Um passeio arriscado

segunda-feira, setembro 30, 2019 · 0 comentários

Sábado passado. Olhei no google como fazia para chegar à Alameda Eduardo Prado no Centro de Sampa. Eu tinha rumo certo: Armazém do Campo. Tratá-se de uma loja do MST, que também é um restaurante. Fui para conhecer, embora se tratasse de um evento. Era um almoço de resistência. Movimentos sociais resistem em um país tão conservador e tão desigual. Mas isso é outro assunto.

Fui de transporte público. Desci na estação Tiradentes do Metrô. Ali, resolvi pegar um táxi. Não davam mais que quinze minutos. Arrisquei uma saída e dei de cara com um ponto de táxi. Escolhi o mais atento, que me chamou até seu carro. Era uma Spin da Chevrolet, modelo que considero adequado para a prestação do serviço. Mas percebia-se precariedade não apenas no motorista. O carro demonstrava problemas mecânicos ao vibrar demais. 

A corrida não deu treze reais, e eu me certificara que era possível pagar com crédito. Parei em frente ao local. Era minha primeira vez. Curioso, adentrei à loja. Nas prateleiras, produção agrícola do MST. E também itens industrializados, como camisetas e bonés. A causa política era evidente. 

O almoço não estava pronto, demoraria mais uns quinze minutos. "Arroz do campo", ou "arroz carreteiro". Opções do dia. Escolhi o primeiro, por ser vegano e ter uma aparência melhor. E estava uma delícia. Comi em um prato de barro, o que trouxe mais glamour.

Eu esperava sentado à mesa ali na rua. Vi um morador de rua se aproximar. Ele abordou uma casal,  que lhe negou atenção e ajuda. Na hora desejei que ele passasse direto, o que não ocorreu. Abordou-me de forma educada. E convidei-o para sentar junto comigo. Ele titubeou e pediu confirmação do convite. 

Wendel. Esse era o nome do rapaz de 47 anos, salvo engano. O sobrenome não me recordo. Percebi de cara que ele não queria comida. Preferia mesmo era bebida. Não aceitou uma dose de pinga por achar muito caro. "Oito reais! Dá pra comprar 1 litro"! Optamos pela cerveja, cuja garrafa não sabíamos que fosse tão pequena.

Conversamos. Ouvi suas histórias. Contou-me seus dramas. Seu traço principal era a raiva. Relatou agressões físicas a muitas pessoas, inclusive policiais militares. Em dado momento eu achava  engraçado. Bateu em muita gente. "Estou a 40 dias sem bater em ninguém". 

Enquanto Wendel bebeu, eu almocei. O "arroz do campo" estava maravilhoso. A atendente que me serviu disse que foi feito em parceria com um chefe de cozinha. O MST possui apoios de pessoas que estão bem economicamente e que abraçam a causa. 

Em dado momento, formou-se fila para retirada do bilhete que dava direito ao prato, cujo preço era vinte e cinco reais. Para mim, um preço um tanto salgado. Mas valia à pena. 

Após a minha refeição, eu e Wendel permanecemos conversando. Contou-me do Abel "Seriguela", que se tratava de um produtor que vende a fruta entre aspas. Disse-me que em um dado dia pediu-lhe emprego. Falava dele com respeito. Era um patrão que havia lhe dado uma oportunidade de tentar sair daquela realidade, ou ao menos melhorá-la.  De repente, Wendel colocou um papel sobre a mesa com o telefone do Abel. Ligamos para ele do meu celular. Ao falar com o patrão, que ele chama de pai, sua carência afetiva se evidenciava. Demorou-se alguns minutos ao telefone, até que avisou que precisava desligar para não abusar da minha ajuda. 

Ainda à mesa,  percebemos que outras pessoas precisavam sentar-se para comer de forma adequada e confortável.

Partimos. Dali mesmo, no Campos Elíseos, fomos a um supermercado comprar uma cachaça para Wendel. Esse foi o único vício que ele confessou. Após a compra, pedi que ele me levasse até a Bela Vista. E durante a caminhada uma parada que não sairá da minha mente. 

