parte estou tranqüilo. Volto para casa sem acreditar que uma nova entrevista será marcada.
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Sigo para casa. Antes disso fiz a procura por um padre. Não, não se trata de qualquer padre, senão um ex-colega de trabalho. Gente muito boa que pediu-me que não desaparecesse. Faz alguns anos que não o vejo. Há uma minoria do passado que vale à pena reatar contato.
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A fome já chegou. Vou almoçar em minha casa. À noite tenho um compromisso. Após isto, seguirei rumos afetivos. Terei a companhia de uma mulher muito agradável, que opta por discrição, assim como eu também opto.
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Houve o telefonema. Uma segunda entrevista foi agendada. Refiro-me à empresa a qual fui hoje. Irei com a mesma tranqüilidade. Claro que desta vez mais preparado, posto que algumas perguntas podem se repetir, calculo. E vou mais uma vez despretensioso. Se der certo, deu.
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Já é noite. Mais uma vez me desloco nesta cidade grande. Um compromisso semanal onde exponho minha alma em busca de autoconhecimento. Algo que todos devem fazer. Conhecer-se é preciso. Os caminhos são variados. Cada um escolhe o seu.
(TEXTO SEM FINAL)
Olhar e decisão
esquina da São João com a Ipiranga
Deixemos o espaço vazio. Não há mais ninguém. Não há mesas, garrafas ou copos. Silêncio de imagens. Vazio total. Nenhum burburinho. Tudo por um ou dois segundos. Exato instante da duração do olhar. Um vestido e pernas grossas à mostra. Classe e elegância. Assim que a viu entrar decidiu que a teria. Olhar e conclusão.
As horas foram passando e ele tramando. Precisava tirá-la dali. Banda tocando e pessoas dançando. Bebidas sendo servidas. Porções consumidas. Fotos. Noite, sábado e calor. Esquina da São João com a Ipiranga. Bar tradicional de São Paulo. -
Café na balada? Questionou-lhe o garçom de modo deselegante. Mas isso foi em outra noite, outro local, pessoas diferentes. Ali no Bar Brahma havia café e ele sabia disto. Não que fosse freqüentador assíduo, apenas estivera ali em certa tarde e tomara solitariamente um café. -
Você me acompanha em um café, perguntou-lhe delicadamente. Foi o modo que encontrou de ficar a sós com ela. Dali para outro ambiente. Agora era ele e ela, duas xícaras e carinho numa das mãos. Beijo na mesma mão. Encontro de lábios na sequência. Beijo curto. Contas pagas. Mãos dadas e Metrô. Mais café. Vinho. Risadas e noite adentro. Fechemos os olhos e respeitemos o encontro de dois corpos.
Sons de uma noite na metrópole
Ouço o som do despertador. Canção das horas que me agrada. Há outros sons. Do avião que passa. Da moto ao longe. De um portão que eu não sei abre ou fecha. Do alarme do carro. Do trânsito na avenida lá embaixo. São os indícios de que há vidas. Gente que ainda não dorme. Que retorna para casa ou segue para o trabalho, já que a cidade não para. E dessas pessoas pra lá e pra cá o que se tem de poético é cada uma delas com sua própria realidade, o que faz a realidade mais bela.
Os sons ainda prosseguem. As noites têm suas próprias canções. Digo no plural, pois cada canto deste mundo produz sons os mais variados. Basta você dormir em uma cidade pequena e sua experiência será diferente. Vale à pena fazer isto.
Eu imagino as pessoas que dormem lá no Centro. Refiro-me a São Paulo. Uma população de moradores de rua. Que canção da noite eles ouvem? Nas ruas do Centro Velho de São Paulo, por onde não passam carros, o silêncio impera. A esta hora ninguém passa por ali, a não ser aqueles que habitam essas ruas de pedra. Para alguns que se deitam sobre o chão e se protegem do frio com cobertores doados, o único som é o que vem da própria mente.
A madrugada já teve início. Sigo acordado, mas não é por insônia. Eu poderia estar preocupado com um fato ocorrido, mas sigo tranqüilo, mesmo incerto de como as coisas se resolverão. Olho para a vida e vejo que o centro do mundo não pode ser os nossos problemas, que muitas vezes são soluções disfarçadas.
Utilizo uma vez mais o celular para escrever. E o faço no escuro. São os tempos. Com aparelho mais avançado, eu poderia enviar o texto para revisão ao término da escrita. Não vai demorar, poderei fazer isto.
Os sons da noite prosseguem na metrópole. Eles se repetem. Não exatamente de modo igual. O único som que se mantém o mesmo desde o início deste texto é o tic-tac do relógio, que vez em quando eu nem me dou conta...
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Releitura
“No metrô não é permitido sentar no chão”. Exemplo de algumas palavras que vez ou outra são anunciadas pelas diversas caixas acústicas espalhadas na estação Vila Mariana. Sigo aqui fazendo um determinado trabalho. Sentado ao stand, observo. As regras impostas dizem que não se pode ler aqui. É preciso ficar atento aos que se aproximam. De certo, escrever é pecado muito maior.
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Verônica Araújo, 29, Pedagoga
Observação do autor:
Apenas para elucidar, não utilizo de ficção nos textos que escrevo... É que a realidade imita a ficção às vezes...É como dizer que a vida imita a arte, não o contrário.
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