Casa da compreensão

terça-feira, janeiro 09, 2018 · 0 comentários

Fui longe. Peguei as marginais. Eu estava tenso. A ansiedade me atacava. Havia um desânimo e pessimismo. Eram as emoções atuando. Somos animais emotivos. Precisamos de carinho e compreensão. Mas é difícil compreender. Dar carinho vai de cada um. Depende do histórico afetivo. Para muitos dar carinho é impossível. Sei de mim: às vezes sou agressivo e ofensivo. A maldade me tem. No fim, amoleço. E me compreendo. Sou um animal doente. Você também.

Eu perguntara antes: a entrega de fato está disponível? Havia incongruências. Alertei. Sim, está disponível. Retire até às 18h, disse-me via chat a atendente simpática, cujo nome fiquei sabendo depois, quando tal questão virou um problema: falha no sistema.

Sistemas falham como nós humanos falhamos. Normal. Não senti raiva. Talvez não houvesse espaço em mim para tal sentimento. Eu já não estava perto dos 100% fazia alguns dias. Mas eu sabia o motivo.

Voltei para a casa de mãos abanando. Fora um prejuízo, o qual pedi ressarcimento sem esperança. Essas empresas uberizadas trabalham com baixíssimas margens de perdas. Só eles ganham, a gente sobrevive.  É o que tem para hoje. 

Mas tudo podia piorar. O google maps disse-me para manter à esquerda. Assim o fiz: fui parar em uma rodovia concedida. Resumo: paguei pedágio. Conclusão: o prejuízo aumentou. Raiva? Muita! Abusei de palavrões dentro do carro. Esbravejei contra o app de trajetos. Muita raiva! E passou. Passou. Dos males o menor. Sobrava em mim algum positivismo.

Minha namorada, a Mari, perguntou-me se eu estava aborrecido. Fui sincero: não estava. Ela se referia ao ocorrido com o app de entregas (Shippify). Ela não sabia: eu já estava aborrecido há dias. Tal fato em nada mexeu comigo. Serviu como aprendizado: passei a conhecer melhor a dinâmica do app de entregas. Claro, a Vanessa do chat deveria saber disso antes de mim. Mas não sei. Talvez tenha sido novidade para ela também. Às 15h uma entrega disponível  com aviso que era para retirar  às 10h do mesmo dia. Indaguei: ainda está disponível? Sim, está. Não estava.

Eu gosto de guiar meu carro. Mas pouco. E de preferência sem errar caminhos. Eu saíra da oficina após uma revisão e descobrira dois problemas a serem resolvidos. E pagara uma conta alta: 800 reais. O mecânico é de minha confiança. Fez reparos no amortecedor, além de alinhamento, balanceamento, regulagem de faróis e outras verificações. Mas não desejava uma conta tão alta! Três vezes no cartão da Nubank, o cartão cool. E o dinheiro está curto. Tenho que trabalhar mesmo de férias. Sou um trabalhador precário, versátil e sem grana, como disse meu irmão Adalton. Não é fácil sobreviver. E a vida segue em frente.

Dormi cedo. Precisava me ausentar do mundo. E sonhei com entregas. Uma até na Argentina. Entregas das quais não realizei uma que fosse. Tudo era conflito. Eu dormira conflitante. Sim, usar meu carro para ganhar uns trocados. Isso tem cara de prejuízo. A uberização veio para extrair mais trabalho e concentrar mais renda. Preciso dar um jeito.

Claro, eu queria trocar meu carro. Mas não posso, pois tenho prioridades. A minha casa é uma delas: necessita de diversas obras. Aos poucos farei tudo. E nem tudo sozinho: a casa possui mais donos. Eu sou apenas um herdeiro. E moro com a minha mãe. 