Ele contara-me que dorme em albergues. Eu perguntei como era o local e onde ficava. Eu não imaginara que fosse na Cracolândia. 

Durante o nosso trajeto Wendel foi me explicando sobre a cidade. E também conversávamos sobre realidades as mais diversas. Sua inteligência e consciência a respeito do mundo, da vida e das pessoas, deixa a maioria dos meus conhecidos sem ter o que dizer, tamanha falta de informação e capacidade de discernimento acerca do mundo em que vive. Não à toa, somos o país com a segunda pior percepção de sua própria realidade. 

Quer ir à Cracolândia? Foi o que me indagou. Receei. E ele completou, lembrando-me que eu queria conhecer seu albergue. 

Estávamos na Luz. Aceitei o convite. Fomos nos aproximando. Ao longe vi a cena antes vista na TV. Tive medo. A presença da Guarda Municipal deu-me mais confiança. A rua que dava acesso à Cracolândia causou-me espanto por ter uma padaria. Também tinha pousadas, onde Wendel diz que dorme às vezes quando pode pagar os dez reais. 

Então eu lhe avisei que não iria adiante, mas Wendel insistiu. E fomos. Passamos pelos policiais, dos quais cumprimentei um deles, sem que ele correspondesse. Wendel pediu-me que não encarasse ninguém. Eu já estava no meio daquela loucura. 

Ali, no meio da Cracolândia, há um centro de atendimento. Passamos pelo portão que se encontrava aberto. Pessoas deitadas no chão e dormindo. O local estava cheio. Não era fácil estar ali, pois eu me sentia ameaçado o tempo todo. A minha garantia era o Wendel. Tranquilizei-me ao ver o funcionários do local. Conversei com uma delas, que me explicou um pouco sobre como funcionava ali. A moça perguntou o que eu precisava. Disse que só estava conhecendo.

Fui apresentado a alguns conhecidos do Wendel, que me intitulava como seu primo. Um deles trazia sorriso no rosto e até serenidade. Perguntou-me se eu curtia uma "baseado". Respondi que não, de forma tranquila e simpática, após apertar sua mão. Foi quando percebi que Wendel omitira seu vício. O rapaz disse para que ele providenciasse um baseado. Ora, ali era um local de atendimento para os viciados em crack. Não seria por outro motivo que Wendel estaria ali. 

Lá no Armazém do Campo, Wendel contou-me que caíra na depressão após a morte de sua mãe. Disse que era filho único e a mãe era seu maior bem. Tentou suicídio algumas vezes.  Narrou que fora construtor e que vivia bem. Tinha carro e moto. Andava bem vestido. Perguntei-lhe sobre as mulheres, ao que ele respondeu que não gostava delas. 


Duas mulheres iniciaram discussão com um rapaz, que não atinava muito sobre o que estava acontecendo. A agressividade era alta. Wendel apartou, disse para o rapaz "cair fora". Imaginei que sairia um confusão ali e minha casa cairia. Mas tudo se resolveu. "Tô tirando você do problema", disse Wendel ao jovem negro um tanto confuso.

A maioria ali são negros. E o semblante de sono é uma marca. Parecem zumbis. Essas pessoas não existem. Mas aquelas que estão em frente a um celular em redes sociais aceitando tudo que aparece na tela: elas existem? A droga delas é virtual. Necessitamos de mais livros e menos celulares. Eu tô tentando abandonar um pouco as redes sociais. Não é fácil.

Vícios. Imagine a dificuldade para o sujeito deixar o crack, droga que dizem ser a mais pesada. Ora, pede para uma pessoa ficar uma semana sem celular. Veja bem: a droga só muda de nome. O vício só se modifica. Antes era a TV. Quanta idiotice propagada...

Surpreendi-me. Do outro lado da rua, ainda na Cracolândia, um centro de recuperação. No local tem academia e curso de culinária. Achei incrível, pois eu não sabia disso. Funcionários de branco demonstravam tranquilidade. Considerei barra pesada aquelas vagas de emprego. Wendel informou que alguns dos trabalhadores ali também usam drogas. Ora, não são os únicos por toda a cidade.

Entenda, não curto drogas. Jamais usei. Nem cigarro fumei. Nunca fiquei bêbado. Que tédio, disse-me ironicamente o amigo filósofo, Luís Eduardo Nogueira. Respeito. Você faz o que quiser de si dentro dos limites do outro. Se não curto os diversos tipos de drogas, não significa que eu tenha uma visão moralista. Está claro que nossa política contra elas é um equívoco. Sou a favor da legalização. Para mim, não se trata de um caso de polícia, mas de saúde.

Desde que surgiu em meu campo de visão, Wendel tinha em mãos uma bola de novelo. Queria vendê-la. E para que seria o dinheiro? Não parece ser difícil de acertar. E lá na Cracolândia ele reportou que venderia seu artefato por ali. Fiz a oferta: eu a compraria com tanto que ele me tirasse dali. Aceitou, mas adentramos ainda mais naquela bagunça. Se o inferno existisse, uma parte dele seria ali.

Caminhamos. Conheci um senhor de camisa branca, o qual é conhecido como pai. Apertei sua mão. Um homem me cutucou. Olhei para baixo e ouvi uma reclamação: "Sua blusa pegou no rosto dela". Desculpei-me. Qualquer faísca ali eu viraria pó.

Olha lá, avisou-me Wendel. Eram os traficantes. Três mesas de plásticos e os blocos de crack para serem cortados. Surreal: à luz do dia.

Quando viramos à esquerda, vi o carro da CGM. Um homem e um bela mulher. Dois guardas municipais. Alívio. Mais à frente, uma praça belíssima. Fora reformada recentemente, explicou-me Wendel. Em verdade, o local está em recuperação. Moradias estão chegando. Wendel disse que a Cracolândia vai sair dali.

Claro. Não dá para passar uma experiência dessa e ficar inerte. Eu não estava bem. Queria ir para casa e me livrar de Wendel o quanto antes. Mas a bola de novelo nos ligava. Ele não esquecera: queria vendê-la.

Mas seu estava sem meu cartão do banco e sem dinheiro na carteira. De maneira que, só poderia sacar os dez reais em um caixa do meu banco utilizando minha digital. Mas não havia agências por ali. Wendel entendeu, pedindo-me que lhe pagasse uma "corote". Assim, o fiz. Ofereci alimento também, ele pegou uma garrafa de leite, trocando-a por uma caixa por ser mais barata.

Antes de se despedir de mim, pediu que eu lhe passasse meu número de telefone. Ali no Supermercado Extra, numa loja precária e bem movimentada, a moça que vendia cartões de crédito do local, não tinha caneta em seu stand. O segurança teve que emprestá-la. Anotei e entreguei ao meu guia turístico morador de albergue. E parti. Eu precisava partir.



Bom dia. Boa tarde.

terça-feira, setembro 10, 2019 · 0 comentários

Ao entrar àquele Café de outras vezes saudei as atendentes com o título deste texto. Elas brincaram com a minha saudação. Revelei que acordara tarde e olhei nos olhos de uma delas, buscando desconfianças...

O Café fica no shopping Tucuruvi, tão desagradável quanto os demais shoppings pela cidade. Tomava meu café antes de ir para a academia, que fica no centro comercial citado. Eu observava as mulheres que passavam. Autoestima e libido em alta.

Noite de quinta-feira. Buscava flertes nos apps de relacionamentos. Os poucos que haviam não me convenciam. Precisava de uma solução mais prática.

Normalmente prefiro os táxis tradicionais. Não gosto de esperar motoristas de aplicativos. Mas era tarde e optei por um preço mais barato. O carro passou direto. Não me viu saindo pelo portão. Ainda andei em direção ao carro, que se afastava cada vez mais. Fui em outro veículo.  O motorista, feito a mim, não queria papo. 