Sim, aos 45 anos morando com a mãe. Coutinho disse que as pessoas inteligentes seguem morando com os pais após os 40. Não é o meu caso. Não que eu seja burro, mas é falta de opção mesmo. Entenda, se tento ganhar dinheiro com bicos, é por que sou um homem que ganha pouco. Compreenda: a vida é difícil. E eu não sou o único. Já vivemos a precarização do trabalho. Já deixamos de ser proletariado: viramos precariado.

Compreenda. Mesmo que você não viva isso. O mundo, tal qual o homem o construiu, não é para todos. E sempre, ou quase sempre, haverá alguém pior do que nós.

O sofrimento e as decepções da vida dão a nós as doses de compreensão necessárias para que baixemos nossas armas. "A vida é dura".

Alguém vai dizer que estou muito negativo e pessimista: compreenda.

Mas hoje acordei melhor. Levantei tarde. Depois de muito sonhar. Eu sonho demais. Todas as noites novas aventuras. Às vezes repetidas. Dormir é meu brinquedo. Não importa se não é o predileto.

Pensei logo que acordei: preciso de minhas reservas financeiras. Sim, eu estava melhor, porém pessimista. Pois programara arrecadar dinheiro com as entregas. Mas eu já não garantia em mim que conseguiria fazê-lo. Era um sentimento de fracasso. Mas eu sou contraditório. Você também.

Fui ao caixa eletrônico do Itaú, que dificilmente está quebrado. Não encontrei na tela opções de resgate. Saí tranquilo. Eu estava mais calmo. Fui à padaria 24h que fica perto de minha casa. Brinquei com o atendente, que nunca vi de mau humor. Comi um pão de mandioca e café puro no copo (não era americano). Lembrei que estive ali com minha bela namorada e sua bela filha mais nova. E ri sozinho. Mari odiava que eu gastasse tanto naquela padaria. Você vivia como milionário, disse-me uma vez. 

A contradição de ideias e desejos me fizeram comprar um carregador portátil para celular. Desses para carros. E eu fora excepcionalmente bem atendido. Calculei que ali todos fossem sócios. E admirei tal suposto empreendedorismo. Digo assim, pois todos poderiam ser apenas empregados. Eu me projetara: quisera ser dono daquela loja. Sim, este é um conflito que tenho: não gosto de ser empregado. Desejo autonomia, mas não é fácil. Tentei uma vez como corretor de imóveis. Foi um fiasco, excetuando os contatos e amizades.

Por que eu comprara tal acessório? Ora, eu ainda pensava nas entregas. Pois necessito do meu celular carregado para guiar por aí com pacotes. Mais um investimento neste sentido. Já fora a revisão do carro, combustível, e agora o carregador. Vai dar tudo certo? Tem que ser assim? Ora, tem que ser como for. Tudo é literatura.

Eu me compreendo. E sei que tais conflitos pelos quais passo se dão em razão das minhas emoções. Um sociólogo poderia dizer que tenho noção da minha realidade e das demais pessoas. De fato, eu tenho. Mas parece que a felicidade tem como principal função a alienação. Entre alienação e infelicidade, fico com a felicidade.

Eu ainda não almocei. O app Shippify me interrompeu: avisou-me de uma entrega. Enquanto fui ao google maps para verificar a distância, outro entregador aceitou a tarefa. É assim: tem que ser rápido. Ainda estou aprendendo. Faltam-me certezas. 

Minha mãe indagou se almocei. Deixei um bife fora do congelador, disse-me.  Estou sem fome. A ansiedade me alimenta. Mas nada tão grave. É preciso alguma ansiedade para se mover, do contrário é pura letargia. Claro, não estou abdicando do equilíbrio, acaso ele exista. É muito provável que psicólogos e psiquiatras não saibam o que estão dizendo. Estamos falando de ciência, não de religião. Porque os religiosos, estes realmente não sabem o que estão dizendo.

Minha mãe vê na TV aqueles programas de violência, onde o jornalista finge seriedade em seus comentários sobre as desgraças do mundo. No final do mês gasta bem seu salário astronômico por tantas mortes. 

Depois ela muda de canal e para num pastor com cara de vendedor. Ou são os vendedores que têm cara de pastor? Enfim, ambos vendem. E o macro é o lucro. Mas pense: se o sujeito procura o pastor  para obter sucesso financeiro, o pastor não pode aceitá-lo para o mesmo objetivo? São duas empresas onde só uma ganha.

Por mim, eu não teria TV em casa. A menos que fosse para ver um canal de arte. Só a arte eleva. Além dos bons sentimentos pela humanidade. Não importa que tipo de pessoa. Amar não pede preceitos. Refiro-me ao amor verdadeiro. E, claro, estou falando de quem se ama de fato. O ser humano merece carinho e compreensão. E quem vai compreender os inquisidores? São vítimas também. A humanidade é a grande vítima do mundo e seu algoz é ela própria. 

Segue a vida.

Eu confesso que poucas vezes vivi minhas férias  tal qual eu queria. Nem sei se já fiz isso algum dia. Perdoa, mas as férias me aborrecem. Creio que sou escravo do trabalho. Isso me traz vantagens, pois eu teria um trabalho autônomo onde não necessitasse de férias. Por três anos trabalhei em dois empregos, portanto eu não tinha férias de verdade. Parava em um dos empregos, seguia no outro. E não juntei grana: juntei dívidas. O dinheiro era pouco? Não, eu que não sabia administrar as minhas finanças. Neste ano fui salvo por uma medida do atual governo: o resgate do FGTS das contas inativa. Não fosse isso, eu estaria entre os nomes vermelhos do sistema financeiro. Meu perfil está bom, mas o que está para vir é perigoso. Preciso de grana excedente. Tenho tempo ainda.

É preciso se compreender.

Quando dei título ao texto eu pensara em falar de outras pessoas. Mas me vi no divã, cujo ouvinte  era eu  mesmo. Não sou de dar conselhos. Prefiro citar minhas experiências, meus aprendizados. É melhor fazer terapia com pessoas de profundidade filosófica, ou, então, falar sozinho, acaso você tem algum conteúdo filosófico. É melhor o monólogo do que perder tempo com pessoas presas aos ditames da sociedade e das religiões.

Veja só, é fácil apontar armas. Sobretudo por detrás de uma tela de computador. Os inquisidores amam as redes sociais. Nelas é possível ser o que mais se deseja: covarde. Mas estas pessoas não são vilãs, são vítimas, sobretudo de si. Estão doentes, presas, e insatisfeitas. É necessário levá-la para a casa da compreensão e mostrar-lhes um espelho. Vai doer. E precisa doer. Mas talvez não. É provável mesmo que elas quebrem o espelho e ataquem o terapeuta e publiquem nas redes sociais as fotos da tragédia, que terá muitas curtidas e comentários agressivos de apoio. Não há mais cura em muitos casos. Finda com o fim dos dias. Enterra-se o sofrimento. Tempo perdido. Subsídio para literatura.

Eu estava no mercado, um dos quais eu prefiro. Loja bem arrumada e iluminação agradável, além de boa variedade de produtos. A classe média vai ali. Minha mãe até gosta dessa rede, mas prefere um mais barato e absurdamente desagradável. Sua dentista diz que não quer nem saber de preços: prefere comprar e se divertir.

Eu era uma máquina de compreensão. Melhor seria dizer uma máquina de projeção. Olhava as pessoas e via algumas delas ansiosas e aborrecidas. Eu me projetava e as compreendia em busca de autocompreensão. E tudo isso me fazia mais calmo e menos agressivo.

O supermercado estava cheio. Foi um pouco difícil estacionar. Mas o  lugar é tão agradável e bem arrumado que mesmo lotado não me causou estresse.