Eu marcara às 23h40min. E gosto de pontualidade. Não foi dessa vez que falhei. O local era um flat-hotel. Sayuri, por favor. Hóspede? perguntou o recepcionista. Respondi que sim, já que foi a primeira resposta que me ocorreu. No fim, necessitava do número do apartamento. Aguarde em frente ao elevador,  ela virá buscá-lo, orientou-me o jovem rapaz da recepção.

Foram dez minutos de espera e ansiedade. Tudo me era novidade. Sentia-me exposto, embora calculasse que tal situação fosse corriqueira por ali. Até que ela chegou, e no elevador mesmo me beijou. O combinado mudou. Não fiquei apenas 1h. Dormi no local. Noite de sexo, conversas e risadas. Sayuri se mostrou encantadora e cheia de carisma.

A parte burocrática se deu madrugada adentro. Entre taças de vinho e sorrisos, nunca conversei tanto com uma mulher. Acho que também nunca elogiei tanto uma mulher.

De fato, Sayuri é muito bela. Comunicativa, usa seu carisma para conquistar. Sua estratégia é fidelizar o cliente. E faz isso sendo carinhosa e desejosa. Traz consigo a simplicidade de suas origens humildes. Revela alguns conflitos do passado. E diz sobre seu projeto de comprar uma casa.

Saí do flat às 13h da sexta-feira após meu terceiro banho no local. Era dia de trabalho e eu pouco dormira. Raramente quebro meus protocolos. A aventura valeu à pena. O preço pago foi resultado da carência.

Tudo que eu mais queria é que aquela sexta-feira terminasse. O frio intenso aumentava esse desejo. Troquei mensagens com Sayuri. Dediquei-lhe palavras carinhosas. Se voltarei a vê-la, não sei dizer. Deixemos para depois essa burocracia do tempo.

Retorno do trabalho neste primeiro dia da semana rotulado de útil. Se lá fora faz um calor saudoso, aqui dentro o frio é intenso. O vagão está cheio. Um sujeito de cara amarrada senta-se no chão. Será aborrecimento ou bebida? Ou será outra coisa? Ou nada?

Hoje cortei o cabelo e o resultado foi deplorável. O que me favorece é que já não me prendo à aparência como quando era jovem. É fato que os anos levaram grande parte do que eu considerava belo em minha feição. Passam-se os anos e os cabelos se escasseiam. Parte da maturidade advinda trouxe-me o desprendimento que traz segurança.

Os elogios de Sayuri me agradaram. Tivesse ela sido exagerada, cairia eu em desconfiança. O último dia que nos falamos foi no sábado seguinte àquela noite fria de quinta-feira.

Talvez eu queira revê-la. Recordo-me de alguns pedidos seus. Presentes, passeios e até cartas. Eu revelara à ela meu passado romântico, que se dissipou nas inúmeras cartas de amor que escrevi para diferentes mulheres. Prometi-lhe nada além de uma carta de admiração, o que agora me parece um blefe. 

Amigas e minha ex-namorada indagam-me por que nunca tenho dinheiro. Não, esse texto não é uma revelação. Se me endividei foi pois que caí nas armadilhas do sistema financeiro. Hoje não tenho mais cheque-especial, aperitivo que custa caro. Cartões de crédito estão em dia. Restam dois empréstimos a serem quitados em vinte e quatro meses, onde algumas parcelas já foram pagas. Meu nome segue limpo como sempre. Poucas vezes fui negativado. Minha nota de crédito é boa.

Sem vícios, o que me levou às dívidas foram meus desmandos nas finanças pessoais. Basicamente: gastar mais do que eu ganhava. O problema jamais foi ganhar pouco.

Vendi meu carro há cinco meses. Falta uma parcela. Dentre inúmeros prejuízos, nada se compara à compra do carro, cujo financiamento custou-me parte do meu FGTS inativo, sem o qual não teria conseguido quitar o financiamento. Juros à flôr da pele. Arrancaram-me o couro.

Hoje passo em frente à uma mecânica e me alivio. Já não deixo parte do meu salário para os mecânicos. O mesmo sinto em relação aos postos de combustíveis, cujos gastos com gasolina eram semanais.