Eu procurava, entre tantos produtos, farelo de trigo. Aprendi que é bom para o intestino. Encontrei um belo pacote escrito "fibra de trigo". Desconfiei e iniciei a leitura do rótulo. Vi que era o que eu procurava. Uma senhorinha muito simpática e bem arrumada ficou curiosa. Eu expliquei  sobre o produto. Mas ela procurava outra coisa. Coloquei o pacote no carrinho. Fui para um lado, ela para outro. Na peixaria  eu voltaria  a encontrar esta senhorinha e lhe ofertar um sorriso. Ela quis saber o peso de cada peixe. Após obter a informação disse que faria um telefonema. E  partiu. Não a vi mais. E é muito provável que nunca mais eu volte a vê-la. Não é sempre que vou a este  supermercado.

Mari diz que é preciso amadurecimento para compreender ao outro. E coloca que é difícil tal arte. Não é fácil mesmo. É necessário também as emoções sobre controle. E se compreendemos ao outro a vida se torna mais tranquila. Não buscamos razão, senão apenas apaziguamento e harmonia. Mas não é fácil compreender. Não basta escrever tais linhas ponderadas. Não basta. Mas vale tentar. Já foi dito que tentar é mais importante. Vamos seguir tentando. E talvez jamais conseguir. 

Vale repetir: o ser humano precisa de afetividade, carinho. Só assim podemos aplacar toda essa agressividade. Tenho observado. Reparado. No trabalho, por exemplo: conflitos evitáveis, desnecessários, seletivos. Gente do bem que desponta. Se perde.

Claro, não sejamos inocentes. Tem muita maldade no caldo de discussões e brigas. Tem gente que ama a maldade. Como compreendê-las? Estão de fato doentes? A maldade seria um doença?

E veja, compreender não é perdoar. Não é dar a outra face. É preciso ser justo. Pegue um corrupto. Deve ser punido, sem dúvida. Um bandido, um assassino, idem. Mas punir não significa maltratá-los. Basta que cumpram uma pena de privação de liberdade. E é preciso que se autocusteiem. Ou seja, que trabalhem na prisão. Bom para todos. E assim eles produzem a pagam os danos morais e econômicos causados à sociedade.

Nenhum tipo de animal deve ser fadado aos maus tratos. Isso é doença de quem o faz. Maldade desnecessária.

Termino. Compreendo se não gostou do texto. Compreenda se não o considerou digno de leitura.  É assim mesmo. São as diferenças. Ainda bem que elas existem. Mas não é preciso agredir para expressar seu desapreço. Também não carece elogio acaso tenha havido apreço. Deixemos como está.  E nada mais. 









Rumo a 2018

domingo, outubro 08, 2017 · 0 comentários

Trem noturno para Grajaú. Eu parafraseava o bom filme "Trem noturno para Lisboa", com o excelente Jeremy Irons. Dirigia-me para a casa da minha bela namorada, Marilene Sabino, chamada por todos de Mari. No twitter publiquei minha paráfrase, citando dois fatos que vi. Uma roda de jovens, em que observei a palavra mais repetida por eles: "mano". Depois, uma dupla feminina. Que cantava música gospel. Desafinação e pseudo entusiasmo. É assim mesmo: eu não creio no entusiasmo do religioso. Se existe, é inventado, e o prazo de validade é curto. 

Era uma noite de sábado. Eu trabalhara sete horas. Tive a boa cia do meu grande amigo Alan Davis, já mencionado aqui. Somos "amigos de copo e de cruz". Fazemos parte do regime CLT dentro da instituição que nos emprega. E temos objetivos diferentes. Alan estuda para se tornar professor universitário. Eu caminho para o que chamo de fórmula híbrida: CLT + trabalho autônomo. 

São rumos e são buscas. E a vida segue. Tentar é importante, isso é dizer mais do mesmo. E no que se tenta, estratejar é fundamental. E isso são lições aprendidas durante a vida. Foi o tempo de passo em falso. Já passamos dos 40 anos. 

Ia para o Grajaú, subdistrito em que mora minha linda e adorável Mari. Teríamos algum tempo juntos. Faz sete meses que namoramos. Eu que passei anos sem uma namorada, vivendo de escassas e inúteis aventuras. Demorava. O tempo ia passando. Eu, solteiro. Negando pretendentes. Sendo questionado. Advertido que escolhia demais. Mas permaneci na minha posição. Escolhi. Não que houvesse tantas opções. Elas existiam, eram  poucas, sim. E mesmo nessa escassez eu negava as mãos (e todo o resto) às pretendentes. Até que surgiu a Mari. E, passadas algumas dificuldades, o ajuste da sintonia se deu. E hoje navegamos juntos em mar de harmonia e muito amor. Mari é de fato a única mulher que amei de verdade.

Da estação Pinheiros até a estação Grajaú são muitas paradas. E eu vou lendo notícias ou conversando com a Mari por meio de aplicativos. E reflito. Eu quase sempre faço isso. Tenho refletido muito. Bastante tempo sem escrever, mas absorvendo informações e observando muito.

É comum o chamado "shopping trem" nos vagões da CPTM e Metrô aqui em São Paulo. E são muitos os vendedores. Jovens, em sua maioria. Em busca da autonomia e lucros acima de salários baixos e cargas horárias excessivas. Não que estes jovens vendedores trabalhem menos horas. Mas se extenuam de tanto trabalhar, é por conta própria, como costumam dizer. 

Fábio é sobrinho do meu outro grande amigo, o Gama. Trabalhava comigo na mesma empresa que o Alan Davis. Foi demitido após uma reestruturação na empresa. E ele queria ser demitido. Só não esperava que seria demitido do seu outro emprego. Daí, fiou-se às vendas. Inscreveu-se como microempreendedor, pando o INSS todo mês. Hoje Fábio tem uma renda maior da que tinha com dois salários. Trabalha muito, sem dúvida. Mas não tenho má vontade, nem a preguiça de quando era empregado, diz o jovem empreendedor.

O fato é que a carteira assinada será cada vez coisa mais rara nos anos vindouros. É a chamada "pejotização" da economia. No Brasil já foi aprovada a terceirização geral. Muita gente vai virar prestadora de serviços sem registro em carteira. Ou seja, será contratada com pessoa jurídica: PJ. 

Há aqueles que temem o futuro. Eu vibro. Sim, tenho muito otimismo. Mas comigo, não com o país. Eu penso firmemente que ganharei mais dinheiro nos próximos anos. Claro que todos estamos em função do que ocorre economicamente no país quando se fala em dinheiro e trabalho. Neste sentido, parece-me que o ambiente econômico aqui vai melhorar. Teremos novos investimentos. Menos desemprego e uma população menos endividada e mais confiante para novos gastos e tomadas de empréstimos. 

Claro que seguiremos um país com graves problemas sociais relacionados às desigualdade e enorme violência justamento por conta da citada desigualdade. Sobretudo por que teremos muito provavelmente governos alinhados à agenda neoliberal, cuja principal característica é governar para grupos reduzidos, contemplados à partir das classes médias. Abaixo disso, as pessoas que fiquem com sua própria sorte.

E quem será o candidato vitorioso alinhado à agenda neoliberal. Eu acreditava firmemente que seria o prefeito de São Paulo João Doria. Mas política requer análise constante. Hoje penso que Geraldo Alckmin pode ser favorecido pelo chamado voto útil contra duas ameaças altamente conservadoras: Bolsonaro e Doria. Um nos costumes, outro na economia. 

O Jornal Financial Times afirma que Bolsonaro será eleito. Doria diz que as ideias de Bolsonaro são frágeis e vão se desidratar durante a campanha. Eu concordo com o prefeito, e creio que o deputado carioca chegará em quarto ou terceiro lugar. 