Dei esse conselho à Sayuri: não comprar um carro. Indiquei-lhe adquirir dois imóveis e ganhar com locação. Ela recebeu com desesperança tal indicação. Sua carência e a preocupação com o futuro eram detalhes que não me escapavam. 

Mas o que marcou foi uma revelação quanto à solidão que elas vivem. "Ganhamos dinheiro, mas não temos vida social". A carência dói nelas. "A vida é dura". Pensemos: elas têm clientes e poucos amigos. O grau de desconfiança delas é grande. No fim, nós clientes somos os vilões e ainda deixamos nosso dinheiro. Mas nem sempre é assim.

Sayuri não me contou muitas histórias porque não as pedi. Mas houve alguns tira-gostos. Um que chorou o término com a namorada. Outro que perdeu a virgindade aos 40. E até aquele hóspede do hotel que desceu para passar uma camisa e teve cinco minutos com Sayuri. 

Hoje, madrugada de terça-feira. Há pouco e conversava com Sayuri por meio de  mensagens instantâneas. Prometi retornar no início de outubro. Ela cobrou-me um poema. Os problemas são que não me recordava da promessa e não sou poeta. De forma que, criei uma dívida impagável. Se serve esta crônica, muito bem. 

A esta hora, duas da manhã, como me despedir do leitor? Seria boa noite, bom dia? Não sei. Não importa. Apenas me despeço por agora. 



Suspeitos de amarelo

sexta-feira, julho 05, 2019 · 0 comentários




Catraca da estação Jd. S. Paulo. Metrô. Casal branco de camiseta da "selecinha" brasileira. O homem branco disse algo sobre o Moro para a metroviária, que optou pelo silêncio e simpatia no rosto. Deve ser petista, disse o homem branco de amarelo. E completou: "Pela cara...". Sua esposa nada respondeu, acompanhando-o como provavelmente sempre faz.

Ele olhou-me.  Mantive a cabeça erguida com os olhos adiante. O casal de branco e de amarelo desceu uma escada. Eu desci outra.

Desavisado, calculei que haveria manifestação pró-Moro. Foi quando passei a suspeitar de todos que estivessem de amarelo, mesmo que não fosse a camiseta canarinho. E aqui vale uma ironia: o atual ministro do meio ambiente mataria facilmente um canário, sobretudo se estivesse em extinção. Seu patrão diria que matar tal passarinho é bom. Quando seus eleitores concordariam fazendo sinal de arma com as mãos. 

Dito isto, eu também me tornara um suspeito. Ocorre que eu também vestia amarelo, para meu desassossego. E mesmo que a minha camiseta trouxesse um grito contra o fascismo, a cor prevalecia. Aos olhos alheios, eu era um defensor de pessoas que atentam contra a democracia.

No domingo em questão, eu saíra para almoçar. Optara pelo Sesc Pinheiros, cuja linha do metrô que me levava era a Amarela. O dia se tornara uma grande ironia.

Sesc Pinheiros. Fila para acessar à comedoria. Fiquei ali uns 30 minutos exposto. 

Ziborgi. Professor universitário conhecido meu. Olhou-me de forma estranha. Pensei ser em função do amarelo. Apertos de mão, e eu sentindo-me julgado de forma injusta. Logo eu, um sujeito progressista e democrático. Conformei-me: haveria oportunidades de esclarecimento. Enfim, eu era suspeito. A cor usada me condenava. 

Após o almoço, não me furtei de uma taça de vinho tinto. Duas xícaras de café completaram meus gastos. Houve ainda um brigadeiro com amendoim. 

Ao partir, optei pelo ônibus como meio de transporte. O belo veículo me levaria ao bairro em que habito. Mas resolvi errar: desci na região da Paulista, justamente onde teria se dado a manifestação. De toda forma, vi um resto de gente vestida de amarelo. Quase ninguém.

Durante o regresso, concluí que seria possível agradar progressistas e conservadores. Os primeiros com os dizeres da minha camiseta contra o fascismo. Os demais com a cor. 

Mas não nego que desagradar conservadores causava-me algum prazer. Não sei se algum deles notou. E se notou, não faço ideia se entendeu. É provável que não.


O dia hoje é outro, e o amarelo prossegue. O fato é que me matriculei em uma academia, cuja cor de destaque é o amarelo, embora o preto prevaleça. A simpática atendente disse-me, após os procedimentos de sempre para quem se matricula, que a professora estaria de amarelo. No decorrer dos treinos, duas ou três pessoas de amarelo entraram em meu campo de visão, o que me fazia confundi-los com professores. Até que decifrei o ambiente e deixei de me confundir.

Outro dia, quando teremos jogo da "selecinha" brasileira. As desconfianças se seguem. Aqueles que hoje vestem a camiseta canarinho, eu não consigo vê-los como torcedores. O fato é que tal camiseta foi deturpada. Politizaram o uniforme e geraram antipatia por parte de pessoas progressistas. Cito-me como exemplo. 

Somado ao citado acima, tem-se o vexame do sete a um, quando fomos humilhados. Ironicamente, aqueles que furtaram as cores do Brasil para expressar nacionalismo, são os mesmos que flertam com regime sanguinário que se deu no país que enfiou sete gols nas redes brasileiras.

São vinte uma horas e nove minutos. A próxima estação é a Carandiru. Desembarco no Tucuruvi e lá embarco em um táxi. Às 21h30min tem Brasil contra a Argentina. E vai ser no mesmo palco do 7 a 1. E, por mais estragos que os fanáticos fizeram à camiseta amarela que hoje entra em campo, não tem como perder o maior clássico do planeta.  

Eu calculara que terminaria o texto no parágrafo anterior. Mas não o fiz, conforme planejado. O Brasil se classificou para a final. E hoje li num site de notícias que o presidente Bolsonaro irá ao estádio ver o jogo. Quando então, como se fora um candidato, jogará para a plateia e fará seu sinalzinho de arma. Entre vaias e aplausos, alimentará seu ego. Muitos que o aplaudirão estarão vestindo a cor aqui mencionada. No dia deste jogo as ruas estarão repletas de suspeitos de amarelo. Ninguém mais olha para o amarelo indiferente. O Brasil mudou, descendo para o subterrâneo das ideias. E o futuro está com uma cara nada boa, meio amarelada...







Pratos de sopa

quinta-feira, junho 13, 2019 · 0 comentários


Foi uma fase. Eu iniciava confessando dificuldade para escrever. Advertiram-me que eu estava repetitivo. Acatei. Daí, guardei para mim os obstáculos para lançar palavras ao papel ou à tela de um computador. Os smartphones não haviam chegado ainda. 

Hoje uso mais o pequeno teclado do celular. Assim, posso escrever em qualquer lugar que seja permitido permanecer com o aparelho ligado. Uso a função "rascunho" do meu e-mail particular. Trabalho em off.

Em outros tempos fazia confissões das emoções. Hoje isso é raro. Opto por narrar minhas andanças. Fatos. E poucas aventuras. Quase nada.

Tenho lido. E não nego: o celular me afastou dos livros. Não completamente. Mas a intensidade com que folheio páginas de papel diminuiu bastante. Mas eu tento.

Cervantes e Pessoa são os autores os quais estou lendo. Dois gênios da literatura. Espanha e Portugal.

Os fatos vão se dando. Boa parte é esquecida. Não sei quais são os critérios da nossa memória. E esquecer muitas vezes é uma forma de defesa. 

Regresso. Vou para casa. Cansado, certo desânimo me domina. De certo, sigo decepcionado. Com tudo. Sobretudo, comigo. É fase? Melhor que seja.

Lembranças. Aquela noite. Eu, em terreno que me desagradava. Música alta e corpos dançantes. Eu, sentado. Se levantei, foi para buscar outra garrafa de água. Ou para ir embora e sumir daquele local. Não foi uma boa escolha aquela casa noturna em Moema.