A corrida presidencial segue. Lula deverá ficar de fora por uma condenação em segunda instância. Com isto, o PT não terá um candidato com a musculatura do ex-presidente. Marcará território, nada além disso. De certo, ficará de fora do segundo turno, se houver. A esquerda terá Ciro Gomes e Marina Silva como principais candidatos. Dividida, com a presença ainda do PSOL, dará espaço para a direita decidir entre seus candidatos as vagas no segundo turno ou uma vitória já em primeiro turno. E é nessa fraqueza e divisão da esquerda que vejo a oportunidade para Alckmin rumar à vitória, recheado de voto útil de progressistas, temerosos de uma vitória mais ainda à direita do Doria ou Bolsonaro.

Muita água ainda vai rolar. A Lava-Jato ainda ameaça o atual governador de São Paulo. Aécio e Serra já ficaram para trás. Cabe a Alckmin engolir sua cria: João Doria. Livrar-se de eventuais denúncias. Lula deverá morrer na praia. Marina não vai muito além dos 20% de voto. Ciro não tem força. Bolsonaro é só uma onda. E Doria pode ser derrotado pelo voto útil em Alckmin.

Aguardemos os próximos lances no tabuleiro de 2018. Nossa frágil democracia, que anda sendo contestada, passa por um teste difícil. Deverá sobreviver. Mas certamente tem dado passos para trás em relação ao seu fortalecimento. Se tivermos eleições no ano que vem, já deveremos nos dar por contente. Quanto ao resultado, que seja o menos pior para o Brasil.








Xadrez 2018 de um país sem esperança

sábado, abril 15, 2017 · 0 comentários

Alan Davis, amigo de cafés, conversas, risadas e indignações. Ele cobrou-me esta semana que eu use do prelo. Que eu trabalhe mais os textos antes de publicá-los. Esse amigo, Alan, é jornalista. É pensador. Em respeito ao seu intelecto, eu faço uso do prelo. Esse texto é escrito em papel digital antes de seguir para a plataforma do blog.


Ontem eu havia me preparado para um frio mais intenso. A previsão citava mínima de 14°. Meu preparo foi com roupas do inverno passado. É, meu guarda-roupa segue precário como quase todo trabalhador pelo mundo afora. É, as coisas não vão bem para nós trabalhadores. Aos poucos abandonamos a condição de  proletariado para a de “precariado”. Expressão que li em um bom texto de jornal. Sim, há bons jornais. E não são  Folha ou Estadão. Também não são as revistas prestadoras de serviços ao mercado: Veja ou Isto É. Lamento, mas não respeito quem tem apenas estas publicações como fontes de informação.   Estes veículos escrevem para um público robotizado que não pensa. Gente que sabe apenas bater palmas. Divagar, contestar, refletir, comparar , essa gente não sabe fazê-lo.  Uma capa sensacionalista de revista dita a opinião de pessoas assim.  


Sim, leio Folha, Estadão, Exame às vezes. Leio textos de pessoas conservadoras. Mas também leio El país, Nexo, Carta Capital, e diversos colunistas  mais progressistas como Duvivier, Bernado Mello Franco, Laura Carvalho, entre outros. E, citando um conservador que gosto muito, Coutinho está entre meus preferidos.

Então, o que faço é lamentar aqueles que  vivem como depósito de informações as quais são aquelas que agradam. É preciso contestar o seu próprio pensamento.  Aquilo que você crê. Deixa a certeza para os idiotas. E o que não falta é gente cheia de certeza. Confio mais em gente que indaga do que em gente que afirma. Sobretudo quando se trata de indivíduo cheio de raiva e moralismo.  São, sejamos sinceros, boçais, apenas isso. 


Um texto mais agressivo. Combina com tempos bicudos.  Sim, as redes sociais permitem a muitos a expressão de sua imensa agressividade e ódio. Como disse certo estudioso: a imbecilidade sempre existiu.


É nas questões políticas que a agressividade aparece mais. Uma divisão entre simpatizantes do PT e anti-petistas. Fruto da polarização PT-PSDB.  Que fez o Brasil em dois: um lado azul, outro vermelho. 