Nilton Beato me acompanhava. Éramos dois caçadores, ainda que na intenção. Faltavam em nós talento e ingredientes. O fracasso era o mais provável.

Quatro mulheres sentaram-se a uma mesa próxima. Dentre elas, uma se destacava. Falo de beleza. Todavia, sua postura nos fez receosos. Ou teria sido sua sensualidade e beleza que nos retraíra? 

Ela olhou como quem buscava olhares. Eu optara por ignorá-la para mais tarde render-me ao seu belo par de pernas. Ela não deixou por menos: fez de mim alguém inexistente.

Beato trocou sorriso com a mulher em questão. Assustado, declinou do flerte. E indicou preferência por uma outra que denotava mais amadurecimento. Coube a mim fazê-lo se aproximar dela.

Quinze mil reais. Foi o empréstimo que a loira madura fez ao Beato. Passava por severas dificuldades, alegando pressão de agiotas. Tal pedido seu talvez tenha sido no terceiro encontro do casal. E foi o último. A mulher ainda lhe mandou mensagens. Queria entender o afastamento do seu pretendente a credor.

A vida é dura, como disse o personagem principal no filme "Cheiro do ralo". Se vale à pena é outra questão. Cansa às vezes, não dá para negar. Na sequência de dias, as circunstâncias fazem de nós meros personagens. Quase sempre medíocres.

Havia não muitos dias, eu estava solteiro. Eu fora ao apartamento de um ex-professor, hoje um amigo. Ali, no Baixo Augusta. Região fantástica. Luís Eduardo Nogueira é um privilegiado em morar no local citado. Fui lá para conversarmos sobre um projeto. 

Um casal de amigos também o visitava. Eu, solteiro, autoestima boa, fiquei de olho na moça, embora ela não tivesse chamado tanto a minha atenção.

Entre boa conversa e música, anotei o telefone dela. Sedução e convites ficariam para outros dias.

Saímos duas vezes, e não fomos além de beijos. Traumatizada por uma separação temperada com os ingredientes de sempre, era eu o primeiro que ela se interessava. 

Pratos de sopa não foram servidos. Naquela noite o frio intenso nos fez declinar do encontro. Nos sábados seguintes compromissos fizeram com que adiássemos as sopas, que seriam servidas no Varanda Copan. 

Preciso conversar com você, disse-me a moça. A experiência já deixava bem claro do que se tratava. Você vai entender, completou. Voltaria para ex-namorado, que lhe pedira uma segunda chance. Deixou claro que não haveria mais chances.

Pediu-me conselho após alguns dias passados. Estava em dúvida. Fui sincero e sugeri que o seu ex se reaproximara levado pelo ego. De certo, saber que ela saia com outro homem não lhe era fácil.

Não foi nossa última conversa. Houve uma outra com intenções de marcar um encontro entre casais. Ela levaria uma amiga para conhecer o Beato dos parágrafos anteriores. O amigo ficou entusiasmado. Para depois saber do silêncio da moça das sopas. 

Os dias seguem. Não sei se voltarei a falar com ela. Sigo tranquilo. O que se passa de fato, ignoro. Talvez ela tenha reatado com ex e se sente envergonhada de falar comigo. Ou pode ter sido proibida de manter contato. Melhor que não seja algo mais grave. Por enquanto, não há notícias dela.


A vida de solteiro é errante. Eu, homem comum, não sou servido de grandes aventuras. Tento, ao modo meu, regrar com glamour os dias que o trabalho me oferta descanso. Mas a grana é curta e o estado emocional nem sempre me favorece. E ultimamente a letargia tem me escravizado. Tem sido dias difíceis. Se são circunstâncias, melhor assim.

Ontem foi quando iniciei este texto. O fiz num vagão de trem do Metrô de Sampa. Não havia um frio exagerado. O último trecho até a minha casa foi realizado de ônibus. Assim que cheguei, fui direto para a cozinha como de costume. Sobre o fogão, visualizei uma panela. E desejei que fosse uma sopa. E assim finalizei meu dia. Um prato de sopa foi servido. 



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
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