E as coisas andam feias para ambos os partidos. Carrego dúvidas se Lula estará solto para ser o candidato do PT. Se Alckmin terá condições políticas de ser apresentar como opção tucana para 2018. Aécio e Serra já são cartas fora do baralho. As eleições chegam no ano que vem, e  o tabuleiro do xadrez eleitoral está muito interessante.


Se hoje eu fosse apostar em uma carta, diria que Doria seria o candidato tucano.  No PT, talvez, Haddad como única opção. Teríamos ainda Bolsonaro por algum partido menor e conservador. E ainda Marina e o PSOL. Caiado pelo DEM deve se apresentar também. Quanto a quem ganha, por ora é impossível prever. 


E Temer? Com a popularidade tão baixa seria difícil imaginá-lo candidato. Mas não se pode duvidar. A questão mais interessante é como o PMDB, partido de grande porte e fortemente atingido pela Lava Jato, se posicionará em 2018.


Como se vê, trago mais dúvidas. É, não sou cheio de certezas. Não tenho comigo, referente à política, o cultivo do ódio. Gosto mesmo é de manter-me apartado e refletir. Claro que voto. Tenho meu voto. E ele é meu. O que posso dizer é que não tenho partido, mas meu viés é de esquerda. Sem radicalizar. Jamais. A radicalização é também para os idiotas.


Tenho debatido com amigos. Alguns, apenas. Alguns de esquerda. Outros de direita. Quase todos um tanto radicais. Parece que é mais fácil ser radical. Daí, você, cego, defende e ataca. Jamais reflete. Refletir é algo mais trabalhoso. Necessita ponderação, análise. Impera duvidar. Como se vê, mais fácil é radicalizar. 


Alan Davis, José Gama, Ronaldo Rosa, Luiz Fernando Machado. São alguns dos amigos os quais eu debato. Às vezes até de forma contundente. Seja da minha parte ou da parte deles. Carregamos discordâncias. Nesse pacote tem gente de esquerda e de direita. Tem radicalismo também. Distorções de informações.  Enfim, tem um pouco de paixão como também tem muito raciocínio. Mas talvez o que mais impera seja a revolta. Pois é, o eleitor brasileiro é um sujeito revoltado. Se olhasse mais para o espelho e verificasse seus atos no dia a dia seria mais tranquilo, menos moralista. 

Os nomes citados são todos amigos. Pessoas do bem. E sempre penso comigo, vale mesmo é a amizade que tenho com eles. E esse grupo representa outros grupos. Há aquilo que nos une. Queremos um país com menos corrupção e mais crescimento econômico. Desejamos estar bem. E estendemos isso aos demais cidadãos.  O problema é o caminho. É aí que surgem as divergências. É quando a porta da realidade se abre. E, então, eu sou obrigado a concordar com meu irmão mais velho, Adalton César: o Brasil não tem  jeito. Adalton disse tacitamente: “Não tenho esperança no Brasil”.



Alguns cafés e um mergulho em 2018

terça-feira, março 28, 2017 · 0 comentários

Alguns cafés. E são muitos. Diários. Nem sempre em padaria, bar ou um café. Pode ser em casa. No trabalho, na casa de alguém. Varia. E vida é melhor com variações. Mesmices levam ao aborrecimento.


À mesa da frente um sujeito com aspecto pouco amigável. Vestia jeans e camisa de manga curta. Seu companheiro, que usava roupa social, disse ao celular que era o pastor tal.   Conversou rapidamente, demonstrava ansiedade, e sentou-se outra vez. Falavam, o que deu para ouvir, de desvio de dinheiro da "prefeitura". Não sei qual prefeitura. Citavam o Minha Casa, Minha Vida. O pastor, em um dado momento, virou-se para trás a fim de certificar se alguém ouvia, seu eu ouvia. E eu ouvia. 

Por vários momentos me desliguei da dupla. Claro, seres humanos menores. Depois, quando retornei minha atenção a eles, os comparei à trinca de enfermeiros que se divertia ao balcão daquela padaria. Eles carregavam mais leveza que a nossa dupla de cima. Eu mesmo era alguém mais leve. De maneira que, fiz um brinde à honestidade. A vida simples e honesta é melhor para a saúde. De que vale tanto dinheiro e tanto embrutecimento?

Sábado apreciei um café diferenciado. Foi em um desses desagradáveis shoppings de São Paulo. O problema é o barulho. O ambiente é fechado e a algazarra se espalha. Era o Shopping Eldorado. E foi  no Octavio Café. Serviço e bebida excelentes. Vale o quanto cobra. Ideal será ir à loja na rua. Bem melhor. Mais silêncio e elegância.

Eu estava acompanhado. Minha cia era minha namorada. A bela morena por quem me apaixonei. Era um momento com ela. O palco de nosso passeio, como já dito, não era dos melhores. Repito: um shopping barulhento como todo shopping. A rua sempre é mais agradável e mais democrática. Shoppings vendem uma perfeição irreal.

Marilene, minha namorada, é alguém com opinião. Uma evangélica crítica. Sim, ela já não se submete à religião como em tempos passados.  E não é só ela. Filhas e irmãs percorreram o mesmo caminho. Tudo isso depois de alguns prejuízos emocionais. A vida é meio que isso mesmo: uma coleção de sequelas emocionais. Não estamos livres disso. Tudo depende dos fatos. E, em muitos casos, o indivíduo prova de invenções alheias as quais o preço é ele quem paga. No caso de religiões o preço se pago quando se está dentro e depois que você sai. 

Mari, eu e outros a chamamos assim. Ela segue indignada com o governo Temer. Sobretudo com a reforma da Previdência, o qual os investidores mandaram o nosso presidente executá-la. Deram o preço para que o investimento volte ao país. Mas eles querem ganhar mais, o máximo possível. Neste sentido, pedem que o trabalhador tenha benefícios cortados. No pacote a chamada PEC dos gastos públicos, que congela gastos sociais por vinte anos. E a última facada no trabalhador: a aprovação da terceirização geral nas empresas. 

Temer, como qualquer presidente, quer fazer seu país crescer. Gerar emprego, controlar a inflação. Enfim, o trivial. Todo governante quer ficar bem na foto. A questão é quem paga o preço. O mercado determina que o trabalhador pague a conta. Assim, não se vê deste governo qualquer discussão sobre taxar grandes fortunas, discutir a dívida pública brasileira, aumentar impostos dos mais ricos. Tudo isso deixa a Mari indignada. E ela reflete a indignação de muitos eleitores.

Neste sentido, desconfio seriamente que a gestão Temer deu o discurso que a oposição precisava. A esquerda pode se apresentar, ao contrário de Temer junto com PSDB, como amiga do trabalhador. Mas há um detalhe importantíssimo: a esquerda terá que convencer a classe trabalhadora que não será irresponsável com a economia. O povo não vai querer um repeteco dos desmandos do governo Dilma na economia.

E esse texto mergulha em 2018. Que vem trazendo material para muita divagação. Esse é um ano que todos esperamos que passe rápido. Por quê? Ora, o país precisa  urgente de novas eleições, de um presidente outra vez eleito pelo voto. Alguém com compromisso com o povo.  Pois Temer não passa de uma oportunidade da elite econômica de impor suas ideias mediante um governo impopular que, portanto, não tem nada a perder. 


Terminemos o texto com um café. Por esse blog se vê muita menção a esta maravilhosa bebida. E boa parte dos cafés citados aqui carregam consigo muito elegância e glamour. Terminemos de forma mais simples. Um café requentado e servido em xícara sem pires. Tudo isso em casa. Logo após esta última linha. 



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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